Ficamos todos doentes

"A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos. Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo" Oscar Wilde.

Photo Armin Smailovic

Meu quarto, meu mundo. Sair dele chega a me dar dor física, de tão mal que me sinto. Nenhum outro lugar da casa me conforta tanto quanto aqui. Nos demais locais da casa me sinto exposta, muita luz, sinto frio. Antes, a sala da minha casa era meu lugar preferido. Bonita, Iluminada, ampla, vista panorâmica que amo, mas hoje não gosto nem de chegar perto da janela. Grande e exposta demais, fico pequena diante desta cidade enorme.

No meu quarto, no entardecer, cai o por do sol . Ele entra quente e forte pelas portas de vidro da varanda e atravessa as cortinas finas de algodão. Abro uma fresta e deixo ele me aquecer. Saio debaixo do edredom, deito ali nos pés da cama e adormeço de novo, quente e abraçada pelo sol. Aqui me sinto bem. Não quero mais ninguém perto de mim. Às vezes, minhas filhas pulam na cama, tentam não me deixar só e me animar, saem e voltam várias vezes, numa constante vigília. Mas quero ficar só. Sinto vergonha de mim mesma. O que sou hoje?

Quando vou pra rua, apenas para ir a terapia e ao meu psiquiatra, o coração acelera, sinto falta de ar, ânsia de vômito, a cabeça começa a latejar. Ansiedade, medo. As pessoas passam por mim e tomo susto. É um esforço enorme colocar o pé pra fora de casa. Faço porque preciso! E sempre com algum deles (marido ou filhas) comigo. Só, não conseguiria nem tomar banho hoje em dia. Nosso trato foi passar quinze dias em casa em tratamento e tentar evitar uma internação, o que é o mais indicado diante de onde cheguei. Tentativa de suicídio.

Ainda tenho pensamento negativos, depressivos e penso algumas vezes em me machucar. Já esta mais que claro o quanto fui negligente com o tratamento e começo a dar sinal que quero sair daqui de dentro de mim.

Mesmo aqui em casa, o contato com os mais intimos me desestabiliza. Única pessoa que veio aqui neste período foi minha afilhada. Sofri muito só de saber que ela viria aqui. Tudo de novo, falta de ar, choro, ansiedade. Mas no final, foi tão carinhoso e bom para minhas filhas dividir com alguém da idade delas outros momentos que não só esta vigília triste e constante sobre mim, que passou o mal estar.

Nesta mesma semana meu marido foi comigo a terapia. Eu queria muito que ele conversasse com minha terapeuta. O clima estava pesado e eu sentia necessidade de que ela também os orientasse. Uma tentativa de esclarecer e conversar um pouco sobre o TAB ( transtorno afetivo bipolar) com um profissional. Nestes anos todos ele nunca se aproximou de meus psiquiatras e terapeuta. Diante da situação crítica, todos falaram com ela e comigo junto, não só para ela esclarecer sobre meu estado e cuidados necessários, mas para também ouvi-los e saber como eles estavam se sentindo com isso tudo e ajudá-los. Foi confortante ter tanto apoio dela.

O psiquiatra fez a mesma coisa, falou com todos e indicou uma de minhas filhas como minha "guardiã" neste período de análise da evolução do meu estado, remédios, etc.

Foi duro pra mim, no primeiro momento, ouvir como se sentiam. Como estavam preocupados e esgotados. Do meu marido, ouvi pela primeira vez coisas que não estava forte para assimilar. Ele, que é extremamente discreto, não expõe suas emoções, acabou falando coisas que demonstrou claramente o quanto ele estava magoado, ferido, cansado de tudo isso. Quase desistiu de mim!

Para ele as questões da vida devem ser resolvidas no auto-controle, na mente, sem nhenhenhe…My God! Pobre amor! E se casou justamente com a “Diva do Caos?! (como me chamava um querido amigo).

Ele foi criado pra vida dura, sem mão na cabeça, etc. Relatou o quanto eu abusei com minhas impulsividades, agressividade, tudo querendo resolver na minha hora, independente do planos dos outros, expectativas sempre altíssimas de tudo e claro, as grandes decepções. Lembrou de todas as vezes que eu o mandei embora de casa. Confesso que me arrependia horas depois e ia tentar recuperar a merda feita, mas as cascas dele foram se formando e nos afastando.

Ficou claro nesta sessão, que ao longo destes 25 anos, dentro da ignorância de ambos, minha personalidade e os sintomas causados pela doença se misturaram e me transformaram aos olhos deles em uma só pessoa: arrogante, impulsiva, eufórica, histérica, insatisfeita, incansável, agressiva, dominadora, auto-suficiente, autoritária, extrovertida, amorosa, generosa, pegajosa, carente, depressiva, tímida, dispersa, inquieta, solitária, vaidosa, chamativa, etc, etc. Tantas características contraditórias numa mesma pessoa.

Entendemos ali que é possível com a ajuda da terapia e medicamentos separar isso. Personalidade x sintomas potencializados pelo TAB.

Como ele perguntou: — Quer dizer que a personalidade gosta de verde e a doente, quando em mania, eufórica ou depressiva simplesmente pode não gostar mais de verde e passar a gostar de vermelho?

