Quando nos tornamos 75% sertanejos?

Uma coisa que nunca se desenvolveu no Brasil foi o entretenimento, nunca tivemos qualidade nisso por aqui, o que é estranho num primeiro olhar observando as receitas de cinema, TV e música no Brasil. São números volumosos e nos tornam mercado de foco de todas as grandes empresas de entretenimento no mundo, a maioria delas americanas.

Com certeza a mãe desse problema é a mesma de praticamente todos em nossa sociedade, a falta de educação, essa que acaba culminando no aumento da desigualdade. O Brasil tem uma característica bem próxima dos franceses e longe dos americanos que é o apego a arte, artista não faz entretenimento, artista faz arte, mas o que acontece na prática por aqui é que o Brasil consome muito mais entretenimento do que arte e estando os artistas ocupados fazendo arte quem vai produzir entretenimento? Quem acha que sabe fazer ou quem acaba “dando certo” (leia-se vendendo bem).

Além da óbvia questão da falta de educação, outro fator importante para a dificuldade de o entretenimento se desenvolver por aqui é o monopólio de uma empresa que todo brasileiro nasce conhecendo, a Rede Globo. Dentro do entretenimento você tem dois modelos básicos de negócio, um, onde sua receita é baseada em vendas, principal modelo da indústria da música e do cinema e um outro modelo, esse por sua vez, baseado na publicidade, principal modelo da TV, onde nesse modelo a Rede Globo reina absoluta. Os tempos estão mudando e esse dinheiro está indo para outros lugares como o Google e o Facebook, mas a conversa aqui é porque o entretenimento não se desenvolve no Brasil.

Acontece que a Rede Globo monopoliza o mercado e isso culmina em praticamente todo dinheiro de publicidade que passa a ser capital para produzir entretenimento ser dela e sem dinheiro para outras empresas no mercado isso mata a concorrência e consequentemente a criatividade. Então ela faz aquela novela reforçando preconceitos e com uma linguagem extremamente néscia, acaba dando muito certo, tanto para ela quanto para quem está investindo em publicidade e ficamos presos nesse ciclo sórdido sem fim, ou pelo menos antes sem perspectiva.

Já no cinema a grande questão aqui é a mesma em praticamente todos os países com notáveis mercados de cinema, a invasão americana. Você pode nem acabar esse texto e ir ao cinema agora, tenho certeza que dos 10 filmes em cartaz pelo menos 7 serão americanos. E quem perde com isso? Obviamente a gente. Perdemos uma das mais poderosas armas no mundo, arma essa para reforçar nossa cultura, inserir na sociedade boas idéias e claro ótima arma para matar o tempo.

Mas de todos esses mercados o que mais próximo está do mercado dos Estados Unidos, digo em forma de produção e varidade de mercado é a música ou pelo menos era. Depois da crise da internet as gravadoras por aqui estão até agora tentando correr atrás do prejuízo e sim fechando contratos com o capeta.

Em 2015 tivemos fechamos o ranking anual de 100 músicas mais tocadas e sim! 75 delas eram do sertanejo.

Não sou um cara avesso ao sertanejo e não tenho vontade de assassinar todas as duplas que se formam a cada 10 minutos. Sou de Goiânia, convivo com o sertanejo desde que nasci e sei bem que lá é conhecida como a capital do sertanejo, mas lá também é conhecida como rock city, sim, os principais festivais de rock alternativo no Brasil acontecem por lá e a cena é tão extensa quanto a do sertanejo e é isso que nos torna um país único, a diversidade e não 75% de uma coisa só.

Mas e o Chico? O Cazuza? O Tom? A Elis? Não é entretenimento? E de alta qualidade?

Sim são, mas estão muito mais próximos da arte do que do entretenimento propriamente dito e sabe porque? Porque o brasileiro tem duas características que o deixa preso nisso, a resistência em se fazer dinheiro com arte e a utilização da arte como instrumento de desigualdade social.

E a culpa não é só dessa galera que chega e domina o mercado sem o mínimo nível de cultura decente, é culpa dos artistas com alto nível também, eles que acabam menosprezando qualquer outro que acham não ser do mesmo nível. Semana passada houve o lançamento do novo álbum do Kanye West nos Estados Unidos e uma das músicas tinha os vocais de Nina Simone, mesma música onde ele repetia seguidas vezes “I made that bitch famous”, em contra ponto, quando teríamos por exemplo os vocais da Maria Bethânia numa música do MC Guimê? Provavelmente nunca e é aí onde está parte da raiz do problema, artistas renomados precisam entender que gerações mudam, artistas novos chegam e muitas vezes com uma carga cultural baixíssima e esse tipo de interação é que torna a geração nova de artistas tão boa quanto a anterior.

Enquanto não estruturarmos de verdade a economia criativa, enquanto não sairmos do “Ah eu mesmo posso fazer isso”, “Ah eu tenho um amigo que faz”, “Ah nem precisa de contrato não”, “Ah nem precisa de planejamento” e etc. Iremos ficar presos a leis de incentivo e não criaremos de verdade um mercado que desenvolva artistas e profissionais, onde uma Rihanna passe de uma superficial cantora pop para uma artista que divide vocais com Paul McCartney.

Por fim, fica a mesma pergunta que tempos atrás a Rita estava fazendo: