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Verdadezinhas convenientes (ou como estamos barrigando a democracia)

Desde pequeno eu acesso Internet. Dá pra dizer isso, mesmo aos 32. Comecei aos 11 nos chats do UOL ou navegando por notícias e blogs que me fizeram criar uma paixão por histórias, por conteúdo.

É provável que boa parte da razão de eu ter decidido estudar jornalismo seja por causa do conteúdo que consumo desde essa época, quando os computadores eram mais barulhentos e era caro acessar a “rede mundial de computadores”.

Mesmo não seguindo carreira em reportagem, passei boa parte dos meus 10 anos de profissão, completos mês passado, cercado de grandes repórteres. Gente que me ensinou a ter faro pra informação errada. A checar duas vezes antes de passar inverdades pra frente.

Antes de fazer uma mentira virar notícia. Antes de barrigar.

Barrigada é a expressão que jornalistas usam pra quando a apuração foi mal feita, empurrando com a barriga, e no fim sai publicada uma reportagem com erros ou mesmo mentiras. Guarde essa informação que vou voltar a ela daqui a pouco.

Se de alguma forma é um privilégio ser jornalista e estar cercado por esses que me ajudaram a sentir o cheiro de mentira de longe, é natural que o cuidado com a informação não seja o olhar da maioria.

O acesso se popularizou mais rápido do que as previsões. Em 2008, quando defendi meu TCC sobre convergência de mídias, meus pais não acessavam Internet com frequência.

Hoje, o espaço que parecia ser só de gente da minha idade, fuçando blogs, fóruns, vídeos, tweets, passou a ser de todos. Crianças de 7 anos são estrelas do YouTube, idosos brilham no Instagram.

Os parentes com quem você não imaginava falar pelo digital, agora mandam mensagens no Facebook, bom dia no Whats e compartilham notícias.

Acontece que é brutal o número de notícias falsas ou daquelas que são manipuladas para uma verdade conveniente. Não é à toa que nasceram no Brasil, desde o ano passado, diferentes veículos para verificar as fake news — que são bem mais compartilhadas que as verdadeiras.

No entanto, não parece fazer diferença.

Porque o acesso à informação cresceu, mas não cresceu a nossa capacidade de interpretação. Às vezes, parece que são inversamente proporcionais.

Para decidir os candidatos, espalhamos notícias falsas ou verdades convenientemente manipuladas para defender nossas teses. A gente constrói o que Eliane Brum chama de autoverdade:

“O conteúdo não importa, importa o ato de dizer. Assim, checar os fatos também não importa, porque os fatos não importam. O ato de dizer é confundido com ‘autenticidade’, com ‘sinceridade’, com ‘verdade’. Não importa o que seja dito. A estética foi colocada no lugar da ética. A ‘verdade’ tornou-se uma escolha pessoal. É o indivíduo levado à radicalidade”.

Tal qual jornalistas barrigando matérias, estamos barrigando as notícias que compartilhamos sem checar minimamente se aquilo faz sentido.

Será que essa acusação procede?

Será que foi contestada pelos citados?

Por que será que essa matéria não tem falas de nenhum especialista ou personagem citado?

Por que está em um site que eu nunca ouvi falar?

Será que esse vídeo compartilhado pelos meus amigos no WhatsApp é uma fonte confiável?

A barrigada deixou de ser o símbolo do erro jornalístico para virar o padrão de muitos quanto à informação que recebem e compartilham.

Falta cuidado, zelo, interpretação.

E assim, viramos agentes diretos da ignorância. É, isso mesmo.

Estamos barrigando um país, massacrando a democracia e fazendo com que o acesso a informação, um bem tão valioso, seja visto como uma piada.

Estamos dando uma barrigada na democracia e não nos comovemos em nada. Aceitamos verdadezinhas convenientes e temos muita preguiça de interpretar, analisar criticamente, confrontar ideias e não acreditar na primeira coisa que nos dizem. Isso vale para o que nos chega por todos os lados: do Jornal Nacional ao Facenews.

No fim, estamos dando uma barrigada em nossa escolha para presidente e, assim, no dia 01 de janeiro, poderemos estar como um editor de jornal diante de uma manchete “barrigada”: com muita vergonha pela falta de cuidado com a informação compartilhada.

Não custa nada lembrar: é mais fácil consertar a a besteira feita ainda na redação do que mandar tirar todos os jornais da rua.