Conteúdo não tem valor?

Sim, a internet nos presta um grande favor ao tornar disponível on-line (quase) todo o conhecimento da humanidade, de acordo com o sonho de visionários como Paul Otlet — e uma lista interminável de pessoas que anteviram a formação de uma rede mundial de computadores. Mas a querida rede definitivamente é responsável por um desserviço, e dos grandes.

Nos anos 90, quando grandes conglomerados de mídia impressa começaram a despejar na “net” suas revistas, jornais e etc., criaram um monstro cuja fome hoje não tem mais fim. Tal disponibilidade de conteúdo de qualidade ao alcance de poucos cliques incutiu nos internautas a noção de que escrever, apurar e editar textos é algo tão fácil quanto postar um vídeo de gato. A internet não repetia a lógica do mundo real, onde você precisava ir a uma banca para comprar uma revista. Ou o jornal do dia.

Já há algumas décadas a banca se tornou obsoleta não só devido à conveniência que é ler tudo numa mesma tela, ao mesmo tempo, mas também porque para ter acesso aos bens da banca, é necessário pagar. Na internet, tudo é livre. Além dos nosso jornais e revistas favoritos, agora temos blogs, twitters, facebooks, blogs que roubam textos de jornais, revistas e blogs. Feche os olhos e pense no seu computador (celular, tablet). A imagem que vem à sua cabeça é a de um portal enorme e brilhante (um Stargate) que te leva para uma rede (daquelas que se vê na Bahia) tecida com os fios da informação? Pois é justamente essa a imagem que se “vende” da www (world wide web).

Por não entender o potencial dessa rede que se formava, os mesmos veículos (e conglomerados) deram de graça aquele que era o seu maior bem: o conteúdo. Um produto (sim) ao qual um custo está atrelado. Claro, porque passar uma semana (um mês, alguns meses) apurando uma história, conversando com fontes, lendo livros, artigos, pensando, consultando arquivos, escrevendo, editando, reeditando, diagramando, ilustrando, refazendo, reajustando, escrevendo legendas, créditos de fotos, tirando fotos, marcando sessões de fotos, editando fotos, desmarcando e remarcando sessões de fotos e entrevistas e reuniões e brigando com o repórter que não entrega o texto — tudo isso leva tempo.

E, como já diria o filósofo: tempo é dinheiro.

Para meu espanto, essa não parece ser a linha de raciocínio do mercado de hoje. Tempo não é mais dinheiro. Deve ser isso. Afinal, conteúdo não vale mais (quase) nada. Impera a filosofia do “colaborativo”, estamos vivendo o tempo das “startups” e do verdadeiro do it yourself. Qualquer amador hoje tem a possibilidade (e talvez a obrigação) de conseguir fazer coisas que só os profissionais podiam antes. Somos todos artistas, fotógrafos, pintores, hackers, desenhistas, programadores, diretores de cinema, poetas, músicos… Jornalistas?

E já que todo mundo pode tudo, e já que todo mundo faz tudo, que sentido há em cobrar? Está tudo aí, disponível, o tempo todo. Para que vamos nos preocupar com essa coisa mesquinha de ganhar dinheiro quando há tanto o que dizer e tanto espaço (o infinito!) para publicar?

Porque tempo ainda é dinheiro. Não carece repetir a piada ali de cima, tentando mostrar quanto vai e vem existe em um processo de produção de conteúdo bem-feito. Sim, bem-feito. Uma coisa é ter disponibilidade, a outra, é qualidade. Esta sempre vai custar alguma coisa porque demanda que o operário (quem escreve, diagrama, fotografa, revisa) abra mão de outras coisas para se dedicar àquilo. Fazer uma revista (uma coluna, um bom blog, tirar boas fotos, ilustrar, diagramar, revisar) não é como espirrar, tomar um mojito ou comer um cupcake. Mas isso o que se “vende” hoje. Que qualquer um, se quiser e tiver o equipamento certo, consegue fazer qualquer coisa. Desculpem-me, mas isso não é verdade.

E talvez esse espírito da nossa época explique porque há tanta informação mentirosa, vídeos manipulados, frases falsas de escritores. Se qualquer um pode, qualquer um faz. E tudo circula indistintamente. O que falta aí?

Falta, claro, a credibilidade. Ou, melhor dizendo, a responsabilidade. Quando existem várias etapas a se vencer, os controles sobre a veracidade e qualidade de uma informação são maiores. Há editores de olhos, redatores, diretores de redação. Na internet, não há nada. Um clique, pronto. Qualquer um (até eu e vocês) pode virar um corrupto, um pedófilo ou um racista. O mais assustador é que as pessoas não parecem se importar mais com a fonte do que estão lendo, vendo ou ouvindo. O importante é compartilhar, o mais rápido possível.

Sob esse olhar, o conteúdo realmente não tem valor. É apenas mais um peixe no mar repleto de coisas “compartilháveis” e memes. Está disputando espaço com coisas que se parecem com conteúdo, mas não são. Por isso ninguém quer mais pagar. Porque nós mesmos tratamos tudo como se fosse a mesma coisa. Agora me diga: quem vai querer produzir uma coisa que não tem valor? Gastar horas para nada? Será por isso que jornais encolhem, que revistas demitem? Talvez.

Mas o conteúdo continuará a ter preço mesmo assim. Estamos escolhendo hoje se vamos deixar que ele sobreviva nesse mercado de links. A opção, infelizmente, parece estar pendendo para o lado de sua morte. Não se quer mais pagar para que bons textos sejam feitos. Ao invés de oferecer dinheiro em troca de trabalho, oferece-se “visibilidade”, “parceria”. Quando eu puder pagar minhas contas com essas coisas, talvez comece a pensar nessa possibilidade.

Diogo A. Rodriguez é jornalista

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