gota paulistana

as luzes da cidade
às vezes não chegam no asfalto
as luzes da cidade
parecem que iluminam para o alto
e refletem púrpura e laranja
num céu sempre nublado

ela sempre olha pela janela
os poucos apartamentos acesos
pensa no que faz toda essa gente
o que sente do nascer ao poente
o que chora do se pôr à aurora
sente seus sonhos e seus medos.
olhar a cidade
é ver sua própria humanidade

tem um cigarro na mão
às vezes segura como se fosse seu coração
não se altera e espera
que cada tragada traga
o anseio
a dor
o receio
a vontade
e se torne fumaça
até que se desfaça
sob as luzes da cidade

sem notar-se, precipita
nasce da face
uma gota salina
uma lágrima bonita
que rola afeita
rola à sarjeta
desce o fio
já se foi

sem pressa
a gota precipitada
corre o córrego
galeria, ri o rio
mas não se contem
alguém lhe cantou
que o sal humano
tem como destino o oceano

o que pensar
de uma lágrima paulistana
que quer conhecer o mar?
será ledo engano
de uma água
que não sabe nada,
só sabe nadar?

mas lágrima ainda pode sonhar,
mesmo quando em dúvida, turva

pois bem, então
seja pingo, seja ribeirão
o sonho da água é a curva
ainda que lhe queiram retidão

de desejo flúvio
a lágrima seguirá seu curso
na curvatura dos rios de dentro
da américa do sul
mesmo que demore
mesmo que esqueça
mismo que extraña
mesmo que saudade
vai buscar outros mares
e, salina, estará finalmente à vontade
numa praia cinza de buenos aires

as luzes da cidade
às vezes não chegam no asfalto
parecem que iluminam para o alto
e refletem púrpura e laranja
num céu sempre nublado

(desata a bacia do prata)