Alvejando

A garotinha que ria tinha seis anos e usava um vestido de renda branquíssima, quarado pela mulher que a segurava em seus braços. A mesma que era mãe do homem amarrado ao abacateiro.

À mulher, cabia a obrigação de cuidar da menina. Dar-lhe o que comer e vestir. Atender aos seus choros e manhas, seus cuspes e birras.

O homem amarrado suava, assombrado pela culpa de um delito qualquer. “Entre galinhas, as baratas não tinham razão” — pensou enquanto atavam-lhe os pulsos para o castigo. Todos sabiam: não ia sobreviver. Aquele açoite, feito de couro, corda e nacos de bambu, nunca deixou negro vivo.

As costas dele se abririam até os pulmões, depois a febre e o frio. Iria escarrar placas de sangue e a sede o torturaria. Coração exausto, olhos nublados e ele ficaria duro feito um feixe de galhos. Não era bonito de se ver.

A senhora, que tinha no colo a menina que ria, não poderia acudir o filho. Ficaria escutando seus gemidos na noite enquanto acalentaria o sono da herdeira do senhor.

A menina gritava e dançava. Dizia que era para irem mais à frente pra ver. Era só uma criança, mas já sabia como é que se manda em uma preta.

O chicote desceu cru. As costas iam se abrindo num sorriso descarnado. A mulher engoliu o choro, engoliu o mundo e toda a poeira do chão da fazenda.

O homem só engoliu o grito.

O chicote despedaçava o corpo. As cordas esfolavam e retinham a circulação. Os músculos, feridos pelos chutes do capitão, se dobravam. Tudo ardia e pulsava em desespero.

Pensou na mãe. Nos irmãos. E no abacateiro manchado de sangue velho. Mas dor… doída mesmo… era ouvir toda a desgraça do mundo na risada da menina em seu vestido branco.