
Ele entrou pela porta da frente. Como um convidado que é esperado pelos seus amigos. Mas, não era uma casa e dentro do ônibus estávamos nós.
Ele contou a sua história. Não que os escutássemos. O fedor que exalava do seu corpo desconcentrava os limpos que dividiam o teto com o convidado indesejável. O fedor fala mais alto.
Seu pé, atravessado por um ferro de uma ponta a outra, estava coberto por uma ferida que ainda minava e o acompanhava por longos meses. Existem feridas que não fecham nunca.
A cada passo meio pulado ele resmungava aos que negavam a doação das suas moedas. Ninguém ali parecia disposto a tocar aquele corpo, apodrecido. E ele sabia, por isso amaldiçoava a todos.
A dor física pode ser grande, mas o lamento de ser a escória fétida do mundo mina. Mina os restos humanos, excomungando e sentenciando: marginal.
Pela mesma porta da frente ele se vai. O fedor cessa, podemos respirar novamente. Os olhares dos amigos limpos se encontram.
“Que fedor, esse aí deve ter muitos dias sem tomar banho. Abre essa janela!” — esse era careca, na sua nuca uma crosta de lodo se misturava com o suor que escorria do seu corpo.
“Nem fala. Isso aí é pra droga, cadê que vai ao hospital?” — esse tinha compridas unhas, com sujeira presa embaixo delas. As quais ele cutucava com frequência com o bocal da caneta que logo em seguida levaria até a boca.
“Precisa abrir essas janelas. Pelo amor de Deus!” — essa mantinha uma criança sentada e quieta ao seu lado através de curtos e repetitivos beliscões.
Quem fede socialmente, fede mais.