Por que temos “isentões”?

Inicie uma conversa sobre política implicando em sua enunciação do tópico uma visão conservadora-cristã. Mas prepare bem a conversa, faça a asserção de forma clara e seja preciso na afirmação ou crítica. Seja objetivo, ofereça argumentos e explicite o que garante as inferências que apresenta. Ouvirá alguma seleção de casos contrários, contraexemplos. Algumas afirmações de indecibilidade, algunsad hocs e você ouvirá algo assim:

Não dá para saber, pois tanto um lado quando o outro tem lados bons e ruins. O mesmo vale para todos.

Pode encontrar variações

Todas as pessoas fazem isso, e mesmo em outros lugares ou épocas foi diferente.

ou

Eu não acho isso…

ainda

Isso não me convenceu!

Muito provavelmente você esta conversando com um isentão!

O isentão sempre nivelará, não importa o quanto sua afirmação seja forte para sua postura. Há muitos textos sobre o isentão (aqui, aqui e aqui) e nas questões políticas e econômicas ficou evidente e um tanto propositadamente sugeri uma asserção conservadora-cristã, por minha adesão, mas para qualquer um que não seja da esquerda ou algum tipo de progressista a situação que descrevo você reconhece.

Não penso ter o que contribuir nas respostas ao isentismo, alias não é um termo que designe algo real, é uma posição incoerente e inconsistente mas penso que posso contribuir por que quem o faz assim acredita fazer algo sofisticado, algo legal para dizer entre amigos em uma rodinha de bar, rodeado de hipsters ou em um comentário em um post. Dois hábitos sempre percebo em que faz assim: a relativização e o subjetivismo. Eles não se dão de forma simples do tipo “eu vou relativizar” ou “a conversa tem que ser guiada pelas nossas atitudes quanto aos tópicos”, é um processo. O termo relativismo não é muito bem visto, pois todos percebem que leva a situações ou de inação, ou de ações totalitária para solução de impasses de disputantes considerados iguais.E o subjetivismo apesar de não ser tão mal visto, principalmente em assuntos éticos mas parece nos afastar de uma atitude racional. Primeiro vamos entender como é mais comum do que parece essa relativização e como um tônica subjetivista se instala na conversa e com essa situação estamos diante de um isento muito bem fundamentado.

A dicotomia

Nossa educação há muitas décadas oferece uma visão progressista-historicista. Mostramos a história em períodos que se opõem, porem constituem uma mesma unidade. Essa composição junta fases não apenas diferentes, mas opostas. Temos a Era das Trevas e o Iluminismo em uma soma. Podemos ver casos particulares de situações opostos. Nossa compreensão se torna “viciada” em juntar opostos.

Muito desses casos são ilustrados como no caso da escravidão. Aprendemos que a escravidão foi mal, muito corretamente, mas a enxergamos como uma somatória para o que temos de bom em nossa época. A ideia de luta de classes se torna melhor desenhada, mas não é o único modo de gerar um sendo de relatividade. Não é que é necessário aquele ter havido aquele período para chegarmos hoje, mas que aquele período se dá em soma com nossa época, e que foi necessário.

A ideia que quero te fazer notar, que já esta aí, é a dicotomia. Mas uma detalhe que passa despercebido é que não tem estudo histórico sem uma teoria social em algum grau. Você é capaz de imaginar qual escola sociológica sustenta a análise histórica?

Uma visão de contradições é infundida, mas isso não é casual, aliás, isso é o ponto mais importante para a segurança da isenção. Uma visão que consiga lidar com oposições em sua percepção social nos faz pensar que é muito inclusiva! Quem não quer “entender” o que lhe opõem ou entende que há dois lados opostos que não se entendem mas você entende? É claro que não estou fazendo uma descrição exaustiva do pensamento esquerdista-progressista, mas não ver que há bons motivos para ter uma simpatia por adolescentes com esse elementos é não ter passado pela adolescência.

Uma visão sociológica bem questionável, mas é a formação que há muito tempo acontece em nosso sistema educacional e vem gerando uma massa.

Uma orientação que posso compartilhar é retomado os primeiros momentos da conversa que ilustrei no início do texto: os contraexemplos.

Quando discutir um isentão seria interessante não se fiar somente no tópico em que estão discutindo, mas prestar atenção que categorias ele emprega para descrever. Não muito raro reconhecerá o emprego de conceitos ou acepções e termos esquerdista-progressistas, como classe, gênero, “isso é estrutural”, ou algumas afirmações mais vagas como “isso é histórico” dependendo do grau de comprometimento ou infusão da doutrina pode ouvir explicitamente “há contradições”. Isso é muito amalgamado, no entanto reconhecerá.

