Anjo Laura (Bertoni Zanchettin)

De longe não se via exatamente o que estava acontecendo. Me contentava com o vulto muito branco. Aparentemente, via-se uma criança por trás de uma mesa, brincando com alguns brinquedos. A névoa era branca, porém densa, eu estava tendo dificuldades para caminhar sobre todas aquelas nuvens. Andar sobre imensas almofadas feitas de ar era muito novo pra mim, pouco conseguia me equilibrar. A sensação se assemelhava a uma caminhada sobre gigantes pacotes d’água, colocados sobre balões instáveis e escorregadios. Tinha a impressão de que cairia a qualquer momento. Meus passos tortos não me deixavam chegar até a criança, que continuava a manusear objetos qu’eu jamais conseguiria identificar naquela imensidão branca. Depois de alguns instantes observando a sombra da criança, notei que ela parou de manusear os brinquedos. Deitou a cabeça para o lado esquerdo, como se também começasse a me observar.

– Venha até aqui, ela disse.

Notando minha confusão e preocupada com minha instabilidade para caminhar, disse novamente:

– Não tenha medo, também fiquei preocupada na primeira vez, mas aprendi que as nuvens jamais nos deixariam cair. Não tenha medo, reforçou.

Com a coragem oferecida pela criança, levantei ainda preocupada e arrisquei alguns passos.

– Não tenha medo – Reforçou. – Belo cabelo, tão longo –Disse com uma voz inexplicavelmente doce.

Ao ouvir o elogio, parei. Ela estava me vendo com completa nitidez, e eu, apenas via um vulto extremamente branco.

– Não consigo ver você com essa precisão- Eu disse.

– Mas que cabeça a minha, havia me esquecido sobre você!- Ouvi da criança- Era uma menina, pelo pouco que pude decifrar.

Segundos após a frase, a imensidão tomou uma cor muito clara e iluminada. Tons de amarelo misturavam-se com incríveis tons de azul e verde. Pude ver, de repente, árvores imensas brotando das mesmas nuvens que estavam bem abaixo dos meus pés. Um riacho passava à minha esquerda e, distante, porém visível, o arco íris mais encantador que já havia se formado diante dos meus olhos. Passei alguns instantes admirando aquela maravilha, misturando imagens, sons e sensações, tentando não perder nenhum detalhe da cena mais inimaginável que já havia presenciado. Pontos de luz acendiam e apagavam sobre nossas cabeças constantemente, quis perguntar porquê, mas estava deslumbrada demais.

A criança parecia mais encantada com a minha reação do que com toda aquela maravilha. Ela soltava gargalhadas a cada flor que brotava do chão, mas sem tirar os olhos de mim. Agora eu enxergava a criança! Era linda! Pequena, com um ar extremamente doce, infantil, e ao mesmo tempo um sorriso maduro e encantador. Pele branca, muito branca, com bochechas rosadas e uma boca tão delicada quanto as flores que ainda desabrochavam à nossa volta. Os cabelos eram claros, muito claros. Era um tom louro que combinava perfeitamente com a pele da menina. A franja, extremamente reta, exatamente em cima das sobrancelhas. Fiquei confusa, uma vez que em meio a todo aquele Paraíso, ela não possuía asas. Era só uma menina. Não vestia uma roupa branca e comprida, apenas um vestido simples, cor de rosa, com mangas longas, pouco acima dos joelhos. O olhar doce ainda vigiava meus passos.

– Espero que possa me desculpar, esqueci que teríamos visitas hoje. – Disse a criança.

Apenas observei.

A menina veio até mim andando pelas nuvens com uma desenvoltura impressionante, pegou minha mão, e com um sorriso perguntou se poderia me ajudar. Aceitei sua ajuda e rimos um pouco com meus passos errados e tortos, mas em poucas horas, estávamos as duas correndo pelo Paraíso, pulando riachos, e nos divertindo com as águas que nos chegavam pelas canelas.

– Como se chama? – Perguntei.

– Laura – ouvi – Me chamo Laura.

– O que faz aqui, Laura?

– Faço o que gosto!

– Que tipo de brinquedos são aqueles que você brincava assim que cheguei?

– Não são brinquedos.

– O que são?

