Por que a campanha na TV pode ser o “calcanhar de Aquiles” de Bolsonaro?

A eleição presidencial costuma ser marcada por algumas peculiaridades. Entre elas, a queda de braço para formar alianças e coligações. Além do xadrez político para isolar adversários, essa engenharia resulta em mais tempo de exposição dos candidatos nos programas eleitorais no rádio e na TV.
No entanto, a história recente mostra que esse não costuma ser um fator que desequilibra uma eleição. “Se olharmos para as setes eleições desde 1989, em três delas, mais precisamente em 1989, 2002, 2006, não foi o candidato que tinha o maior tempo de TV o vencedor”, explicou o professor de ciências políticas da FGV EAESP, Eduardo Grin.
Grin ressalta que nas eleições de 2002 e 2006, vencidas por Lula, o fator preponderante foi o apelo popular. Enquanto que em 1994 e 1998 Fernando Henrique Cardoso (PSDB) tinha maior tempo de propaganda no Rádio e na TV, assim como Dilma Rousseff (PT) em 2010 e 2014.
Tempo vale ouro
Geraldo Alckmin (PSDB) “abraçou” o Centrão, bloco formado por DEM, PP, PRB e SD, visando um benefício que lhe garantiu 5’32’’ de aparição na Propaganda Eleitoral Gratuita, o maior entre os postulantes ao Planalto.
Fernando Haddad (PT) herdou os 2'08'’ de Lula, considerado inelegível pelo TSE com base nas regras da Lei da Ficha Limpa. Na sequência, surgem Henrique Meirelles (MDB), com 1’55’’ e Álvaro Dias (Pode), com 40’’. Ciro Gomes (PDT) tem 38'’, Marina Silva (Rede) 21'’ e Guilherme Boulos (PSOL) 13'’.
Apesar de liderar as pesquisas de intenções de voto com 22%, Jair Bolsonaro (PSL) tem direito a singelos 8’’ de aparição. Assim como, Cabo Daciolo (Patriotas) e Eymael (DC). João Amoedo (Novo), João Goulart Filho (PPL) e Vera Lúcia (PSTU) surgem com apenas 5'’.
Conforme dados do Ibope, 70% dos brasileiros, 130 milhões de pessoas, ainda têm a televisão como principal meio de informação, principalmente nas regiões Norte/Nordeste e nas classes C, D e E. “Não dá para ignorarmos o peso decisivo que a TV tem em qualquer campanha. Ainda mais no Nordeste, que é o segundo maior colégio eleitoral do Brasil”, enfatizou o acadêmico.
O Ibope também revela que 55% dos brasileiros aptos a votar confirmam que as mídias sociais terão alguma influência na escolha de seus candidatos, enquanto que cerca de 36% desses julgam que as redes sociais terão muita influência.
“Em 2014 sentimos isso de maneira mais expressiva nos dois sentidos. No apoio aos candidatos e na guerrilha de blogs e divulgação de fake news, que influiu nos dois lados para Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB)”, ressaltou o cientista político.
Já em 2018, um dos que candidatos que mais têm utilizado esse artifício é Jair Bolsonaro (PSL). Com quase oito milhões de seguidores, o ex-capitão do Exército iniciou sua campanha há praticamente um ano. Dessa forma, busca uma alternativa para suplantar os módicos 8'’ do Horário Eleitoral.
“A questão é saber se ele terá fôlego para suplementar uma candidatura massificada no Brasil todo apenas fazendo uso das redes sociais. Enquanto seus principais oponentes — Alckmin, Ciro Gomes, Marina Silva e Fernando Haddad — vão aparecer num grande canhão televisivo”, disse.
Pesquisa CNI aponta que o perfil de eleitores de Bolsonaro é majoritariamente de jovens, classe média escolarizada e do sexo masculino.
A disputa maior será pelos eleitores conservadores que atualmente pendem para o candidato do PSL. Por isso, a propaganda eleitoral deve ser o grande divisor, assim como o leque de alianças partdiárias, uma vez que os adversários terão mais tempo de se comunicar com esse eleitor de centro-direita.
“Esse bloco (Centrão) sabe que a única forma de permanecer no poder é eleger Alckmin. Mas qual estrutura partidária que o Bolsonaro tem para fazer sua campanha catapultar?”, indagou o cientista político.
Faltam projetos
A eleição presidencial de 2018 é considerada como um das mais incertas de toda a história política do Brasil. Eduardo Grin aponta que os fatores mais marcantes dessa campanha são: quadro de fragmentação partidária e fragilidade das propostas programáticas dos candidatos.
“Temos balões de ensaio na reforma previdenciária, reforma tributária, reforma trabalhista e nas privatizações. Temos uma incapacidade de candidaturas que apontem projetos e programas ao eleitor”, criticou.
“As candidaturas estão construídas em torno de alguns nichos que falam para si”, completou Eduardo Grin.
