PATOLOGIA HUMANA

NOSSA DOENÇA

Por que será que o tal “ser consciente” é algo tão complexo?

Tão próximo e tão distante?

E digo consciência não somente na sua definição, mas em um sentido mais profundo, mais conectado com nosso âmago.

Sabemos que cada ser humano é único. Nessa lógica, concordamos que cada um de nós é diferente em suas particularidades e em seu todo, correto?

Será mesmo? Será mesmo que apesar de sacudirmos a cabeça para frente e para trás num gesto de concordância, e de termos certas palavras como — igualdade — respeito — diversidade — opinião — em nosso vocabulário, será que sabemos mesmo o que elas significam em lato sensu ?

Pense.

Vamos por partes.

1. PRÓXIMO X DISTANTE

Com a quantidade de acesso a informação que temos, dos mais variados tipos, não nos surpreendemos facilmente. Porém, com certa frequência, acabamos nos tornando seres exigentes e doutos em opinião (rs).

Opinião — olha aí umas das palavras que mais me despertam amor e ódio.

Segundo um estudo realizado anualmente pelo Facebook, quase metade do planeta tem acesso a internet. São cerca de 3,2 bilhões de pessoas com acesso a essa magnífica ferramenta do conhecimento.

Tá, mas o que isso quer dizer? Bem, para ser 100% sincero, não muita coisa. No mínimo que a tecnologia continua sua feroz crescente.

A consequência imediata disso é um aumento considerável de egoísmo. Mas como assim? — Apesar de termos disponível uma quantidade incessável de conteúdos, sobre cultura, arte, música, etc, ainda assim, não sabemos como lidar com isso, não temos uma capacidade cognitiva mínima para utilizar a ferramente e por sequência matemática — somos egoístas, moldados e criados para sermos assim, ou seja, nos importamos pouco ou sequer nos importamos em agregar conhecimento sobre o outro.


2. O OUTRO

Durkheim, há mais de um seculo identificou algo bem interessante. Nós, sociedades ocidentais, somos individualistas. Nessa individualidade — diferenciação os vínculos sociais não se formam mais por uma igualdade praticamente absoluta de pensamentos e ações, e sim, pela interdependência dos diferentes e singulares indivíduos.

Quando ainda crianças, escutamos com atenção nossos responsáveis nos dizerem sobre como o mundo é um lugar hostil e perigoso, que devemos ter cuidado, que não devemos sequer falar com estranhos.

Na época, nem entendemos direito o que isso quer dizer, mas acolhemos e obedecemos estes “ensinamentos”, porque acreditamos em suma, que estes responsáveis, por serem mais maduros, vividos e experientes, e pelo mundo ser sim um lugar “doentio”, que a melhor opção é ser discreto e fechado.

Ainda, nessa mesma época, começamos a desenvolver o aspecto da confiança nos outros, estranhos mas com similaridades (?). Apesar de termos em mente o que nos fora ensinado por nossos responsáveis, começamos a nos aproximar da borda imaginária do limite e nos arriscar no mundo das relações humanas.

Logo, num dia qualquer, nos decepcionamos, nos machucamos. Por que? Porque nos arriscamos. Impossível ser diferente. Mas você não desiste. Vai ficando cada vez mais seletivo e vai amadurecendo (?).

Mas não seria esta forma de se relacionar (julgar) e ver o outro uma espécie de construção de relação social, repassada de geração para geração, com um núcleo central, qual seja — preconceito?

Não estou sugerindo que é completamente errada esta forma de “criação/amadurecimento”. Porém, o que estou sim sugerindo é que — resumir as relações humanas a medo e preconceito não é a melhor forma de educar-se e conscientizar-se. Porque a partir daí, começamos a dar ao trauma, a frustração e ou decepção, um poder o qual não lhe pertence.

Além desse sistema social capitalista, consumista, egoísta e acredito que muito provavelmente extintivo, que de pronto nos ensina a olhar apenas para nossas próprias vontades e desejos, temos o lado b — nossa forma de criação, cultuando e repassando uma espécie de consciência demente. Uma consciência depreciativa. Uma consciência de julgamento.

Ao mesmo tempo o outro é nosso modelo de medida. Nessa via de mão dupla, julgamos preconceituosamente e somos julgados e medidos preconceituosamente.

Pronto. Tá feita a merda. Eis o exímio modelo de ser preconceituoso, individualista, egocêntrico, com opinião para tudo e possuidor do dom da verdade absoluta.

Seria cômico se não fosse toxicamente trágico.


