“Fichamento?”

Situação encontrada: “Como assim,fichamento?”

Em minha turma de filosofia foi essa a reação ao sermos apresentados a esse método de estudo. Ao conversar com amigos que já possuíam o hábito de leitura de livros de filosofia a reação foi a mesma. Minha edição do Metodologia do Trabalho Científico[1] do Antônio Joaquim Severino possui muitas entradas relacionadas, a abordagem do fichamento é feito de forma múltipla e instrutiva, mas entre os colegas não fica clara a operacionalidade.

Os autores apontam o que é necessário para fazer, mas a dificuldade persisti. O problema que nossa educação aos modismo freireanos e congêneres vem produzindo um incessante fluxo de jovens que são motivados a ter repúdio por disciplina e afinco. Espero com isso deixar claro minha experiência com esses pseudos-sistemas pedagógicos, pois me descobri “aleijado” ao ver as necessidades que me foram, muito corretamente, cobradas, conteúdos e principalmente incitação de atitudes negativas com a rotina de estudos.

Então antes de seguirmos é interessante termos uma pequena descrição do que é fichar um livro.

Apresentação rápida

Os professores ao te apresentarem um livro que terão por tarefa a leitura exigirão ou indicarão a prática de fichamento. O que seria?

É a leitura do livro e anotações de conteúdos importantes. Segundo Rosana Morais Weg[2]

Fichamento é uma forma organizada de registrar as informações obtidas na leitura de um texto.

Fichar é o ato de selecionar, organizar e registrar informações, a partir da leitura do texto-fonte, de forma a constituir uma documentação que:

atenda objetivos do leitor ao fazer a leitura;

remeta ao texto-base

possa ser consultada posteriormente

aponte para a elaboração de um texto posterior.

(WEG, 2006, p. 13, grifo da autora)

E com João Bosco Medeiros[3]

São assim designadas as fichas em que se registram informações bibliográficas completas, anotações sobre tópicos da obra, citações diretas, juízos valorativos a respeito da obra, resumo, comentários Enquanto a ficha bibliográfica contém apenas as informações bibliográficas, necessárias para localizar um livro, as fichas de leitura contém todas as informações sobre um livro ou artigo. (MEDEIROS, 2006, p. 113–114)

Em poucas palavras você lê e registra.

Muitas intenções pode ser implicadas na prática, como perceber argumentos, movimento dos tópicos, tônica em algum aspecto, etc. Uma modalidade que aplico em minhas leituras é a leitura estrutural: leio e registros as inferências em um cada parágrafo do livro. Me permite sintetizar o primeiro fichamento onde reduzo para temas dominantes, isto é, em outro fichamento sintetizo o tema dos parágrafos em assuntos que os aproxime. Mas os professores podem solicitar com outras finalidades.

Comecei a poucas semanas a fazer o fichamento de material para citação posterior, como uma definição, uma asserção, ou o final de uma cadeia argumentativa. Nesse tipo copio fielmente o texto-base.

Ao ler um livro perceberá entre seus colegas quem leu e quem não leu. Ao fichar uma nova percepção é alcançada além desta. Em poucas palavras essa prática separa quem dá uma opinião sobre um livro e quem argumenta sobre um livro.

O não desenvolvimento desse hábito pode acarretar não apenas uma compreensão mais profunda mas como dos momentos e assuntos do texto como outros prejuízos:

  • demora em resgatar informações
  • visão meramente condensada do livro
  • uma menor percepção de estruturas argumentativas e estilística do autor
  • momentos lógicos não são percebidos

Profissionais da área de pedagogia e Letras podem enumerar ainda outros problemas que escaparam de meus apontamentos.