Sem dar atenção para minha pergunta final, Laura me puxou pela mão e, juntas, seguimos um belo caminho contornado por tulipas avermelhadas simetricamente dispostas. Os pontos de luz continuavam a piscar e as flores, surpreendentemente, continuavam a desabrochar. Distante, víamos alguns animais soltos: cães, cavalos, ovelhas…

– Tá vendo? São meus animais preferidos, ganhei todos assim que cheguei aqui. O cachorro branco, o maior, se chama Alfredo. E lá – Apontando – Lá é minha casa, vem cá! – Disse Laura.

Segui a menina, que abriu a porta. Sua casa era surpreendente. Havia flores por toda parte. Era branca, totalmente branca. Na entrada, os ramos contornavam a porta com uma doçura que lembrava o próprio rosto da menina. As pequenas luzes piscavam até mesmo dentro de sua casa.

– Quem cuida de você, Laura?

– Deus – Respondeu sorrindo (esteve todo o tempo sorrindo).

– Onde Ele está? Não pudê vê-lo até agora- Falei desapontada.

– Ora, você está sendo injusta- Disse Laura- Olhe tudo a nossa volta. Veja as flores, o riacho, as árvores, os cães. Você viu aquele arco-íris, não viu? Viu aquelas cores? Viu os raios de sol que invadiram tudo por aqui? Como você pode dizer que não viu Deus? Deus está em tudo isso, está dentro de você e de mim. Ele está cuidando da gente agora, você não sente? Foi por isso que Ele me trouxe pra cá. Precisava de mim.

Olhei a minha volta, prestei atenção nas cores, no riacho, nas árvores, nas flores e fechei os olhos por alguns instantes.

– Sinto só paz, Laura.

– O que você acha que é Deus?

– Paz? – perguntei.

Foi quando fomos surpreendidas por um grupo imenso de crianças, para meu espanto, nenhuma vestida de branco. Cada uma vestindo uma cor diferente, algumas com mais de uma cor. Laura abriu um sorriso lindo ao vê-los e disse com empolgação:

– Espera só um pouquinho? É hora de brincar. Eu quero brincar!

– Sorri para a menina, aprovando seu pedido. Ela agradeceu e se misturou às outras crianças. Sentei no degrau da porta de Laura e observei as crianças brincando: ora com os cães, ora correndo, ora se escondendo, cantando, chutando a água do riacho umas nas outras. De vez em quando ela diminuía os passos, desacelerando. Ela parava pra ver se eu ainda estava lá, virava a cabeça e m’entrgava um sorriso encantador. Não sei exatamente quanto tempo passei observando aquelas crianças, mas a cada sorriso, a cada gargalhada, eu sentia a paz que a menina havia me falado mais cedo.

Quando Laura voltou, estava ainda mais iluminada, as luzinhas piscavam incansavelmente a sua volta e as flores desabrochavam ainda mais. Eu estava curiosa, e resolvi perguntar:

– Laura, por que essas luzes piscam o tempo todo em volta de você?

– São as velas – Disse.

– Velas?

– As pessoas que me amaram muito, antes de eu precisar vir pra cá, agora acendem velas pra mim. Pra me iluminar. Cada vez que eles me entregam luzinhas, as luzes piscam aqui também. Ainda sou muito amada por lá.

– Então as flores… – Eu disse.

– As flores desabrocham por aqui, quando me deixam flores lá. – Ela sorriu ao olhar as violetas brotando. – Vamos voltar lá? Quero te mostrar o que eu faço!

– Com aqueles brinquedos?- Perguntei

– Vem comigo! – Ouvi.

Eu já não precisava mais seguir a menina, pois já sabia a direção. Dessa vez, fomos lado a lado. No caminho, me perguntou se eu estava sentindo paz. Respondi positivamente, achando engraçada sua preocupação.

Estávamos chegando na mesa! A mesma mesa que a vi somente em vulto “brincando”, sem saber explicar exatamente o que eram aquelas coisas. Laura se posicionou atrás da mesa e disse:

– Vê? Corações!

– Corações? – Perguntei espantada.

– Sim! Infelizmente, lá de onde a gente vem, muitas crianças precisam de corações novinhos pra continuar vivendo, mas não existe tantas pessoas assim para doá-los. Por isso, preciso escolher as crianças que vão receber o coração. É uma tarefa muito difícil porque algumas famílias comemoram enquanto outras podem chorar. Olha só pra este coração que acabou de chegar, está novinho! Mas existe bem mais de uma criança esperando por ele. É isso que eu faço, ajudo as crianças a receberem corações. Não pude receber meu coração novinho enquanto estive por lá.

