Conheça: Conflito de visões

Um trabalho que pode mostrar que as discussões não são mera confusão. Sowell vai contra a imagem comum que discussões políticas não fazem sentido, mesmo quando acirradas, ao contrário, quer que conheçamos porque são acirradas e que fazem sentido.

Cada visão tende a criar conclusões que são as consequências lógicas de suas hipóteses. Essa é a razão pela qual existem repetidamente esses conflito de visões em uma variação tão grande de questões sem relação entre si. Esta análise não pretende reconciliar visões ou determinar sua validade, mas determinar de que se trata e o papel que desempenham nas lutas políticas, econômicas e sociais.(SOWELL, 2012, p.256).

Thomas Sowell¹ faz um trabalho que poucos se sentem com vontade de enfrentar: clarificar as razões por trás das discussões políticas. Em seu Conflito de visões² Sowell não menospreza o que comumente são os motivos de discussões acaladoras.

SOWELL, Thomas. Conflito de visões: Origens ideolóicas das lutas políticas. Tradução de Margarita Maria Garcia Lamelo. São Paulo: É Realizações, 2012. 278p. (Coleção Abertura Cultural).

O livro, integrante da Coleção Abertura Cultural, é dividido em duas partes com um total de nove capítulos. A Primeira parte se concentra em apresentar as noções gerais e as distinções, e a Segunda parte é sobre a aplicação em casos controversos.

Uma observação que pode surpreender é que o livro não é um Direita x Esquerda. O economista não está alheio a essa discussão, nomes comoHayek, Marx, Adam Smith, Jeremy Bentham, Edmund Burke e Engelsfiguram nas referências mas outros não tão comuns como Joseph Schumpeter, Vilfredo Pareto, Alexander Hamilton, William Godwin, Antoine-Nicolas Condorcet, Stuart Mill, Thomas Hobbes, Thomas Robert Malthus, Pierre Joachim Henri le Mercier de la Rivière, Ronald Dworkin,John Kenneth Galbraith e muitos outros que não se enquadram nessa dicotomia de modo imediato e muito mais ausentes da discussão. O economista, por exemplo, faz entender porque John Rawls tão enquadrado no pensamento de esquerda possui de forma consistente em sua teoria da justiça social princípios de defesa e garantia para o indivíduo. Sowell dedica uma sessão especial para o marxismo e para o utilitarismo e demonstra que em determinados escopos a comum dicotomia perde de vista elementos chaves nas teorias sociais. Assim como um nome de óbvia influência nas Ciências Naturais e certo alcance difuso nas Ciências Humanas, mas não costuma ter seu nome discutido com propriedade no território das Humanas aparece no último capítulo e há uma interessante conversa, porém curta, em tom comparativo entre as visões de Sowell e os paradigmas de Thomas Kuhn.

O livro também apresenta ao final de cada capítulo um resumo e conclusões, o que é muito instrutivo para quem se introduz nessa discussão.

O livro tem um projeto que pode não parecer tão original, devido o momento de reação política que vivemos, mas a abordagem e perspectiva que trazem é a novidade; um livro de metodologia não é indicado para quem não domina certo grau de conceitos, o economista estabelece seu esforço de introdução nessa ordem temática. O livro trata, por exemplo, de aspectos que Hayek aborda em seu ensaio Individualism: True and false que passa batido em muitos videos de autodidatas do youtube

Igualdade, como liberdade e justiça, é concebida em termos inteiramente diferentes por adeptos da visão restrita e por aqueles da visão irrestrita. Como liberdade e justiça, a igualdade é um processo característico da visão restrita e umresultado característico da visão irrestrita. (SOWELL, 2012, p. 143, grifo do autor)

Sowell em sua Primeira parte explica como as visões (o autor corretamente não utiliza o termo ideologia, até por seu trato mais analítico e foge de um termo já carregado) que antecedem as teorias políticas e sociais servindo de sustentáculo; dividindo as visões em dois grupos, Visões Restritas e Visões Irrestritas. Uma compreende limitações do homem como uma característica intrínseca, constitutiva do homem, a outra compreende que o homem possui um potencial muito maior do que lhe é apresentado.

[…]As duas visões tentam fazer com que o locus de controle coincida com o locus de conhecimento, mas veem o conhecimento em termos tão radicalmente diferentes que chegam a conclusões opostas a respeito do lugar onde o controle deve ser atribuído. (SOWELL, 2012, p. 261).

A obra não tem a menor intenção de apaziguar, ao contrário, quer demonstrar porque as concepções por trás das teorias causais da sociedade levam ao embate.

A obra discute o que se encontra na sustentação dos conflitos de ideias políticas e sociais e a que resultados levam. Entendendo suas ideias iniciais e a que fins levam o conflito é compreendido. O livro expande o arcabouço de autores frequentemente colocados em evidência mas sem tornar inacessível a o público interessado em participar dessa discussão.


¹ site oficial. Disponível vem <http://www.tsowell.com/>

² SOWELL, Thomas. Conflito de visões: Origens ideológicas das lutas políticas. Tradução de Margarita Maria Garcia Lamelo. São Paulo: É Realizações, 2012. (Coleção Abertura Cultural). 278p.