O que em minha experiência mostrou ser a maior dificuldade não é a operacionalidade do fichamento. Haverão tipos descritos mais a frente, como manter a localização da fonte, esse não me parece ser o maior problema, aliás nem ao menos parece ser um problema, pois de meus colegas de sala e as fontes que consultei sempre apontam para a versatilidade que o fichamento apresenta. A maior dificuldade não é propriamente um ponto de biblioteconomia ou sobre uma escola filosófica em especial ,mas de língua portuguesa. Um pouco desse problema as organizadoras do Fichas de leitura,Celina Leite Miranda e Ana Vera Finardi Rodrigues indicam:

Durante a vida estudantil, não raras vezes, há um despreparo por parte dos alunos, tanto na leitura de textos, quanto na adoção de normas e padrões na leitura, elaboração de texto, conforme sua finalidade. (RODRIGUES; MIRANDA, 2011, p. 17)[4].

Prosseguiremos com os diferentes tipos de fichas e algumas aplicações. Ao final discutiremos o peso que a linguagem representa, como um bom conhecimento e aplicação de princípios de nossa língua podem ajudar a perceber as informações para então registrá-las e as mudanças que podem ser uma exigência em sua vida universitária.

Modalidades de fichas

Informações elementares

Total e qualquer ficha que se seguir deve ser adotado um cabeçalho. Não raro o aluno personaliza muitos pontos do fichamento e é um movimento natural, porém os dados que permitem localizar a origem e posição da informação coletada não são indicados. Siga as normas ABNT.

Aqui não trataremos de referências e citações mas indicaremos os elementos essenciais conforme Severino:

Para os fins propostos, uma referência bibliográfica deve conter os seguintes dados: autor, título do documento, edição, local da publicação, editora e data. (SEVERINO, 2013, localização 2414–2415)

Com essas indicações tenha controle das páginas. Um exemplo de cabeçalho em minhas fichas

Fichamento estrutural parágrafo a parágrafo. O cabeçalho com os dados bibliográficos.

É um fichamento estrutural, que será discutido a frente, e vemos no alto da página os dados bibligráficos essenciais. Em seguida abaixo o nome do artigo/capítulo (opcional, porém prático), o tipo de ficha e qual é o número da ficha dentro da contagem total. A baixo a própria coleta de informações do texto, página e parágrafo.

Mesmo sendo um arquivo digital não alterou esse tipo de controle. Já utilizei fichas, que encontramos em papelarias:

Ficha 7"x12". Algumas das divisões verticais que vê abaixo da linha mais grossa no alto é de minha própria realização e (p) para marcar a página e § para os parágrafos. Minhas fichas em papel são todas nesse modelo para acomodar os registros dos textos fontes.

Um caso onde conciliei essas necessidades e acredito um diferencial, ao menos não tenho conhecimento de outro que tenha feito o mesmo, foi com textos antigos com Platão e Aristóteles: uso o número de fragmento em conjunto, pois nessas obras é comum o professor trabalhar por eles e não por páginas. O mesmo vale para outros autores que usam aforismas e parágrafos.

Fichamento em Poética de Aristóteles.

Para esclarecimento: eu usava símbolos para marcar que tipo de argumento ou linha de raciocínio era usa, no caso acima o símbolo de ≠ é porque o autor fazia uma diferenciação, e outras adaptações que desenvolvi em minha leitura. Nos círculos temos o número de fragmento e a edição continha uma numeração da obra do início ao fim do livro, entre parenteses e eu preservava a minha, que a cada tópico reiniciava, pois se alguém falasse “olha aí no terceiro parágrafo sobre a tragédia” eu encontraria muito mais rápido do que falando o número corrido.

Outro fator importante é a leitura prévia, ou seja ler ao menos uma vez antes de fichar. Isso permite ter uma ideia da composição do pensamento completo, anotações no livro de pontos de destaque que permitem que a leitura mais detalhada se proceda em melhores condições. A leitura detalhada não é sinônimo de volume, como ficara mais claro no fichamento estrutural a frente.

Os tipos de fichamento

Os fichamentos não são destinados para resumos e nem paráfrases. Podem incorrer em um fichamento, mas são atividades distintas.