– Por que não recebeu?

– Precisavam de mim aqui.

– Quem cuidava de você lá?

– Meus pais. Eles sentem minha falta.

– Você sente falta deles?

– Sinto. Mas quando eu menos esperar, eles vão aparecer por aqui.

– Existe algo que te entristece? – Perguntei.

– Infelizmente, em meio a todo esse Paraíso, uma coisa me entristece.

– O que, Laura?

– Existem pessoas que não me permitem realizar todas as minhas missões com tranquilidade porque acham a doação de órgãos uma grande besteira. Outras evitam pensar sobre isso. Sabe, as pessoas precisam entender que tudo que mora dentro delas pode continuar funcionando, mesmo quando elas não podem mais usar. Quando a gente tem uma coisa que ainda funciona, mas já não pode mais usar, é certo que a gente empreste pra outra pessoa, né? Quando isso acontece, um pedacinho da gente continua sempre vivo em outro alguém. Meu sonho é que as pessoas entendam isso. Meu sonho é que as pessoas emprestem seus pedacinhos para as outras, quando não puderem mais usar. Assim, eu vou poder levar cada vez mais coraçõezinhos para as crianças da Terra, que tanto amo. Não havia coração novinho quando precisei porque Deus e as crianças precisavam de mim, mas a principal missão deixei nas mãos dos que me amavam. Eles estão lá, recrutando vários soldadinhos nesse grande gesto de amor ao próximo. Eles fazem o trabalho deles lá, e eu, o meu, aqui. Mesmo com a separação que tivemos que aceitar, Deus me deu esta função para proporcionar que continuássemos trabalhando juntos! Percebe?

– Então você gosta daqui!

– Muito. Sabe, eu gosto de aparecer para as crianças durante a longa cirurgia de troca de coraçãozinho. Passo horas dentro dos seus sonhos, brincando para que se distraiam, sabia? Elas ficam assustadas com minhas asas no começo, mas depois brincamos tanto que elas até se esquecem que estão trocando de coração!

– Mas você não tem asas, Laura…

– Não tenho asas por aqui, mas preciso delas quando apareço para brincar nos sonhos das crianças de lá.

– Então você é um anjo?

– Anjo Laura! – Respondeu sorrindo.

Ao ver aquele sorriso incomparável, ajoelhei diante da menina e abri meus braços. Sem pensar duas vezes, Laura me abraçou, com braços tão leves quanto os passarinhos que voavam sobre nossas cabeças, depois segurou minhas mãos e, sorrindo, disse:

– Já está escurecendo, estamos nos esquecendo, vem, vem comigo.

Juntas, fomos até a casa dela, entrei em seu quartinho e o que vi era tão lindo: A cama era extremamente branca, acompanhando todos o resto do quarto. Havia bonecas, ursinhos e quebra-cabeças. Não me contive e resolvi perguntar:

– Por que tantos brinquedos se você é um anjo, Laura?

– Sou criança também! Ganhei todos esses brinquedos quando cheguei aqui.

Não me surpreendi, afinal a menina, apesar de angelical, era infantil, brincalhona e muito bem humorada.

Notei também seu guarda-roupas. Fiquei curiosa para saber o que havia lá dentro, mas resolvi não perguntar dessa vez. Para minha sorte, a menina abriu a porta do guarda-roupinhas branco, procurando algo. As roupas não eram vestidos longos e brancos, como havia imaginado. Havia vestidinhos curtos e longos. Havia roupinhas de todas as cores. Tinha saia e até mesmo calças. Todas as roupas tão delicadas quanto o vestido que ela já estava usando. Laura pegou uma caixa branca de tamanho médio e esboçou um belo sorriso.

– Está aqui! – Disse.

Sem entender e nem questionar, fui atrás da pequena. Saímos de sua casa e começamos a caminhar por uma estrada bonita que, aparentemente, nos levaria a algum lugar que eu não conhecera até então. Apesar da minha curiosidade sobre o conteúdo da caixa, novamente não perguntei. Começava a escurecer enquanto ainda caminhávamos pela estrada. Ouvi da menina:

– Gosta de cantar?