Com essa observação o que fica claro agora é que muito provavelmente perceberá que os “contraexemplos” não são exatamente uma objeção ao isentão e nem se você encontrar uma contradição contra ele. Afinal, se eu conservador-cristão faço uma explicitação de um fato não serão com as mesmas categorias que ele. Uma refutação poderia ser por contradição, com categorias diferentes isso não ocorre, posto que contradição é entre os termos constituintes da asserção. Poderia ser também por um contraexemplo, mas percebendo a diferença de visões o exemplo que ele trás dificilmente incorre nos mesmos conceitos.

Não muito raro, pode encontrar uma mudança de ponto de discussão. Isso ocorre sacramentalmente no próximo ponto mas aqui é um caso especial da dicotomia: visão sintética.

Você se põem em um assunto, aguarda a consideração do isentão, e o isentão em vez de considerar o que você diz a ele, ele lhe diz:

Você diz isso porque você é contra ele ou tem algum interesse

Aqui a ideia é sintetizar sua postura (interlocutor) com o assunto!!!! Ele não considera o que você diz, mas análise você e o assunto!!!!

A emoção forte

Entre as cores azul ou verde, qual prefere? Bom, não importa qual responda, eu discordo, prefiro a outra. Quem esta certo?

Mas tem uma melhor, em um debate com um “ocupante” da mesma sala aula na universidade eu ouvi:

Isso é sua interpretação!

O ponto que é muito importante notar é que depois de nivelar fatos ou argumentos a indecibilidade não se mantém sempre. Quando temos tudo por igual, ou incomparável, como escolher?

A palavra é realmente “escolher”, pois em sua visão esquerdista-progressista ele retira todo o conteúdo de suas afirmações em uma redução sociológica histórica. Na leitura que brevemente comentei e sabemos as consequências.

Por isso que contraexemplos são um passo muito comum em conversas com isentões, pois permitem ter sempre afirmações das ideias que ele defende! Entre o que você diz e contra quem diz, ele reduz sua questão a subjetividade — se estiver debatendo com alguém que não é isentão, mas um isentão intermediar — ou após esvaziar suas ideias da realidade que implicam e a que se referem ele faz uma síntese entre você e ele e faz parecer que sua postura só é mantida por algum tipo de apelo emocional!

Não raro isso é incorrer na falácia subjetivista: em vez de discutir o assunto, passa-se a discutir o que se acha do assunto! Uma pesquisa sobre falácias pode lhe ajudar muito vou me voltar para outra aspecto dessas discussões.

Como disse antes temos infundido em nossa educação um modelo histórico-progressista, que não é aplicada como metodologia, mas modelo moral, um relativismo histórico. Muito que deletério, pois se os valores mudam com o tempo como podemos avaliar de nossa época uma outra época? Isso é algo que nunca foi respondido, bem comum dos defensores dessas atitudes!

Ao pensar no parágrafo anterior quase sempre pensamos que objetamos somente a postura progressista do isentão em sua atitude moral, mas é mais devastador, pois se tudo muda com o tempo e as pessoas também (lembre dos contraexemplos) como ele pode daqui, ou da classe dele ou outra coisa qualquer, compreender os outros? Se não pode compreender, isso é um problema da visão dele, não sua! Nessa hora muitos experimentam o socialismo sem perceber, pois o isentão nos coloca na mesma situação que ele, de indecisão, mas lembrando sobre o que foi dito da teoria histórica e social dele somos obrigados e reconhecer que é um problema dele, só dele!

Quando isso acontece e não percebemos ele começa a ditar as regras, apesar de isento, sabe o que é melhor! Vamos sendo conduzidos ao isentismo ou nos sentimos constrangidos por sentir que tem algo errado com a conversa mas não sabemos o que!

Pergunte a um isentão se como todos as pessoas estão nessa condição de redução sociológica, e ele também é uma pessoa, como pode conseguir explicar os erros que todos tem, incluindo ele, e ainda estar certo sobre isso?

Quando eu disse que o isentismo não é algo real é por esses apontamentos que trago agora. O isentismo é só um grau de esquerdismo-progressismo.

O que faz que seja muito comum é o constante processo de infusão dessa visão em nossas escolas.

Um outro fator, que tem uma dependência com o anterior, é que ao ver os termos que indiquei, a retórica e a condição de “entender” opostos, faz com que pareça ser uma pessoa sofistificada e inteligente. E se conseguir após o exame sociológico ainda oferecer uma avaliação psicológica, você será um cara muito cult.

Na verdade é um professor de imbecilização e ataque as faculdade intelectuais e morais das pessoas. Espero ter contribuído para a próxima vez que encontrar um isentão.