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A crise de abstinência por ser workaholic foi a melhor coisa que me aconteceu

Ricardo Oliveira
Aug 9, 2017 · 4 min read

Acordava de manhã e era o fim do mundo. Às vezes, ainda é. Não dava tempo de me sentir acordado. Abrir os olhos já era o suficiente para perceber o tanto de tarefas pendentes. De compromissos atrasados. De pautas que não foram executadas adequadamente. Aquele job que não ficou como eu gostaria.

Acordar era o suficiente para perceber que eu tinha falhado e que agora eu iria me sentir totalmente incapaz de “get things done”. Tudo que eu sentia era a angústia patológica de uma ansiedade que ou não me deixava sair de casa até conseguir me acalmar ou me fazia passar o dia inteiro incapaz de produzir as “tais coisas atrasadas”.

Esse não é o tipo de texto que você espera de um empresário. Admitir isso é mostrar fragilidade e cliente não gosta de fragilidade. A maioria dos empreendedores de hoje só estão preocupados em te dizer que o que você precisa é trabalhar mais que o expediente. Que precisa chegar antes dos seus funcionários e só sair depois deles. Muito depois. Porque, claro, o sucesso não vem do acaso, mas do suor e isso é pra vida toda.

[corta para 12 meses antes]

Aceitei trabalhar em projetos que eu sabia que me tomariam mais tempo do que cabe na agenda. Entrei de cabeça, sabendo que o tempo do dia seria pouco e seria necessário trabalhar até 1h da manhã, com raríssimos intervalos. A noção de fim de semana deixou de existir. Sábados e domingos pareciam com qualquer outro dia. A única divisão entre casa e trabalho era que em casa tinha uma cama. Nem o cachorro era elemento caseiro, ele também ia para o trabalho.

O curioso é que eu estava satisfeito com tudo isso. Não via problema algum. Afinal, era o que eu queria e o que empreendedores de sucesso diziam ser verdade. Se eu trabalhasse bastante veria os resultados acontecerem. E aconteceram. Mas não foram só eles que vieram.

[corta para 12 meses depois]

Acordo em mais uma segunda-feira (elas passaram a ser terríveis, de repente) e não entendo mais o que fazer. Não dá mais pra trabalhar e eu não entendia porque eu estava exagerando tanto o pensamento de que eu não ia dar conta das tarefas. Afinal, ao longo de vários dias, mesmo ansioso, eu percebia que se eu começasse a organiza-las, distribui-las com a equipe, refizesse agendas, eu iria dar conta.

Eu não conseguia perceber o que estava errado.

[corta para 4 meses antes]

Terminamos de organizar nosso novo espaço de trabalho. Minha própria empresa, em lugar personalizado, feito pra gente. Feito para trabalhar bem, com conforto e tudo que a gente precisa.

Pouco depois que ocupamos esse novo espaço, cumpri uma meta pessoal que eu tinha: não levar mais trabalho pra casa, a não ser em ocasiões especiais. Eu não iria mais trabalhar 16 horas por dia, todos os dias, como se isso fosse muito legal. Já fazia algum tempo em que eu queria mais qualidade de vida, mais tempo para voltar a ver os filmes que amo, talvez jogar um pouco de videogame e, especialmente, voltar a ler mais. Não importava o que vinha pela frente, eu iria dar um jeito. De alguma forma, eu ia aprender a colocar “o impossível” dentro da agenda normal. É bizarro, eu sei.

Mas ao menos uma parte eu consegui. A parte do descanso.

Voltei a ver filmes, séries, consegui terminar alguns livros e estava satisfeito com a simples ideia de chegar em casa e não fazer absolutamente nada. Deixar o Youtube em loop, jogar um pouco, ler alguns livros. Li o catatau “Homens Elegantes”, de Samir Machado de Machado, e recomendo.

Só que no outro dia de manhã, eu acordava estupidamente ansioso.

[corta 4 meses pra frente]

Em um desses dias de muita ansiedade, conversando com Rayssa no carro, eu de repente me dei conta: fazia um bom tempo que eu não trabalhava mais à noite em casa. Que não ficava até muito tarde com a cabeça fervilhando em planejamentos, edição de vídeos e coisas assim. Era assim desde o espaço novo.

Eu tinha largado tudo isso de uma vez só, abruptamente, em nome do meu bem estar.

E só assim percebi que eu tinha viciado meu corpo e minha mente em trabalhar 16 horas por dia.

Estava viciado em trabalho e toda aquela ansiedade era uma espécie de crise de abstinência.

Todo dia eu acordava em crise porque não tinha trabalhado o suficiente no dia anterior. E se ansiedade trava você de trabalhar bem, é evidente que a culpa será um loop infinito: você fica ansioso por não dar conta das tarefas e a ansiedade generalizada trava você de realizar as próprias tarefas.

Mas o curioso foi que perceber essa realidade, essa condição, foi um passo excelente para não me sentir da mesma forma. Eu estava, aos poucos, entendendo o que sentia e porque sentia. E entender tudo isso me ajudava a entender mais meus limites e também como eu devo buscar mais equilíbrio sobre cada “sim” e “não” que eu digo para minha vida profissional. Cada um tem um custo e ele não é apenas financeiro.

Afinal, cada sim profissional, também é um não profissional. E, para mim, metade do seu profissionalismo é aprender a dizer “não” e a outra metade é, de tempos em tempos, dizer sim para as coisas certas.

Aprendi a dizer sim para a pausa, o descanso e a qualidade de vida. E não vai ter renda extra que pague pela minha saúde.


#secuida

Ricardo Oliveira

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Faço conteúdo e escrevo sobre ele. Empresário fundador do Dois Cafés (www.estudiodoiscafes.com.br), palestrante e professor.

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