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Preciso pedir desculpas aos estudiosos — mais especificamente ao Marc Augé — que falam sobre a cibercultura e com afinco propuseram definições sobre o ciberespaço. Mas, que raios eles esperavam explicar definindo algo como “não-lugar?”

A internet nos deu um novo espaço de contato, onde trocas são feitas a todo instante. Lá (que é aqui), tudo é muito rápido: assim como logo chega, logo vai embora. Nós consumimos essas redes e elas também nos consomem, nelas tudo nasce tão depressa quanto morre.

Quebraram a ideia linear de tempo, reduziram drasticamente a limitação geográfica, horizontalizaram a informação, modificaram a forma de se relacionar com o outro, expandiram as fontes de pesquisa. Abriram as portas da fama para o inusitado, ofertaram soluções inclusivas, inflamaram os debates. Alimentaram os curiosos e abrigaram os deslocados. Incentivaram um mundo a se converter em letrados digitais.

E, então, nomeiam o espaço digital como o “não-lugar”, um espaço de transição e com o qual não criamos qualquer tipo de relação.

Sim, o conceito de “não-lugar” é muito mais complexo do que o colocado aqui. A minha simplicidade em explicar é também em entender. Em um recorte simples explico meu ponto de vista: ao privar o espaço digital da ideia de lugar, instantaneamente nasce uma nova-quase classe social, os desabrigados digitais.

Sigo aqui criando termos inusitados, apenas para dizer o que não foi dito: nessa conjectura socio-digital, se tem algo que caracteriza o ambiente virtual é ele ser um lugar.

Ali é o lar de milhões de usuários, os lugares-online ofereceram a essas pessoas o que o offline não pôde suportar. O espaço virtual tornou encontros reais e viabilizou a continuidade deles, facilitou a realização pessoal e profissional independente da noção de espaço e tempo, abrigou e concretizou sonhos, gritos de socorro, de protesto e de amor. O lugar-online não tem como ser um não-lugar.

(que é aqui) as relações nascem, se multiplicam, morrem, revivem, regeneram, reorganizam-se. Elas existem e habitam o mundo dos códigos, da abstração e do intocável.

Com tantas inversões, acréscimos e decréscimos é possível entender que o não-lugar é só uma ideia fincada em raízes que já foram transplantadas a muito tempo? O nosso lugar agora é o imaterial, nós seremos infinitos.