Fichamento de tema (catalogação bibliográfica)

Apesar de não ter me parecido importante no início da graduação é provavelmente o que mais incorre em falta para o aluno que se orienta em um tema. Esse tipo de fichamento reúne obras por temas. Na vida estudantil ele surge quando solicitamos ao professor uma bibliografia de um assunto, os livros e artigos reunidos sempre nos escapam a mente depois de um tempo.

Citação (transcrição)

As regras para citação da ABNT são incorporadas, em síntese

aspas para os trecho; se suprimir conteúdo usar […]; local no texto fonte, etc

Fichamento para citação direta.

Resumo (de conteúdo)

A apresentação resumida, muito sintética. Não é o resumo propriamente, que é outra modalidade de atividade do graduando. Poder ser no estilo dissertativo ou enumerado.

Exige a identificação do essencial. o que é primário no texto do autor. Exige uma conhecimento de visão macro e micro. É o tipo de fichamento que se faz após uma releitura de um livro.

Rosana oferece um exemplo:

(WEG, 2006, p. 38–39).

Há outra modalidade não tão resumida, mas não indico que passe de um quarto do livro fonte. é o fichamento estrutural/sinóptico.

Fichamento sinóptico feito por um professor em sala. O professor ao ler um parágrafo seguia fichando no quadro. O texto é “A consciência e a intencionalidade” de Sartre.

Podemos fazer a captura das estruturas dos parágrafos, se considerar desnecessário pode-se ao identificar o tema e seu desdobramento no parágrafo fazer o mesmo apontamento mas em capítulos e tópicos menores permitindo fazer os momentos lógicos. O meios de enumeração podem variar conforme a conveniência desde litas simples a numeração. Eu indicava por símbolos aspectos complementares que julgava importante.

Bibliográfico

Semelhantes as fichas que os livros possuem em uma biblioteca. Pode combinar com um resumo sinóptico.

Opinião (de comentário ou analítico)

Nesse adicionamos comentários a informação descrita na ficha. Medeiros explica:

Em que consiste um comentário? O que comentar em um texto? Francisco Gomes de Matos (1985, p. 183) ensina, em artigo publicado em Ciência e Cultura, que se devem analisar os aspectos quantitativos e depois os qualitativos. Assim, cabe responder pela extensão do texto. sobre suas constituição (ilustrações, exemplos, bibliografia, citações) conceitos abordados. Em aspectos qualitativos, recomenda que se atenha à análise e detecção da hipótese do autor, objetivo, motivo pelo qual escreveu o texto, as ideías que fundamentam o texto. Deve o comentarista verificar se a exemplificação é genérica ou específica, se a organização do texto é clara, lógica , consistente, e o tom utilizado na exposição é forma ou informal, se há pontos forte e fracos na argumentação do autor, se a terminologia é precisa. E ainda dizer se a conclusão é convincente e quem será beneficiado pela leitura do texto. Finalmente fazer uma avaliação da obra. (MEDEIROS, 2006, p.124–125).

Dito isto sobre os modelos de fichamento pouco há o que eu poderia acrescentar, as possibilidades e conveniências dependem do graduando. Agora um pouco do que aprendi de algumas dificuldades que percebi em mim e também em meus colegas de curso que foi muito reproduzido em foruns e comentários de outros blogues que também tratam do fichamento: a dependência com a leitura.

Questão de linguagem

Um fato um tanto comum no curso de filosofia é que seus calouros já possuem alguma proximidade com a disciplina. Mas não menor em número são algumas deficiências como conhecimento de livros que tratem do estudo universitário em filosofia e não menos problemas com a língua portuguesa.