3. SOBREVIVÊNCIA

Assisti a um vídeo de um SPEAKER, um desses vlogueiros, poetas, Prince Ea, o qual eu recomendo, que dizia algo mais ou menos nesse sentido:

“Quando estão sendo passadas na aeronave as informações de sobrevivência, em caso de acidente, eles informam que VOCÊ DEVE PRIMEIRAMENTE COLOCAR A MÁSCARA DE OXIGÊNIO EM VOCÊ, posteriormente tentar ajudar outra pessoa, mesmo que sejam crianças ou idosos. Você primeiro. Depois o outro”.

Claro. Faz sentido. Não estou questionando o ponto central da sobrevivência, porque se você sofrer uma síncope ou morrer — não vai ajudar ninguém, mas, ainda assim, ouso dizer que a lógica que adotamos no dia a dia, longe de uma situação iminente de sobrevivência é basicamente a mesma.

Essa espécie de “cegueira subjetiva” é o modelo de existência prejudicial que cada dia que passa, cresce consideravelmente no mundo todo.

O que estamos fazendo?

Deixamos que o extinto de sobrevivência, cumulado com a ideia de sociedade ocidental, combinada com modelos de criação, esfriem e exterminem o nosso poder de ser melhor e mais para o outro.


4. PRECONCEITO — VIOLÊNCIA — MISÉRIA — AUSÊNCIA DE AMOR
“Ladrão bom é ladrão morto”.
“Aa, nem pode falar nada pro neguinho que já é tudo racismo”.
“Esses gays aí, tudo abusado, querem ter mais direitos ainda que nós héteros”.

4.1 PRECONCEITO

As frases acima parecem absurdas?

Não. Ofensivas sim, mas não é sequer 1% do que é dito, comentado, compartilhado, impulsionado na vida real, então tudo bem. Não é mesmo?

Não. Não está tudo bem.

Einstein, já disse uma das minhas preferidas frases trágicas: “Triste época! É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito.”.

Leia:

“Um dia desses, fazia um frio desgraçado, acredito que o termômetro estava perto de 0º. Ventava muito, o que por vez, faz com que a sensação térmica seja ainda mais baixa, mas tudo bem, eu estava bem agasalhado. Usava uma camisa azul de manga comprida, outra camiseta por baixo, gravata, calça, meias, e uma bota super confortável e quentinha, inclusive me sentia bem, gosto do frio.

Eu estava saindo de uma agência bancária, depois de ter realizado algumas movimentações financeiras, e do lado de fora da agência, encostado em parte do vidro, deitado no chão, envolvo em alguns pedaços de pano e papelão, um senhor de idade — senhor de idade porque vi apenas uma parte do rosto e os cabelos já brancos, sujos, diga-se de passagem. Parecia dormir. Ou estava morto, sei lá.

Meu contato visual com ele deixou de existir em 03 segundos, no máximo, que foi o tempo enquanto passei ao seu lado, mas não muito perto. Não dá para se descuidar perto dessa gente né?! São cheios de doenças, perigosos, e com certeza já estava na saída de uma agência bancária para ficar pedindo esmola, e eu não tenho saco pra isso.

Fiquei semi-chateado, semi-puto. Chateado por ele estar ali, no meio da calçada, atrapalhando a passagem de nós, cidadãos de bem, nas suas correrias.

Fiquei puto, porque pago meus impostos para não passar por situações como essa. Por que o município/estado não toma atitude para evitar que esses pedintes malditos fiquem espalhados por aí, assustando as pessoas e emporcalhando locais públicos?! Um absurdo.”

Bem, a essa altura você já deve ter pensado em você mesmo em alguma situação parecida com a relatada no “conto” acima, talvez não numa forma tão fria quanto a do sujeito relator do conto, mas mesmo assim, já experienciou situação similar.

Chegamos a um ponto de mesquinhez inaceitável. Vemos um ser humano ao chão, e não pensamos em parar para verificar se o mesmo está ao menos VIVO, não paramos para ajudar, não pensamos em nada — não sentimos NADA.

Apressamos nosso passo para sair logo do mesmo ambiente que a pobre vítima da sociedade, mas claro, não porque somos maus, mas sim — porque o relógio não para, precisamos cumprir os prazos, cumprir os horários, voltar logo ao trabalho, chegar logo em nossa casa, cuidar da nossa vida. Fazer nossa parte. Fazer nossa parte? Ignorando e esquecendo de certos momentos do dia?

Como é possível não sentir nada e simplesmente esquecer? E ou pior tornar comum e rotineiro?

Trabalhei anos atrás em um escritório, onde na mesa ao lado, tive o prazer de dividir experiências e conhecimentos com um arquiteto.