– Gosto! – Eu disse, sorrindo.

– Canta pra mim? – Ela pediu.

Assustada com o pedido, sem saber que música exatamente eu poderia cantar naquele local tão celestial, perguntei:

– Que música você quer ouvir?

– Qualquer uma que tenha meu nome.

Estranhei. Ela queria uma música que contivesse seu nome, mas eu desconhecia.

– Não conheço nenhuma música que cite seu nome, Laura.

– Então faz uma pra mim?

Sem reação, (mas também sem poder negar um pedido lindo como aquele), pensei em algumas palavras e tentei colocar um ritmo, mesmo sabendo que jamais conseguiria descrever um anjo em palavras tão tortas e descombinadas. Mesmo assim, tentei, catando:

“ – Pra quem você tem um coração, Laura?

Seu coração bate por todos,

mas nem para todos você pode mandar um coração…

Pra quem você tem um coração, Laura?”

A menina, que parou de caminhar por alguns instantes, levantou a cabeça e tentou me olhar nos olhos. Percebi seu esforço e me abaixei para que conseguisse. Olhando bem pra mim, ela disse:

– Promete que vai terminar essa música? Termina ela pra mim? Promete?

– Prometo! – Eu disse convicta, com um grande sorriso (ainda que eu não fizesse a mínima ideia de como continuar).

Laura me abraçou com força e agradeceu. Seguimos pelo caminho cantando juntas a única estrofe que eu compusera pra ela. Sua voz era tão doce que me inspirava a continuar aquela música recém nascida.

Quando me dei conta, estávamos nos aproximando de um gramado imenso, quase sem fim. Um campo gigantesco, completamente aberto, com milhares de balões coloridos flutuando à meia altura, cataventos ainda mais coloridos, espetados no chão, rodando com o fraco vento que batia. Resolvi olhar em volta e percebi que não éramos as únicas. Para minha surpresa, milhares e milhares de outras crianças se aproximavam lentamente do campo, com caixinhas idênticas à de Laura. Em poucos instantes, o campo foi completamente tomado pelas crianças: Algumas maiores, outras bem pequenas. Meninas, meninos, Brancas, loiras, morenas, negras. Uma cena maravilhosa. Porém, mais incrível foi quando Laura me pediu para que ajoelhasse ao seu lado, para que ficássemos da mesma altura. Ajoelhei e abracei a menina pela cintura, esperando pelo que iria acontecer.

Com muita delicadeza, cada criança foi abrindo sua caixinha: Não em perfeita sintonia, algumas abriram um pouco antes, outras um pouco depois, e, a cada caixinha aberta, uma pequena estrela começava a levantar. Iam subindo lentamente, se distanciando das crianças até alcançar uma altura estável. A majestade daquele momento fez com que o dedinho da Laura impedisse uma pequena lágrima de escorrer em meu rosto. Eu percebi como era real aquela história sobre cada criança possuir uma estrela (mas que história nenhuma poderia se comparar ao que eu havia acabado de ver). Anjo laura disse baixinho:

– Está sentindo Deus?

– Estou… – Eu disse, sem concluir a frase.

– Amanhã precisamos recolher as estrelas na caixinha.

Eu estava ansiosa para recolher a estrela quando acordei. Estava no meu próprio quarto. Mesmo consciente, fechei os olhos em uma tentativa desesperada de reencontrá-la sem sucesso. Tudo que eu via em minha mente era o rosto da menina. Sentia paz.

Foi quando percebi qu’eu estava segurando um pedaço de papel. Trouxe o papel para perto dos meus olhos recém acordados e, para minha surpresa, era um bilhete. A letra infantil, dizia:

“Existem crianças que não são deste mundo. Nascem diferentes das outras. Nascem dotadas de tanta pureza e inocência, que Deus as prefere preservar. Deus prefere removê-las do mundo antes que tomem conhecimento de qualquer perversão do ser humano, antes que entendam até onde o homem pode ir em sua podridão de espírito. Deus as retira do mundo por serem estranha e imensuravelmente inocentes.”

Quando terminei de ler, sabia que havia acabado de conhecer um anjo. E que eu tinha uma música inteira pra escrever.

Que a sua luta não seja nunca esquecida.

[Texto dedicado à minha querida amiga Marina, que me trata com um imenso amor e divide comigo toda sua dor e saudade]

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