Adeus, cachorro

Quando eu tinha oito anos ganhei um cachorro. Não que eu quisesse um cachorro, ninguém pediu minha opinião. Mas, com oito anos, eu ganhei um cachorro.

Ela chegou com dentinhos que mais pareciam agulhas e nossos calcanhares nunca mais foram os mesmos. Meus brinquedos delicados de peças minúsculas nunca mais foram os mesmos. Sandálias cor-de-rosa nunca mais foram as mesmas. Eu nem sequer sabia o que fazer com aquele filhote que brincava alucinadamente e, no segundo seguinte, dormia como se nunca tivesse dormido antes.

Chamei o filhote de Brenda e dei a ela uma chance. E, se tem uma coisa que os cães sabem, é aproveitar chances. Ela agarrou-se à chance com seus dentes-de-agulha pra nunca mais soltar e, ainda que fosse um filhote destrambelhado, me ofereceu todo amor que tinha dentro de si. Os cães são exagerados nessas coisas de oferecer amor, não existe mágoa no seu restrito grupo de sentimentos possíveis. Ainda que você brigue com eles, ficam ali, na espreita, prestando atenção em cada movimento, esperando qualquer mínima demonstração de afeto pra pular em você como se nada jamais tivesse acontecido.

Eu ouvia as crianças da escola falando sobre Dobermans e Dálmatas e como seus cães eram iguais aos das cartas do super trunfo. A Brenda nem sequer tinha uma carta no super trunfo. Ela era pequena, tinha olhos esbugalhados e dentes tão tortos que as presas de baixo terminavam quase que na ponta do nariz. Não importava. Ela ainda estava cumprindo o protocolo da chance.

Crescemos. Brenda e eu. Superamos a Fofolete mastigada sem piedade, mesmo que as bolinhas tivessem caído pela casa e em poucos dias a bonequinha estava tão magra e faminta que eu precisei enchê-la com feijões. Sobrevivemos à feira de ciências da quarta série construindo uma maquete sobre o ciclo da água (ainda que eu tivesse que despejar um copo d’água cada vez que a chuva fosse cair). Sobrevivemos às provas bimestrais e à primeira nota abaixo da média em uma prova de história que valia seis.

Dividimos meus primeiros acordes que repetiam incessantemente um dedilhado de dó, lá menor, ré menor, sol com sétima. Até calejar as pontas dos dedos. Até calejar os ouvidos dela.

Dividi com ela meus próprios amigos e minhas manhãs de domingo. Dividi meus sanduíches, ainda que não tenha sido uma dona exemplar ao fazê-lo. Espero que ela me perdoe por isso, mas seus olhos esbugalhados pedindo por migalhas eram uma espécie de tortura psicológica. Dividimos também, além de um espaço no sofá, outro significante no coração. Chinelos roídos já não tinham mais tanta importância.

Épocas difíceis vieram. Elas sempre vêm, mas tudo parece bem pior quando você tem dezoito anos. Ao mesmo tempo, tudo parece bem melhor quando você tem um cachorro. É que, ao contrário do que parece, focinhos não farejam só bacon. Focinhos farejam também decepções, frustrações, tristezas, medos e inseguranças. Eles sabem quando precisamos de um abraço, mesmo que seu abraço seja diferente dos que estamos acostumados.

Um dia, ela sumiu.

Procurei em casa, nos vizinhos, nas ruas. Procurei exaustivamente. Procurei até as pernas doerem e a voz sumir, mas o dia não dura pra sempre. O sol se põe e ele se pôs. E eu voltei sem Brenda. E eu disse que não choraria. E chovia sem mais parar. E eu chorei. A verdade é que eu não podia desistir da minha amiga e não o fiz. Espalhei fotos dos olhos esbugalhados pela cidade e foi assim que a encontrei três dias depois. E quando me viu, ela me ofereceu todo amor que havia guardado por três dias. E, acredite, três dias de amor pra um cachorro é muito tempo. E muito amor.

O tempo passou.

Minhas bonecas já não faziam mais parte da decoração, e seu interesse por mastigar coisas (e pessoas) já não era mais o mesmo mas, mesmo assim, passamos no vestibular. Entramos na faculdade. Sofremos com os primeiros trabalhos e com o medo de tudo que era novo.

Infelizmente, o tempo é mais cruel com os cães do que com a gente. Vi seu pêlo marrom e brilhante tornar-se branquinho. Do meu violão, ela passou a ouvir músicas inteiras e não mais quatro acordes incessantes. Os chinelos que uma vez foram roídos já não me serviam mais nos pés. Ela já não tinha mais qualquer força para brincadeiras e também esqueceu como é que se latia. Calou-se. Era agora só uma senhorinha deitada em forma de caracol, sem paciência pra mim e muito menos pra crianças.

Ela já não enxergava mais. Confundia paredes com corredores e dependia da nossa paciência. Tornou-se uma linda senhorinha ranzinza e dona dos nossos corações.

Ela nunca falhou comigo. Mas eu falhei com ela. Naquele domingo coloquei minha amiga no sofá e virei as costas, e eu sabia que não podia fazê-lo porque ela tentaria pular. E tentou.

A princípio, minha amiga veio até mim, baixou a cabeça pedindo algum carinho como de costume. Ela estava se despedindo.

Então, depois de me dar adeus, de uma maneira quase que inexplicável, ela saiu de si. Seu cérebro, de alguma forma, ativou todos os movimentos possíveis e ela não parava. Corria descordenadamente em círculos e caía em seguida. Rodopiava milhares de vezes no mesmo lugar. Ela já não era mais minha amiga, não era mais aquele amor que existia dentro dela, era agora só um animalzinho sofrendo sem conseguir desligar-se um segundo sequer.

E foi nesse momento que percebi que ela precisava parar. Com o coração mais apertado que nunca, levei minha amiga pra descansar. Eu a amava, mas seria tão egoísta da minha parte permitir que seguisse sofrendo daquela forma só por causa do meu amor. Ela, que havia me oferecido seu amor durante todos os dias da sua breve vida, contava comigo agora.

Só percebi o que tinha acabado de fazer quando entregaram minha amiga enroladinha em um paninho azul.

Minha amiga, que aproveitou até o último momento aquela chance que eu havia lhe dado há quinze anos, quando seus dentinhos ainda eram de agulhas. Minha amiga que, certamente, foi parando de latir aos poucos para que nos acostumássemos com o seu silêncio. Ela tinha acabado de virar lembrança.

Levei um tempo pra entender que os cães partem mesmo, é natural. Eles vêm pra nos mostrar o que é realmente um coração cheio de amor. A única coisa que você precisa entender é que quando escolhe ter um cachorro, tem que ser até o fim. Seu cachorro tem um coração puro demais pra ser abandonado na metade da vida, que já é tão breve. A vida do seu cachorrinho é só um sopro e ele nunca vai falhar com você. Nós sim falhamos com eles e, ainda assim, continuam nos amando desesperadamente. Entenda que você é a coisa que o seu cachorro mais ama. Ainda que você tenha muitas outras obrigações, a vida dele simplesmente gira em torno da sua.

Ele não vai durar pra sempre e você vai chorar. Não se envergonhe, ele não é qualquer cachorro, é o seu cachorro. Mas entenda, ele vai durar o tempo necessário pra te ensinar lições valiosas sobre o amor. Basta que você lhe dê apenas uma chance porque, como eu disse antes, se tem uma coisa que os cães sabem, é aproveitar chances.

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