Esporte de Cabo Frio — o que eu espero para o futuro?

A eleição em Cabo Frio é amanhã e, eu tenho, mais que curiosidade, preocupação com os rumos que o esporte da cidade tá tomando. Entendo que a cidade tem outras prioridades e preocupações, mas com sabedoria e uma equipe competente e especializada à frente da Secretaria/Coordenadoria/Fundação, o próximo prefeito terá êxito na área — e poderá até, porque não, captar recursos financeiros para a cidade por meio do esporte.

São três pontos principais pra se discutir o esporte na cidade:

1) Recuperação dos espaços esportivos

Além das dezenas de quadras nas praças públicas da cidade (que eu duvido que alguém saiba quantas são atualmente, mas chegam quase a 70, somando os dois distritos), a municipalidade possui hoje três ginásios: o Alfredo Barreto (funcionando de forma precária há algum tempo); o Vivaldo Barreto, no Jardim Esperança (fechado há praticamente dois anos); e o João Augusto, em Tamoios (que funciona com dificuldades de operação desde sua inauguração e que está sendo gerido por um grupo da comunidade local).

Ginásio Vivaldo Barreto, Jardim Esperança

Sempre fiz muitas críticas aos projetos dos ginásios do Jardim Esperança e de Tamoios. No Jardim, A adaptação do que seria possivelmente um galpão ou depósito causou problemas estruturais para um ginásio. Os vestiários são ridículos: pequenos e mal ventilados. Não há tomadas nas arquibancadas para a transmissão de eventos por meio das TVs e rádios locais. Em compensação, a quadra é/era espetacular, com um piso muito bom e medidas oficiais.

Tem tanto espaço lá ao lado, ocioso. Por que não construir quadras abertas na parte externa, como foi feito no ginásio de Macaé (outro que também está abandonado)? Por que não fazer uma parceria com o Governo do Estado para instalar um posto avançado do Corpo de Bombeiros ali ou um novo DPO da Polícia Militar, mais amplo que o existente no bairro (o que melhoraria o aspecto de segurança, um dos pontos principais para o fechamento do ginásio)? Moro a três minutos do ginásio a pé, passo ali na frente todos os dias e me dá dó de ver um espaço daquele sem vida, inutilizado.

Ginásio João Inácio, Tamoios

O ginásio de Tamoios tem uma quadra um pouco menor (34m x 17m, se não me engano), mas tem uma coisa que acho muito legal: a arquibancada bem alta dá um clima de “arena” pra quem tá jogando. Também não sei como pensaram o projeto, mas acho que poderia ter sido feito um ginásio um pouco maior, com uma quadra também maior.

Das vezes que fui jogar lá, com minhas equipes, apesar de toda a boa vontade do pessoal que trabalhava no local, estava sempre faltando alguma coisa. Ou luz nos vestiários, ou água. Mas é um espaço importante que, bem cuidado, pode ser muito bem aproveitado pela comunidade local — até mesmo para competições de nível regional e/ou estadual, por conta da localização, bem na beira da RJ-106.

O Alfredo Barreto, mesmo longe das condições ideais, ainda funciona. Precisa de uma boa reforma, de vigilância permanente e continuada e da elaboração de um calendário de eventos que alcance ligas esportivas e clubes, competições de artes marciais e eventos que integrem o espaço à sociedade, desde que tenham a ver com esporte e dança. Nada contra festas, palestras, eventos religiosos, mas cada coisa em seu devido lugar. Em relação ao complexo esportivo, que a Prefeitura consiga parceiros para reequipar e manter a academia de musculação, o campo de grama sintética e o campo de futebol do Aracy Machado, além de construir a tão sonhada pista de atletismo.

Quadra da Praça Alfredo Castro, São Cristóvão

Sobre as quadras de praças: arrumar parceiros dentro da próprio bairro pra reformar e manter as quadras. Se a comunidade tiver a responsabilidade da melhoria, os próprios moradores e frequentadores vão se cobrar mais em relação à manutenção. É o que está acontecendo na Vila Nova, onde um mutirão de moradores e comerciantes ficou responsável pela pintura da quadra. Além disso, mapear algumas quadras com mais procura, atividades e dimensões para colocar cobertura. Em espaços onde se pretende futuramente construir quadras, tentar fazê-las com as maiores dimensões possíveis. Quadras públicas podem e devem ser usadas para competições interbairros de várias idades, competições entre igrejas, empresas, etc.

2) Esporte como ferramenta de inclusão/integração social

Pra muitos, o item mais importante da pauta. O que mais a gente vê nas campanhas é “vamos usar o esporte para tirar as crianças das ruas”. No entanto, entre o discurso e a prática está uma distância muito grande — e a execução nem sempre é feita da forma correta.

