Quando (e onde) foi que erramos?

Pensando retrospectivamente, tentei descobrir quando foi que a humanidade achou que era bacana ter relações em que quem está melhor é quem demonstra menos. Confesso que não consegui chegar a uma conclusão. Mas, o fato é que todos queremos um relacionamento daqueles de dar frio na barriga. Todos dizem querer alguém com quem possam passar uma, duas, três, mil noites juntos; que seja um misto de carinho e paixão. Mas parece que todo mundo entendeu tudo errado!

Todos dizem que querem a mesma coisa, mas na hora do “vamos ver”, não queremos demonstrar muito senão ficamos “vendidos” na relação. A outra pessoa vai entender que você está disponível demais, e não podemos demonstrar isso. Não podemos ser interessados demais no (a) outro (a), sob pena de decretarmos o fim do relacionamento, antes mesmo do seu começo. Ainda assim, sempre reclamamos do (a) outro (a) na relação, quando este demonstra menos do que gostaríamos.

Amargamos corações partidos de outras relações; trazemos dentro de nós a frieza recebida em outros momentos, de outras pessoas. Sentimo-nos vazios, e assim, buscamos preencher esses vazios em festinhas, regadas a álcool, risadas e papos vazios. Trocamos beijos nessas festas, com pessoas que mal sabemos o nome. Basta chegar, dar uma olhada um pouco mais profunda, conversar qualquer bobagem, e pronto. A cada beijo desse, o coração vai se despedaçando. E o final da noite chega — ele sempre chega — e temos duas opções: terminar a noite com qualquer um (a), na vã tentativa de preencher o vazio (que não foi preenchido com os beijos durante a festa) e acordar ao lado de um total estranho (a), com quem você jamais trocaria intimidades (de pensamento, é lógico); a segunda opção é acabarmos indo para casa, chorar as mágoas, sozinhos, deitados, com a cabeça no travesseiro, pensando que não conseguimos encontrar a pessoa certa, que somos merecedores do amor, mas esquecendo que deixamos passar dezenas de oportunidades de sermos felizes, com aquela pessoa que “demonstrou demais”.

O mundo dos solteiros é um paradoxo: queremos profundidade, mas doamos superficialidade. Exigimos coisas que não conseguimos oferecer. Não demonstramos o que sentimos, com medo do que o outro vai pensar; e quando o outro demonstra o que sente, ficamos com ele (a) na mão, e “subjugamos” o outro. E ficamos perplexos, tentando entender o que tem de errado conosco.

“Ah, sabe o que é? O problema não é você, sou eu… Não estou pronto para algo tão profundo”. E o ciclo se repete: quando estivermos deitados, chorando porque não encontramos ninguém, vamos lembrar daquela pessoa que ousou demonstrar, ousou ser algo a mais que um beijo e um amasso numa festa (ou outro lugar qualquer), e vamos mandar uma mensagem para ela. E ficaremos tristes se a pessoa responder friamente; mas se a pessoa voltar a demonstrar interesse, logo ficaremos entediados e vamos nos tornar frios. Quando tentarmos ser profundos, seremos logo repelidos, porque estão todos nesse mesmo loop infinito de “demonstrar menos, fazer joguinhos, que vai dar certo”!

E assim, vamos culpando os outros, e os outros vão nos culpando. E os relacionamentos vão ficando cada vez mais vazios — mas, felizmente, conheço algumas exceções. Alguns casais que, ao menos na aparência, não são assim. Conheço até mesmo alguns solteiros que não são assim, mas é ainda mais raro. Isso ainda me dá esperança — ainda que pequena — de que um dia seremos pessoas melhores.