Nesse período, este arquiteto me confidenciou que a vida financeira dele estava precária. Ele havia adentrado num momento profissional complicado. Optou por deixar em segundo plano a arquitetura e assumiu a direção de um albergue noturno, um local onde moradores de rua podem passar a noite, tomam banho, são alimentados — uma janta e posteriormente um café da manhã.

Pensei comigo — Que loucura desse cara?! Poderia estar ganhando rios de dinheiro e está aí, despendendo tempo hábil e com qual objetivo e recompensa?!

O albergue sobrevive de doações, então imaginem, é um trabalho voluntário.

Tempos depois, percebi o quão insensível meu ponto de vista sobre a situação fora. Ele fez mais por essas pobres vítimas da sociedade do que eu jamais fiz, do que a maioria de nós jamais fez. E ainda assim, esse trabalho não é almejado, financiado, patrocinado e pior, é condenado.

Repito a indagação, o que estamos fazendo?

Eu, como você, provavelmente não irei abandonar minha profissão, compromissos, prazeres e lazeres e irei me tornar filantropo, mas o que quero deixar claro aqui é que: Uma mudança não precisa ser radical. Ela pode ser pequena. Ela pode ser para qualquer um. Uma demonstração de atenção. De afeto. De humanidade. Uma dedicação ao próximo.

Você não precisa ganhar o nobel da paz.

Acredite, é simples, rápido e para com aquele que você a praticar, significará muito.

Eu, por exemplo, na minha capacidade reduzida, estou aqui, escrevendo este texto na tentativa de fazer com que, a minha e a sua perspectiva, talvez, possam se expandir, pelo menos um pouco.


4.2 VIOLÊNCIA E MISÉRIA

Além dessa espécie de desprezo que temos ao nosso semelhante, por vezes, ainda somos piores. Violentos. Agressivos. Desnecessários. Descontamos problemas pessoais e frustrações no outro. Ou — somos cúmplices.

Ok, tudo bem, você pode não ser o autor de uma violência, de um preconceito, mas você já viu alguma vez uma cena desses dois supracitados ou ainda — racismo, machismo, homofobia, não?

Já viu aquele seu amigo compartilhando um vídeo de alguém machucado ou machucando outra pessoa? Sendo preconceituoso, racista, machista, homofóbico, não?

Acredito que, em algum momento, todos passamos por experiências desagradáveis, e por vezes, nos abstemos de qualquer ação. Isso não está certo.

Claro que, entrar em discussões como estas de redes sociais, por vezes será perda de tempo. Não é possível transmitir o seu nível de consciência para outra pessoa através de 120 carácteres ou mais. Mas esse não é ponto.

Violência e miséria são como gêmeas da sociedade. Você pode pesquisar por si mesmo e verificar que quanto mais miserável o ambiente, com menos investimento, menos recurso, menos atenção, é onde temos as maiores ondas de crimes e violência conectadas direta ou indiretamente. Ou seja, quanto menos (N fatores) + problemas e — consciência.

É foda né, e ainda tem um outro porém:

Os esquecidos e ignorados da sociedade. Autor ou vítima? Até que ponto se distinguem? PODERIA VOCÊ DELIMITAR?

A psicologia já traz isso em seu seio — não adianta tratar apenas o problema, deve-se tratar a causa.

Você pode pensar — como esse cara consegue escrever tanta asneira? Bem, eu tenho minhas experiências e parca fundamentação para falar sobre. Não irei me aprofundar.

“Defendendo vagabundo né?! Leva pra casa então!!” Não estou defendendo quem pratica atos de violência de qualquer espécie, mas talvez, deixo o convite para que você deixe sua opinião de lado sobre “o problema” e pense só mais um pouquinho, onde começa o problema e qual a causa?

Nossa sociedade, nosso sistema é defeituoso. Isso é inegável. Fracassamos! E por que?

Porque elevamos o valor dos bens materiais e outros mais do que a vida.

Aqui você deve estar pensando: Não, mas eu não sou assim. Não tanto. Sou humano, céus!!

Sim. Somos todos humanos e todos culpados de certa forma. Por mais que você não pratique um desses casos (o que é no mínimo improvável) você se acostumou com eles. Você os ignora. Você é cúmplice.

Tem uma frase que escutei certa vez, não lembro quem a disse mas é algo mais ou menos assim: “Numa sociedade onde é preciso acorrentar a caneta a mesa nas lotéricas, o que esperar dos outros, o que esperar dos políticos?”.

Numa breve análise da frase: “bandido bom é bandido morto”, observa-se que o narrador simplesmente não dá o devido valor a vida humana. Nosso bem, teoricamente, mais precioso.