Autores como João Bosco Medeiros, Rosana Morais Weg também Celina Miranda e Ana Vera Finardi são nomes que recebi de meus professores, que muito gentilmente disponibilizaram, mas curiosamente na discussão sobre TCC ou Iniciação é que surgiram e ainda mais notório são os trabalhos de Clare Saunders e David Mossley intitulado Como estudar filosofia: guia prático para estudantes[5] ou da dupla Dominique Folscheid e Jean-Jacques Wunenburger Metodologia filosófica[6] eu tive a oportunidade de ler e muito me ajudaram com o trato do tipo de texto filosófico. Mas nenhum deste é de conhecimento do aluno que pretenda fazer filosofia.

Esses livros superam as necessidades que o graduando enfrentará em especial os três primeiros para a vida acadêmica e os dois últimos são voltados par o graduando em filosofia!

Talvez um receio possa surgir por algum tipo de viés, mas são livros para a condução na vida universitária, não são comentários ou doutrinas.

Esse tipo de literatura muito ajudaria o aluno do ensino médio que tenha me vista ou como no meu caso que voltei aos estudos muitos anos depois. Eles promovem uma ambientalização ao modo de estudo universitário e dão diretrizes.

Esse é foi o ponto mais especificamente com o conteúdo filosófico outro deficit são os conteúdos de língua portuguesa.

Um bom estudo sério em redação, língua portuguesa e sintaxe se faz necessário. Textos como os de Husserl, Hegel não são impossíveis, é que muito do obstáculo é compreendermos suas relações ou como uma autora que providenciarei reviews, Ingedore Villaça Koch diz em um de seus livros “operadores argumentativos”(KOCH, 2015, p. 30) [7], que muito me ajudaram não só na escrita como também nas redações, entre outros fatores predominantemente de nossa aprendizagem e formação em nosso idioma nosso sistema educacional falha miseravelmente.

Sobre as necessidades em língua portuguesa indico minha review em Othon Moacyr mas outros estão sendo providenciadas para orientar o graduando em filosofia.

Finalmente

Após ter mostrado algumas linhas gerais sobre fichamento, é importante concluir que ele seja feita com algum objetivo, seja para o estudo de algum tema que goste ou para registrar uma máxima, não é um mero “anotar tudo”.

Também que nem todos os modelos possíveis se esgotaram, os autores mencionados no corpo de texto mostram mais exemplos, mas para um início ao aluno que esta começando e enfrenta dificuldade algumas ferramentas já estão ao seu alcance.

Outro ponto que tem que ficar muito bem entendido, e que o próprio método de estudo e suas imbricações e possíveis dificuldades, o fichamento só se faz possível por disciplina e perseverança. Um tanto quanto prejudicial é o reforço na imagem de que o graduando é “desleixado”, “indisciplinado”, “cabeça de vento”, etc. Ao decidir pela faculdade um mundo de possibilidades se abrem, mas apenas aqueles que persistem e são generosos com as oportunidades de melhora que possam vir a receber.


Referências

[1] SEVERINO, Antônio Joaquim . Metodologia do trabalho científico. São Paulo: Cortez. (Kindle)

[2] WEG, Rosana Morais. Fichamento. São Paulo: Paulistana Editora, 2006. (Coleção aprenda a fazer).

[3] MEDEIROS, João Bosco. Redação científica: A prática de fichamentos, resumos, resenhas. 8. ed. São Paulo: Atlas, 2006. edição Kindle.

[4] FINARDI, Ana Vera R. (Org.); MIRANDA, Celina Leite (Org.). Fichas de leitura: introdução à prática do fichamento. Uberlândia: Edufu, 2011. v. 1. 98p.

[5] SUANDERS, Claude; MOSSLEY, David; MACDONALD ROSS, George, et al.Como estudar filosofia: guia prático para estudantes. Tradução Vinicius Figueira. Porto Alegre: Artmed, 2009.

[6] FOLSCHEID, Dominique; WUNENBURGER, Jean-Jacques. Metodologia filosófica. Tradução Paulo Neves. — 31 ed. — São Paulo: Martins Fontes, 2006. — (Ferramentas).

[7] KOCH, Ingedore Villaçã. A inter-ação pela linguagem. 11. ed. São Paulo: Contexto, 2015.

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