Primeiro, é preciso ter o conhecimento de que o esporte, sozinho, não faz nada. Ele é a porta de entrada para um mundo novo, mas seu benefício é potencializado se, junto com ele, for intensificada a educação, forem oferecidas opções de cultura, lazer, música, dança, artes cênicas…

Natação para crianças

Depois, entender que o melhor lugar pra criança praticar esporte ainda é na escola. É o ambiente onde ela está integrada, passa boa parte do tempo, tem acolhimento de profissionais de várias áreas. Eu defendo que os projetos sócio-esportivos sejam implementados sobretudo nas escolas (no contraturno das aulas e aos finais de semana), e que, para isso, os professores de Educação Física sejam valorizados dentro deste processo — com salários dignos, pagos em dia, oportunidade de capacitação e aprimoramento profissional e apoio no desenvolvimento de projetos.

A molecada está ainda sob os encantos das Olimpíadas e Paralimpíadas. Alguns tiveram a oportunidade ver até ‘in loco’ esportes que jamais imaginaram ver, que nem conheciam. Quem não teve como ir ao Rio, viu pela TV e descobriu que o Brasil tem feras na canoagem, no salto com vara, no boxe, na ginástica, no judô — além dos esportes coletivos. Isso é sempre um motivador pra que as crianças queiram fazer esporte. Cabe aos adultos oferecer a maior quantidade possível deles, pra que as crianças descubram do que gostam. Sem contar os esportes não olímpicos (como futsal, futebol de praia, futevôlei, jiu-jitsu, todos populares na cidade).

Jogos Estudantis: valorização é mais que necessária

Os projetos socioesportivos devem estar nas praças públicas? Sim! De preferência, junto com acompanhamento médico e das equipes da Assistência Social. Se não, vira só mais uma escolinha, como as que já existem, particulares ou não. O Poder Público tem que ter uma abrangência maior, uma responsabilidade maior com as crianças e jovens do município. Há recursos dos governos Federal e Estadual para isso. Precisa descobrir os caminhos para chegar a esse dinheiro, conseguir parceiros na iniciativa privada que queiram atrelar suas marcas a iniciativas de responsabilidade social e fazer as coisas acontecerem.

3) Esporte de rendimento e apoio a Ligas e clubes

Criou-se, em Cabo Frio, na época dos Emirados da Costa do Sol, a cultura de que a Prefeitura era a grande mamãe que tinha que dar a subsistência a todos os eventos. Quase como acontecia nos países do Leste Europeu desde a II Guerra Mundial até o final dos anos 1980. Isso criou uma zona de conforto que, salvo honrosas exceções, fez com que nosso esporte de rendimento ou não se desenvolvesse como poderia, ou dependesse exclusivamente da Prefeitura — o que significa dizer depender dos gostos e humores dos gestores e de toda a burocracia que emperra coisas simples, como compra de material esportivo, contratação de profissionais ou organização de eventos, com ou sem parcerias.

Futsal, campeão carioca e estadual em várias categorias

Em um período de recessão, eu defendo uma ideia, que serve, não só pra apoio/patrocínio a equipes e atletas de alto rendimento que disputam competições de nível estadual, nacional e internacional; como também para apoio e fomento a ligas e associações esportivas: a contratação (de preferência, por licitação, pra ser algo bem transparente) de um profissional ou de uma empresa especializada em captação de recursos. Essa empresa vai achar os patrocinadores para equipes/atletas/ligas, dentro do que a legislação permite hoje, em suas diversas modalidades. As duas pontas trabalhando com metas a cumprir. Uma gestão mais profissional do esporte, pra poder haver, nas duas vias, a cobrança. Ao Poder Público caberia supervisionar todo o processo e, a cada ano, fazer os ajustes que achar necessários, sem envolvimento de grana além do da contratação da empresa.

É um modelo que encontrará muita resistência no início, mas é o que acredito ser o mais adequado, dentro do cenário que vivemos. Não faz sentido, com a cidade quebrada, que a Prefeitura gaste o pouco dinheiro que tem em esporte de rendimento. Mas a Prefeitura tem muitas maneiras e mecanismos de conseguir os recursos pra engrenagem não parar de girar.

Bem. Era o que eu tinha para falar. Não sou candidato a nada, nem pretendo ser. Sou servidor concursado da Prefeitura, e nem na área estou trabalhando no momento, por opção minha, compromissos que eu assumi. Como sempre digo, não sou o dono da verdade, nem tenho nenhuma pretensão a ser. Só coloco minha opinião do que vejo e do que passei como dirigente e treinador nos últimos 19 anos. Críticas? Aceito todos, até as negativas. É o que faz crescer.