Sobre ‘The Big Shave’, de Scorsese

THAÍSSA PROENÇA
Jun 2 · 4 min read
‘Youtube, MARTIN SCORSESE “The Big Shave” SHORT FILM’

A Pré-história foi marcada pelo início da utilização de instrumentos em função de nossos ancestrais, essenciais para o processo evolutivo dos seres humanos, como o fogo, ossos, cascalhos e, principalmente, as lascas de pedras. Dessa forma, por volta de 30 mil anos atrás, o homem paleolítico descobriu que estas últimas, quando afiadas, lhe possibilitavam remover os pelos do seu rosto. Desde então, a barba foi ganhando significados ao longo da história, tornando-se uma via de expressão individual e coletiva.

Seu processo de ressignificação, então, foi influenciado pelo momento histórico vivido pela humanidade e toda sua complexidade. Os gregos, por exemplo, tinham o seu uso como costume, que foi abruptamente proibido por seu rei Alexandre, O Grande, durante a dominação macedônica na Grécia Antiga, pois lhe era claro que a manutenção da barba traria desvantagens aos seus soldados dentro do campo de batalha.

Analogamente, pode-se observar que a civilização romana atribuía à barba um valor espiritual, fazendo desta uma representação da masculinidade dos homens romanos. Os meninos romanos só cortariam os pelos de seu corpo ao passarem da infância para a juventude, quando os cortavam por completo — um ritual de passagem.

Ao analisarmos “The Big Shave”, de Scorsese, podemos perceber similitudes que apenas confirmam sua genialidade, mesmo que ainda tão jovem na época. Somos, primeiramente, apresentados ao espaço gradualmente, observando, plano por plano, os principais objetos que compõem a situação que estamos prestes a assistir, como se fossemos moscas escondidas num local de intimidade. Adentrando o banheiro inteiramente branco, experienciamos distintas sensações, tanto de limpeza e higiene, mas também, nos remete, inconscientemente, aos aspectos de representação dessa cor:

“Suprema luz, suprema expressão da cor, o branco evoca muito naturalmente os lugares altos, que parecem nos aproximar do céu. Esse fato subjetivo concorda com o fato objetivo da persistência da neve e do gelo no topo das altas montanhas.”

A Linguagem das Cores, 1980, René-Lucien Rousseau

A coloração branca emana fortes ondas energéticas, sendo em si, ambivalente: as paisagens de neve que nos causam quase uma euforia por sua beleza, também podem ser associadas ao frio desumano e à ausência de vida. Um emblema de luto durante a guerra.

Agora, podemos ver um jovem homem branco adentrando o banheiro, prestes a iniciar o ritual matinal do típico americano que vive no subúrbio, que está para se tornar um “ritual” de outra espécie, sobre o qual tratarei mais à frente. Ainda, temos como plano de fundo a música de Bunny Berigan (trompetista americano), “I can’t get started with you” que, de acordo com o próprio diretor, evoca sensações que remetem à América dos anos 30 em todo seu contexto preenchido pela Guerra Civil Espanhola, crise de 1929, o New Deal e os anos pré Segunda Guerra Mundial.

Scorsese, então, que tem gosto por utilizar músicas que contradizem — ou anunciam o que está por vir — , estabelece uma trilha sonora que conclui com êxito a tarefa de, inicialmente, deixar seu espectador à vontade para que, posteriormente, o deixe ainda mais desconfortável. Como feito, por exemplo, em Cassino, quando as personagens de Robert De Niro e Joe Pesci travam uma conversa extremamente tensa ao som de “Go your own way”, música da banda Fleetwood Mac, formada no mesmo ano de lançamento do curta em questão.

Levando em consideração que o ato de se barbear, na vida de um homem, é um dos primeiros sinais de sua maturação, um rito de passagem entre o infantil e o juvenil, pode-se estabelecer relações que nos remete aos gregos e romanos — e tudo o que lhes foi vivido. Nessas civilizações, os homens eram preparados desde muito jovens para a guerra, adaptando-se a vida de um soldado, submetidos a rigorosos treinamentos e provações desde muito cedo — não muito diferente do que foi vivenciado pelos enviados a Guerra do Vietnã, sendo esta a crítica do curta-metragem.

Pouco após três minutos do início da produção, a personagem que silenciosamente observamos, quando perto de terminar de se barbear, aplica novamente o creme que auxilia em fazê-lo e começa a cortar seu próprio rosto sucessivamente com a lâmina. Agora, vemos seu sangue tão jovem misturando-se ao banheiro branco, simbolizando, por tanto, a morte deste homem e dos tantos outros que foram enviados ao campo de batalha antes mesmo de seu amadurecimento, fazendo com que tudo tome a coloração vermelha da morte, do sangue, quando a personagem está claramente morta.


Se um rosto desnudo era sinônimo de civilidade no século XX, o horror de uma guerra tão violenta a contrapõe e põe em cheque toda a evolução que caminha desde o homem paleolítico. A humanidade está a projetar sua capacidade intelectual para o uso de instrumentos tão complexos, mas para fins tão atrozes em um intuito tão improgressivo, em nome do progresso. Só nos resta indagar o quanto, de fato, teremos evoluído desde os tempos das lascas de pedras.

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