Solidão compartilhada

THAÍSSA PROENÇA
“A Metamorfose de Narciso”, 1937, Salvador Dalí

Não, você não é o único. Acredito que todos nós, alguns mais e outros menos, compartilhamos — ironicamente — desse sentimento. O estar sozinho enquanto acompanhado. Aquela sensação de estar rodeado de pessoas, mas nunca ter se sentido tão só. Olhar ao redor e sentir-se incompreendido, sem ao menos ter dito uma palavra — o vazio já basta. Afinal, quem entenderia?

Somos (ou estamos?) líquidos, mas é como se fossemos de concreto. A cada vez mais frios, os relacionamentos escorregam por nossos dedos como água do mar, mas sem que sintamos uma gota sequer. Mergulhamos em nós mesmos, mas permanecemos na superfície. Compartilhamos de tudo, mas não compartilhamos nada. Vivemos conectados, mas nos lapsa a conexão até com nós mesmos. Lembramos de aniversários dos entes queridos por que um “sininho” nos avisou de manhã cedo. Achamos isso normal, afinal quem tem tempo para o banal hoje em dia? Por que paramos de nos importar?

O que Bauman chama de ‘liquidez moderna’ tem tudo — e nada — a ver com isso. Me familiarizei com sua abordagem dois anos atrás, quando minha turma a debateu, incessantemente, durante seis meses na faculdade. E posso dizer que continuo me familiarizando, dia após dia — é só olhar ao redor. Em uma percepção perspicaz, o filósofo e sociólogo definiu o mundo atual como ‘líquido’, em que até as relações humanas tornam-se voláteis. Sociologicamente falando. Jung chamaria de neurose coletiva. Freud diria que a relação com o modo que estamos explorando nossa sexualidade é evidente. Ou culparia o nosso narcisismo. Aliás, Narciso estaria orgulhoso. Platão iria ficar frustrado, já que, aparentemente, entramos em uma pseudo-caverna, por mais que ele tenha nos alertado. Nietzsche nem ia se dar ao trabalho.


Os segundos transformaram-se em pontinhos. Que viram minutos. Que duram por horas. E, quando nos damos conta, perdemos os nossos próprios pontinhos para espiar os dos outros. Quem são os ‘outros’? O fim do dia chega e você não fez nada que honre a si mesmo. Por isso, te pergunto: o que era tão importante?

Consumimos e a ansiedade nos consome. A era do tudo ou nada, por que temos de tudo, mas nada nos pertence, muito menos pertencemos a nada. Possessivos. De qualquer forma, tendo ou não, algo nos falta. O que é ‘ter’, de fato?

Absortos pelo vazio. As palmas das nossas mãos definham ao segurarmos as telas dos celulares, ao invés da mão de uma pessoa amada. Egocêntricos, gravamos imagens da própria face durante horas a fio, por detrás de um filtro, mas juramos ser aquela a nossa verdade. Caímos na mesma armadilha que Narciso — mas me pergunto se, ao menos, iremos virar flor.


A verdade é que está difícil achar gente de verdade. E, quando encontramos, corremos o mais rápido possível na direção oposta — por que se envolver? Confiar é coisa do passado.

Te digo, se a verdade mora nos olhos… É para lá que nos esquecemos de olhar — por querermos ver de tudo, acabamos não vendo nada.

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