Conheça: Como escrever textos

Leitura e escrita são um casal e no curso de filosofia isso fica mais evidente. Ainda encontrado em sebos esse livro se mostra um dos mais pragmáticos e instrutivos que encontrei. Se encontrar vale muito a pena adquirir.

Este trabalho enfoca a redação de tipo argumentativo (dissertação), em geral solicitada nos exames vestibulares, mas discute também outros tipos de composição, como o resumo e o relatório. Se se aprende a escrever bem um resumo ou relatório, tarefas indispensáveis na escolar e profissional, aprende-se a comporo textos mais completos, como a redação. (SERAFINI, 1995, p. 12).

A autora Maria Teresa Serafini¹ não é brasileira mas a adaptação de Ana Maria Marcondes Garcia tornaria esse fato imperceptível para quem não soubesse que a obra não foi pensada para o público brasileiro. Um dos livros que mais me ajudou a superar as dificuldades, Como escrever textos², faz parte de uma coleção coordenada por Humberto Eco.

SERAFINI, Maria Teresa. Como escrever textos. Tradução de Maria Augusta Bastos de Mattos; Adaptação Ana Maria Marcondes Garcia. 7 ed. São Paulo: Globo, 1995. 221p.

A máxima “você escreve como você pensa” se torna compreensível nas folhas desse livro, a autora possui uma preocupação especial que antecede as normas específicas de escrita:

Fazer uma redação não significa criar por inspiração divina. É um trabalho. E para realizar a contento um trabalho é preciso conhecer as regras do jogo. (SERAFINI, 1995, p. 17).

O livro é dividido em três partes e apresenta o seguinte sumário, exposto aqui de forma resumida:

Primeira Parte Do pondo de vista do aluno: como se desenvolve uma redação

1 Redação, objeto misterioso

2 O plano

3 Produção de ideias

4 O parágrafo

5 A revisão

Segunda Parte: Do ponto de vista do Professor: como se pede, se corrige e se avalia uma redação

6 Os títulos das redações

7 A correção

8 A avaliação

Terceira Parte: Didática da escrita

9 Princípios pedagógicos

10 Classificação dos textos

11 Construção de um currículo sobre a escrita

12 Textos propedêuticos à dissertação

A autora faz um trabalho de formação mas não é um retorno a formação básica da pré-adolescência, pois ela quer trabalhar a exposição e argumentação de ideias. Ela instrui o aluno desde o conhecido momento do “branco de ideias” oferecendo uma interessante estratégia para produzir textos, um tipo de brainstorm, que permite uma estruturação de tópicos. Um exemplo que a autora usa é o trafego nas grandes cidades, as ideias devem vir de forma totalmente livre, mesmo que não havendo uma imediata conexão permita-se. Após esse material desconexo, as recorrências e inflexões já desenham um contorno para tópicos, como no caso usada pela autora: barulho, congestionamento, poluição, mau cheiro, compra compulsiva de veículos, horas perdidas, prejuízo do comércio, poeira, estresse, etc.

A espera de inspiração, quando não está associada a um racionício ativo sobre a composição, é pura perda de tempo. (SERAFINI, 1995, p. 23).

Uma linha já perceptível nos exemplos escolhidos: barulho, poeira, poluição, mau cheiro, e estresse. O que era um momento de branco já apresenta um série de noções que podem sugerir tese, tema, um roteiro para argumentos identificado pelas associações que as palavras permitem. A autora segue mostrando como podemos formar um esqueleto para a redação.

Comenta o efeito e a importância da pontuação, mas o que mais me beneficiou no primeiro ano de universidade foi sua atenção em um tipo de parágrafo ao qual ela chama parágrafo de enquadramento. Essa modalidade permite que sua escrita já comece delimitando seu assunto e perspectiva ao mesmo tempo que esboça seus argumentos. Em resumo, é demonstrado o que constitui uma introdução decente.

O livro continua expondo estruturas que devem ser evitadas por diferentes razões, como definição negativa, por exemplo, que é definir algo pelo o que não é. É um modo muito vago e que pode indicar falta de domínio, mesmo que o aluno conheça do que fala.

Ao desenvolver um tema, é importante esclarecer qual é seu objetivo. Um texto pode ser, por exemplo, um instrumento de organização de informação, pode oferecer ao professor um objeto de avaliação sobre as atividades estilísticas dos alunos, pode pretender convencer alguém de uma idéia ou divertir os leitores. (SERAFINI, 1995, p. 27).

O livro apresenta um bom número de exemplos no que toca e divide a correção do aluno em dois momentos: forma e conteúdo, o que permite perceber como se conciliam nossas regras gramaticais e sintáticas com a lógica da argumentação.

O objeto da redação, no contexto escolar, deverá ser deduzido do título da redação. (SERAFINI, 1995, p. 28, grifo da autora).

A segunda e terceira partes são voltadas ao professor, mas ao graduando que evoluiu no conteúdo pode auxiliar. Como corrigir uma redação, o que olhar, etc, podem orientar na troca de textos entre os colegas.

A autora organizou algumas orientações em tabelas, perfeito para fichar (aqui) e ter ao lado enquanto escreve ou revisa.

A autora analisa os modelos parágrafos, comuns em manuais de redação, como ampliar para modelos e referencias um tanto incomuns. Muito que rapidamente ela mostra princípios do uso do Modelo Argumentativo de Toulmin (aqui) e conectivos lógicos.

A obra termina com uma bibliografia comentada para o brasileiro prosseguir em seus estudos

O livro é muito indicado para o graduando de filosofia que não quer apenas decorar regras, mas precisa explicitar suas ideias e argumentar. O livro preenche uma lacuna que muitas editoras não tem dado a atenção: a escrita universitária. Muito comum subsumirem esse tema em um manual de metodologia do trabalho científico, o que causa uma super compressão do tema, é uma pena. Procure em algum sebo, vai ajudar muito!


¹ Disponível em <http://mariateresaserafini.over-blog.it/&gt;. Acessado em 09 de out de 2016.

SERAFINI, Maria Teresa. Como escrever textos. Tradução de Maria Augusta Bastos de Mattos; Adaptação Ana Maria Marcondes Garcia. 7 ed. São Paulo: Globo, 1995. 221p.