A terapeuta e psiquiatra explicaram a todos também que como o TAB é uma doença, é químico, sem remédios eu jamais teria uma vida estabilizada. Obviamente também com a ajuda da psicanálise, onde eu posso elaborar melhor meus sentimos, ampliar o autoconhecimento, reconhecer os estalos que acontecem e a partir daí buscar uma ajuda mais intensiva. Ou seja, eu precisava aprender a lidar com a doença, comigo e e entender os primeiros sintomas de desequilíbrio ou já sabendo que alguns estresses conhecidos e recorrentes seriam inevitáveis, buscar a ajuda para amenizar isso tudo. Foi uma sessão muito esclarecedora para todos. Percebi o quanto ele quase desistiu de mim. Era meu cuidador natural sem ter conhecimento do que se tratava ou como lidar com isso.

Mas também por várias vezes, desde que fui diagnosticada, por 3 psiquiatras, pedi a todos em casa que buscassem pesquisar e entender mais sobre o TAB para me compreenderem mais, mas senti que na época ninguém me levou muito a sério.

Meu novo psiquiatra, que me acompanha desde a tentativa de suicidio, é alguém que estou tentando investir e confiar. Já abandonei muitos e chegar nele foi um parto. Pesquisei tudo sobre ele. Videos, livros, artigos publicados, tudo para ter certeza que ele poderia dar conta de mim. Por outro lado, não me restava muita opção a não ser tratar o TAB no serviço público que é uma piada. Seis meses para consulta e acabar sendo confinada numa clinica pública, daquelas que me apavoram.

Nestes 15 dias pós, tenho ficado muito irritada alternando com a depressão. O clima está tenso, triste, todos pisando em ovos e com os nervos a flor da pele. O barulho natural da casa, as conversas entre eles, som da TV, a vigília excessiva, tudo me estressava. Até minha terapeuta que falava comigo três vezes por dia ja estava me estressando. Queria sumir e ainda por cima, tinha vontade de beber!! Misturar bebida com clonazepam e cair profundamente no sono. Sumir e me machucar.

Tem uma bomba relógio aqui dentro que vai explodir. Percebo. Acabei tomando coragem para sair de casa, pois estava enlouquecendo aqui dentro. Fui ao mercadinho colado na minha casa. Aqui remédios e bebidas estão todos trancados. Queria beber e mandar todos para PQP!! Não aguento mais!! Desci, fui até a prateleira das bebidas e me senti muito mal com aquilo. O que estava fazendo comigo e com eles?? Voltei constrangida, me tranquei de volta no quarto, comi todos os doces que tinha em casa e fiquei esperando mais um dia infernal terminar.

Tentei ficar mais no meu mundo, sem fazer muito contato para não causar também. Como mal durmo e os pensamentos me atormentam, fico irriquieta. Não consigo prestar atenção em nada por muito tempo. Sempre acharam que eu prestava atenção só no que me interessava. Ex. Trabalho. Mas não é isso. Ando bem esquecida e sem condição de ouvir. Personalidade ou não, estou pior. Quando tentam conversar comigo, para me distrair, saber de mim, contar algo bom, ficam chateados, pois percebem que fico ansiosa para acabar logo a conversa e me deixarem só. Consegui ler um livro neste período, Mata teu Pai, uma versão bem estilizada do mito de Medéia, da autora Grace Passô, que na versão original mata seus filhos para se vingar de Jasão. Me identifiquei. Comecei o segundo livro, a biografia de Louis Althusser, importante filósofo francês, que tenho aqui comigo há anos e nunca consegui terminar, mas agora retomei. Tem muito de mim neste livro. Ele estrangulou durante um surto sua esposa Helene sem perceber e se lembrar de como ocorreu. Acordou pós surto com as mãos no pescoço dela, morta. Após 10 anos de internação, proibido de escrever e publicar, encontraram seus manuscritos com esta auto-biografia.

Os remédios que retomei começaram a fazer algum efeito. Já começo a pensar que quero sair dessa, não quero chegar mais longe.

Preciso me tratar profundamente. Intercalo momentos de desespero com irritação. Tenho magoado a todos que estão aqui comigo 24h por dia. Vou ficar sozinha pra sempre assim. Uma hora porque quero me isolar de tristeza, outra porque todos me irritam, nada me acalma.

Preciso assumir as consequencias do que fiz e aceitar que esta pesado para todos, eles estão adoecendo comigo. Preciso aceitar que necessito de um tratamento mais intensivo e com profissionais. Preciso ser internada. Liguei para meus médicos e os comuniquei da minha decisão. Na verdade aceitei a orientação deles.

De verdade, chorei muito quando decidi e contei a todos aqui. Não sabia o que me esperava, tinha a pior imagem possível de clínicas psiquiatricas, meu futuro nas mãos de pessoas desconhecidas e morria de medo de perder o direito sobre minha vida. Não queria ser esquecida lá dentro. Foi um martírio até chegar a hora de partir. Arrumar as coisas, preparar o que eu queria ter comigo, o que podia levar. Deixar procuração para tomarem decisões e providencias em meu nome! Estava pequena dentro de mim!

Raiva de mim e do mundo! Para tudo, por favor! Por que eu tinha que me sentir tão fraca, triste, ser tão vulnerável. Por que eu não era normal e sã, como todos por ai?

Meu coração chorou silenciosamente. Pensei nas filhas, marido, na minha mãe e em dois amigos que amo muito (não sabem de nada até agora).

Leio “Loucos e Santos” de Oscar Wilde

“Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila. Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.

A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo. Deles não quero resposta, quero meu avesso. Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.

Para isso, só sendo louco.

Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças. Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta. Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria.

Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto. Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade. Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.

Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça. Não quero amigos adultos nem chatos.

Quero-os metade infância e outra metade velhice! Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa. Tenho amigos para saber quem eu sou.

Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que normalidade é uma ilusão imbecil e estéril.”

Dormi chorando já sentindo falta de todos…