Quem paga o pato?

Ninguém quer pagar o pato. Mas, tem muita gente pagando.
Tem quem pague esse pato desde a chegada dos portugueses no nosso país, desde a catequização dos índios, desde a chegada dos negros em condição de escravidão, desde a irresponsável lei Áurea, desde a concepção da família tradicional regida por Deus, desde esse Deus criar a mulher a partir da costela de Adão — um homem.
O pato que pagam está registrado no sangue derramado durante a ditadura militar, na relação direta entre favela e cadeia, nos vidros fechados com as suas crianças brancas dentro e as crianças negras sem os “seus” fora.
Esse pato é bem caro e as prestações seguem indefinidas.
Ninguém quer pagar o pato, mas com certeza tem quem pague. E o sistema não perdoa: quem não paga, cadeia; quem não paga, estupro; quem não paga, porrada; quem não paga, caixão.
Atrás do revólver apontado tem mais do que um criminoso, tem um pagante desse pato. Do outro, tem quem desconhece o preço desse pato.