O Solitário

Lembro-me de que havia um rosário. Sim. Havia um rosário de madeira, com as suas cinquenta contas, que ia sendo tratado com bastante carinho pelas mãos doces da moça, ajoelhada no banco da catedral, compenetrada em sua oração, diante da imagem da Nossa Senhora da Conceição. Foi a primeira vez que a vi e desejei ardentemente que não fosse a última.
Entrei ali por acaso. Praticava meu flanar, minha caminhada vagabunda pelas ruas assombrosas de feias da cidade, quando ouvi os sinos tocando na igreja e resolvi ir lá ver, pois a arquitetura da construção antiga chamou-me a atenção. Destoava dos outros prédios do logradouro, com torres grandes, umas portas de madeira na frente, três ao total, uma visão neoclássica de toda ela. Era linda. Por dentro, melhor. Uma pintura da Nossa Senhora no forro de madeira do teto, diversos oratórios, um altar tridentino. Um regozijo de olhos, mesmo para os não católicos, mesmo para os não cristãos, mesmo para os vadios.
A igreja só não era mais bela que a moça. Que todos me perdoem, mas a sinceridade impede que eu fale coisas que não se vejam na realidade, além de me obrigar a proferir o óbvio às vezes. A menina era um primor descido dos céus, de todos eles, trazida por anjos com asas longas e doiradas, vestindo a mais pura das sedas. A igreja era um cenário belo, que não podia, perdoem-me novamente as sensíveis almas cristãs, diminuir a beleza dela. Principalmente porque a vi sorrir, notando, de longe, que ainda não tivera em conta algo como aquilo.
Por óbvio, sendo um perambulador, deveria ter visto centenas de milhares de sorrisos em metrópoles, mas nenhum era como aquele. Nenhum. Dirão vocês que é superestima minha em relação à moça, discordarei sempre. Sorriso sincero, como se fosse aconchego, dado naturalmente, ao completar sua récita, como se fosse o amor a pulular em seu peito e se transferir para o rosto; deste eu nunca vi, deste eu só recebera a oportunidade de ter naquele momento.
Existe uma coisa a se falar sobre sorrisos, já que tocamos neste assunto. É um comentário próprio de leandros karnais, de tão óbvio que é, mas estes movimentos de lábios que brotam em rostos são todos para a felicidade nossa, não para a de quem no-los dá. Principalmente os das mulheres bonitas. Quando a mulher bonita sorri, não há coração de homem que não salte. O sorriso é para o outro. E o dela era para sua santa e seu Deus, ao mesmo tempo que era para mim, que a via sem que ela me visse.
Ouvi toda a missa, que foi anunciada pelos sinos, cometendo todo o pecado do sacrilégio dando mais atenção à moça que distava bancos à frente do lado oposto da igreja que ao sermão, à consagração, à comunhão, menos à ação de graças. A este momento, eu agradeci sem crer. Ela estava ali e eu disse para o Cristo que lhe dava todos os agradecimentos por tê-la visto. Li em Santo Agostinho que a beleza evidenciava Deus, senti um ímpeto, portanto, de continuar agradecendo por ter visto a moça da catedral.
Não fiquei nesses agradecimentos. Retornei lá umas cinco ou seis vezes, para ver se a via. Vi duas ou três, e senti o mesmo. Ela sempre sorriu. Sorriso que era seu e meu. Nunca lhe dirigi palavra, nunca lhe disse sequer um oi, saía sempre antes de a bênção ser dada, admirava de longe, como quem conhece a beleza somente para contemplar. Ela nunca deve ter-me visto. Se viu, deve ter achado que fosse algum devoto, como ela mesma. Morrerei sem saber qual era sua oração, por quem agradecia e por quem rezava. Talvez até por mim, talvez para livrar-se de mim.
Nunca me arrisquei, nunca corri para dar-lhe a paz de Cristo. Ela nunca me viu sorrindo, meu sorriso era só meu. Egoísta. Fraco. Achava ser precavido, mas, a bem da verdade, não tinha mesmo era coragem de sair de mim mesmo. Custava falar com a moça? Custava fazer menção de lhe segurar a delicada mão direita para a conduzir ao café? Custava falar bom-dia? Ela era minha. Pertencia-me no sentido mais baixo que existe, o que mantém pessoas nos pensamentos. Ela era real, mas a mim bastava a aura pintada em minha própria cabeça sobre a moça.
Não me arrisquei. Parei de ir à igreja. Nunca mais a vi. Nunca. Na verdade, desejei que não a visse, para evitar qualquer ímpeto desnecessário, qualquer avanço dado em sua direção sem os cálculos necessários para evitar qualquer frustração. Na imaginação era melhor. Fechei-me em mim mesmo. A beleza ficou em minhas fantasias, a moça ficou em minhas fantasias, o sorriso dela ficou em minhas fantasias. Mas eu fiquei só.
A imagem é de Edward Hopper, chama-se Sombras da Noite.
