Se fizer direito
Samila não sabia se estava mais nervosa ou empolgada com a entrevista, só sabia que era a oportunidade que ela esperava desde que chegou nesse emprego. Tinha se formado a dois anos e até agora só havia trabalhado para sites de fofocas (precisava da grana), mas, ao contrário do que esperava, conseguiu fazer seu nome com isso. Seus amigos da faculdade viraram ótimas fontes para muitas matérias e escândalos que levaram sua assinatura. Com muita gente perguntando “Quem é essa menina?” foi relativamente fácil conseguir oportunidade em uma das maiores revistas de variedades do país, e, depois de escrever algumas matérias pequenas era chegada a hora de mostrar que tinha capacidade de fazer uma entrevista séria e importante.
Vicente Arantes nasceu em um berço de ouro tanto em dinheiro quanto cultura. Seu avô foi um dos mais importantes escritores da literatura brasileira e sua mãe uma das mais respeitadas atrizes que o teatro já teve. Com essa carga genética não era de se estranhar que ele se tornasse o que é. Vicente é um grande músico, ator e diretor do cinema brasileiro. Violonista virtuoso, fez grande sucesso na década de 90 quando era praticamente o único representante da MPB no mainstream nacional, e nos últimos 10 anos, além de se consagrar como ator em filmes que foram sucesso de bilheteria e crítica, tem se mostrado um grande diretor do mesmo porte.
Samila tinha também Arantes como sobrenome do meio, isso já seria um bom início de conversa para quebrar o gelo. Com alguns truques que já trazia consigo da escola das fofocas seria fácil conduzir a entrevista ,e, com sorte, teria a simpatia do entrevistado tanto quanto do público. Subiu as escadas, tocou a campainha.
Diferente do que ela imaginava, o próprio Vicente abriu a porta, ele já a estava esperando, morava com sua esposa e filhos em uma luxuosa casa em um luxuoso condomínio, não precisaria de mordomo em um lugar assim, bastavam as domésticas. Ela se apresentou, agradeceu por aceitar aquela entrevista e foi conduzida casa adentro. Se acomodaram na sala e enquanto eram servidos de chá começaram a entrevista:
-Acho que uma das primeiras coisas que tenho a obrigação de perguntar é sobre o que você tem feito né? O que está na sua agenda atualmente… Muitos shows, filmes, projetos? — Se esqueceu completamente de comentar sobre o sobrenome que partilhavam, mas agora já era tarde, e não importava também, já tinha começado bem.
-Bem… Estou trabalhando em um novo longa, mas infelizmente ainda não posso falar o nome. Quanto aos shows, terminei uma turnê no final do ano passado e estou me dedicando aos filmes, mas sempre sobra um tempinho pra compor alguma canção nova, já tenho material novo para um disco completo. Assim que terminar esse projeto em que estou trabalhando pretendo voltar ao estúdio e lançar mais um albúm e sair em turnê com ele.
-Esse novo filme, é um romance, uma comédia, um drama talvez? Tem como dar alguma dica do que possa ser?
-Não, infelizmente sou impedido por contrato de falar a respeito dele com a mídia ainda, mas posso adiantar que vai ser um trabalho muito interessante, provavelmente será um dos melhores que dirigi até agora.
-Então você está trabalhando como diretor nesse filme? Mas vai ser só como diretor ou vai atuar também como você fez no último?
-Nossa, — Vicente sorriu — já disse mais do que eu podia, você é uma boa repórter!
-Obrigada. — Samila corou levemente — E quanto ao seu último disco, existem rumores que você estaria insatisfeito com os resultados comerciais, que talvez não voltasse mais a gravar material novo, você confirma isso?
-Não, de maneira alguma, como disse agora a pouco eu ainda estou compondo e pretendo em breve voltar a gravar, música é muito mais do que um negócio para mim, música é minha segunda paixão, depois de minha família, claro. O que aconteceu foi que as vendas não foram tão bem como a gravadora esperava, mas atualmente isso é normal, a internet atrapalhou demais o mercado fonográfico brasileiro. Não só brasileiro, o mercado mundial. Quase ninguém compra CD’s mais, encontram tudo de graça na internet, aí fica difícil vender né? Mas a gente tenta contornar isso fazendo shows, vendendo online também, o que importa para mim é que meus fãs estejam me ouvindo, já fico muito agradecido por isso.
-Muitos artistas reclamam disso que a internet fez com o mercado musical não é? E falando de internet, o você costuma acessar? O que você faz online? Quais sites estão nos seus favoritos? — Ela sabia que essa não era uma pergunta das melhores, mas quem sabe ele já conhecesse o trabalho dela? Seria uma bela massagem no ego.
-Eu não sou muito de ficar na internet. Prefiro um bom livro, um bom filme, ouvir meus vinis… Mas as vezes eu abro o youtube para ver clipes de artistas antigos, ver o que está fazendo sucesso também, conhecer músicas novas… Mas fora isso só leio notícias praticamente. É a minha equipe que cuida do meu site e das outras coisas que eu tenho.
A entrevista corria melhor que que Samila esperara, conversaram de projetos futuros, de amigos e sucessos do passado, da família, dos filmes, teatro, literatura. Já tinha material para mostrar aos colegas e ao público que ela era uma ótima jornalista afinal de contas. A entrevista foi pendendo para o fim:
-Bem, para finalizar a gravação, Vicente, eu gostaria de agradecer mais uma vez a oportunidade que você me ofereceu e gostaria de saber só mais uma coisa, mais por curiosidade… Você é um homem muito talentoso, um dos melhores compositores e interprétes da MPB, um grante ator e grande diretor, além de ter uma cultura enorme pelo que todos conhecem e pude confirmar com essa nossa conversa. Mas o seu avô é um dos mais, senão o mais importante escritor da literatura nacional. Você nunca teve vontade de escrever algo também? Lançar um livro, escrever um roteiro, algo assim?
-Bem, confesso que já tive vontade algumas vezes, — disse, sempre simpático com o sorriso no rosto — mas, me sinto mais confortável com o violão do que com a caneta na mão. Escrever não é pra mim… Acho que não conseguiria.
Samila agradeceu mais uma vez, se despediu e voltou para seu escritório para escrever a matéria da sua vida. Na semana seguinte foi capa da revista em que trabalhava, uma das maiores do país: “BOMBA — Vicente Arantes revela ser ANALFABETO”.