Se o sujeito narrador conseguisse deixar de lado sua cegueira e surdez subjetiva, lesse, estudasse, dedica-se um pouco mais de seu tempo vago para se conscientizar da realidade das vidas das “periferias” e locais com menos atenção do sistema público/governo (violência, pobreza, miséria, fome — síndrome da porta giratória — a qual o indivíduo fica eternamente preso ao efeito/looping , e nunca consegue de fato, evoluir), da trágica situação do sistema prisional nacional — que nada resolve, talvez o narrador ora julgador tivesse uma evolução de consciência.

O conhecimento liberta. Sim, de fato. Mas já não nos importamos em aprender mais tanto assim; Com o que temos, somos suficientes para acreditar que por ora, estamos bem subsidiados de informação e conhecimento.

Padecemos de humanidade, padecemos de conhecimento, padecemos, meus caros.

Segundo o Banco Mundial até 2014, no Brasil existiam mais de 9,5 milhões de pessoas em situação de extrema pobreza, e isso voltou a crescer a partir de 2015.

Segundo o último estudo realizado pelo Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias o Brasil tem 622.202 presos.

Ou seja, onde começam e onde terminam as causas do problema?

Onde começam e onde terminam as consequências desse problema?

Pense.


4.3 AUSÊNCIA DE AMOR — PAZ

DALAI LAMA — “SEM PAZ DE ESPÍRITO É IMPOSSÍVEL PAZ NO MUNDO”;

ALBERT SCHWEITZER — “A PAZ NÃO É INÉRCIA, É O TRABALHO CORAJOSO QUE FAZ NASCER A SOLIDARIEDADE NO INTERIOR DO HOMEM”;

MARTIN LUTHER KING JR — “NÃO SE DEVE MATAR A SEDE DE LIBERDADE NA TAÇA DO ÓDIO”;

MARECHAL RONDON — “MORRER SE PRECISO FOR, MATAR NUNCA”;

DESMOND TUTU — “É PRECISO LIBERDADE PARA CHEGAR À PAZ”;

SATHYA SAI BABA — “AS MÃOS QUE AUXILIAM FAZENDO PAZ SÃO MAIS SANTAS QUE OS LÁBIOS QUE REZAM”;

STEVE BIKO — “O GESTO DE VIOLÊNCIA DE UM ADULTO NÃO MERECE O SORRISO DE UMA CRIANÇA”;

JOHN LENNON — “DÊ UMA CHANCE A PAZ”;

CHICO MENDES — “QUERO FICAR VIVO PARA SALVAR A AMAZÔNIA”;

MADRE TERESA DE CALCUTÁ — “NÃO USEMOS BOMBAS NEM ARMAS PARA CONQUISTAR O MUNDO. USEMOS O AMOR E A COMPAIXÃO. A PAZ COMEÇA COM UM SORRISO”;

Conhece algum dos nomes mencionados acima? Líderes mundiais, presentes no memorial dos pacifistas grandes líderes.

Pelo que lutaram? A que dedicaram suas vidas? A paz, ao amor.

Com certeza, estes e outros, afetaram maravilhosamente a vida de milhões de seres humanos.

Você não precisa ser um líder mundial para fazer a diferença. Para ser diferente.

Você pode, com um mínimo esforço, ajudar alguém, de alguma forma. Sendo humano. Sendo empático. Demonstrando sentimento, amor, carinho, atenção. É possível. Talvez não precise nem sair de casa.

Podemos ser melhores. Podemos evoluir. Podemos amadurecer. Sempre.

Quando você é jovem, pode magoar alguém sem saber. Não porque você é mau, mas porque ninguém falou para você que aquilo poderia ser ruim. Não foi só essa modificação que fiz nas letras. Revi tudo e mudei aquilo que não tinha necessidade de ficar. Não tenho problemas em dizer que errei”. disse Criolo, em entrevista ao O Globo, no re-lançamento de seu álbum chamado — Ainda Há Tempo (2006–2016) — onde retirou versos de uma de suas letras por conter expressões transfóbicas, e que na evolução de consciência dele, percebeu ter sido um erro, e pediu perdão aos ofendidos.

Mais amor, por favor.


Este é meu convite e meu pedido de hoje para mim e para você:

  • Que possamos deixar de lado nossos egos, nossas opiniões.
  • Que possamos ser mais empáticos.
  • Que possamos amar mais e odiar menos.
  • Que possamos respeitar mais e ofender menos.
  • Que possamos escutar mais e falar menos.
  • Que possamos ser mais humanos.
  • Que possamos ser melhores a cada dia. Porque é possível.

Sim a evolução da consciência! Sim ao amor. Sim a vida.

Diversidade NÃO É adversidade. Pense.

#peace