Conheça: A república

Os escritos de Platão são de riqueza única e comentários e resenhas não poderiam esgotar, mas esta edição possui um ponto interessante ao graduando que vai se iniciar nos diálogos.

Platão.

Platão pode ser a grande inspiração como o grande inimigo de muitos na filosofia e provavelmente em inumeráveis questões e ciências.

Esta resenha não se destina tanto a uma prévia, uma apresentação sinóptica do conteúdo, mas sim o que esta edição de A república¹ possui de muito interessante para o graduando que se encontrará com um tipo de escrita que imortalizou o filósofo, concordando ou não com ele.

PLATÃO. A república; tradução de Anna Lia Amaral de Almeida Prado; revisão técnica e introdução de Roberto Bolzani Filho. 2 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2014. 419p. (Paideia).

Platão em seu diálogo Fedro faz uma afirmação muito controversa e nem de consenso entre especialista, mas aqui apresentarei uma compreensão e um artigo (aqui) de Marcus Reis Pinheiro² que pode lhe despertar a curiosidade: Platão não possui uma posição exatamente positiva da escrita. É lógico que ele escreveu muito, mas não escreveu tratados, pois como o artigo bem apresenta a questão da escrita parece apresentar um problema, pois é o diálogo o que faz a compreensão.

Platão escreveu diálogos, não tratados e isso pode parecer um tanto estranho ao graduando que vai se deparar com os escrito do filósofo. A estrutura e ritmo de diálogo e a riqueza de sentidos causam uma dificuldade inicial pois, a visão de tratados é muito mais comum na filosofia. O discípulo de Platão, Aristóteles, muito possivelmente escreveu diálogos, mas só os seus tratados nos chegaram. Os tratados se tornaram presentes na filosofia ainda em seus tempos iniciais.

A dialética platônica em sua escrita era um esforço em causar o nascimento da compreensão.

Os diálogos possuem uma história, retratam personagens, reproduzem um mundo, etc. A riqueza de sentidos é enorme, Platão tem uma enorme lista de comentadores, e não me refiro apenas na filosofia. Seus escritos tem enorme relevância histórica e filológicas, como também no curso de Letras, por exemplo, ele não é um desconhecido e nem em Pedagogia.

Esses fatos que apresento é por que sua escrita é profunda, Platão usufruiu de uma educação sem igual em sua época e seus temas revelam isso, então somado ao tempo, e todos os complicadores históricos que podemos levantar foi um homem que hoje seria um professor de elevado calibre em nossos dias. Podemos dizer que a escrita filosófica teve desde seu início, mesmo antes a Platão, grandes pensadores e Platão é um perfeito exemplo.

O trabalho de tradução de Anna Lia Amaral de Almeida Prado mostrou-se de grande auxílio para mim e com um entusiasmo apresento seu trabalho. A tradutora foi a primeira em que encontrei um diferencial que me auxiliou muito nos diálogos platônicos. A tradutora não apenas oferece notas ou construção de sentidos de forma mais acessíveis ao leitor mas faz marcação de momentos da argumentação platônica.

Como escrevo esta resenha pensando em um graduando não vou tomar por problema a natureza da tradução (questão de alta relevância em filosofia) o grande trabalho que Anna Lia fez pelo graduando, principalmente pensando se é seu primeiro contato com um diálogo.

A obra é composta de dez livros e como toda obra clássica tem indicado o número de linhas, são uns números assim: 395b, 396a, 396b, etc. Este números são um padrão se referir as edições clássicas. Ao ler um livro a respeito de filosofia pode encontrar assim “conforme Platão em 408a”. Esse número tem uso univoco, diferente de pegarmos uma obra mais contemporânea e vermos p. 304 por exemplo. Mas o curioso é que o comentador identifica uma tese ou argumento. Em um diálogo nem sempre é fácil perceber onde começa, onde há uma definição, ou quando dentro de um argumento mais longo onde é um modo ou há a explicitação de uma implicação. As questões que podem surgir no graduando são inúmeras.

A tradutora utiliza o recurso de dentro dos livros (Livro I, Livro II, Livro III, Livro IV…) marcar também com algarismo romanos momentos do diálogo. A repetição do padrão ajuda ao graduando perceber quando Platão “mudou” de assunto, ou uma nova etapa do argumento começa.

Esse diferencial, que conheci primeiramente no trabalho da Anna Lia me ajudou muito ao ler e reler outras obras platônicas e perceber pela escrita platônicas quando havia uma inflexão na conversa ou um aprofundamento.

A edição também conta uma satisfatória introdução de Roberto Bolzani Filho que localiza a obra platônica nos contexto de outras e apresenta ideias e conceitos platônicos que podem não ser evidentes, principalmente aquele que começou seu curso de filosofia.

A edição é indicada especialmente para aquele que quer dialogar com o pensamento platônico e quer entender suas articulações e familiarizar-se com o gênero de escrita. A obra é indispensável e a edição é sem restrição, seja para um diálogo amigável ou um embate acirrado, mas principalmente para quem não quer ficar sem entender.


¹PLATÃO. A república; tradução de Anna Lia Amaral de Almeida Prado; revisão técnica e introdução de Roberto Bolzani Filho. 2 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2014. 419p. (Paideia).

²PINHERIO, Marcus Reis. O Fedro e a escrita. ANAIS DE FILOSOFIA CLÁSSICA, vol. 2 nº 4, 2008. Disponível em <http://www.afc.ifcs.ufrj.br/2008/REIS.pdf>. Acessado em 12 out 2016. Também conferir esse texto da professora Luciene Félix no Jornal Carta Forense, disponível em <http://www.cartaforense.com.br/conteudo/colunas/o-mito-de-thoth–platao/16219>. Acessado em 12 out 2016.