O jornalismo é uma das vítimas da crise política

Um dos derrotados pela crise política é o jornalismo.

Houve uma cobertura absolutamente parcial dos casos de corrupção, matérias inteiras feitas com base em “offs” suspeitos, vazamento parcial de documentos, falta de retratação quando erros foram cometidos. Repórteres confundem opinião com fatos, agem sem isenção, torcem para que determinados resultados aconteçam descaradamente.

TVs, rádios, jornais, revistas, sites e blogs abdicaram de seu papel de “guardião da democracia” para optar claramente por um lado. E não fizeram isso apenas em seus editoriais, espaço adequado para isso.

Contaminaram toda a cobertura sem serem transparentes. Criaram narrativas prévias, sem basea-las em fatos e estão firmes nela, até o final. Não importa se provas não aparecem. Não importa se existem incoerências gritantes nas “teses” que essa imprensa tem vendido.

Já disse mais de uma vez que o jornalismo não busca uma única verdade. Ele tem, sim, uma visão necessariamente parcial dos fatos. Mas isso não o torna menos necessário para as democracias. Quatro características são essenciais para que ele seja democrático:

1. O uso de checagem para a confirmação de informações
2. A transparência a respeito dos métodos, documentos e fontes usadas
3. A presença indispensável do contraditório (e não só na voz de quem está sendo acusado, mas em outros fatos, documentos e informações)
4. A transparência a respeito dos limites que aquela investigação ou reportagem tem (teses que ela não contempla, documentos inacessíveis, informações duvidosas ou inconclusivas)

Me sinto seguro para dizer que todos deixaram de fazer parte do repertório do nosso jornalismo.

É por isso que as pessoas não sabem mais diferenciar boatos de reportagens. Eles são parecidos demais hoje em dia.