Ao último poeta de bordel, in memoriam

Nas ruas velhas de Hydra os paralelepípedos socados pelo tempo serpenteiam morro acima, ladeados por casinhas brancas organicamente empilhadas até o mar. Foi para essa ilha grega provinciana de murinhos desgastados que Cohen zarpou aos vinte e poucos, logo após ouvir-lhe o nome pela primeira vez, numa tarde londrina, logo cinza e chuvosa, de um passante bronzeado recém chegado da Hélade. Também devo ter vivido oito anos em Hydra, onde nunca estive, entre escadarias brancas que levam ao mar; lembro, de qualquer forma, dos dias prosaicos como o escritor mal-sucedido de Marianne. As janelas do velho quartinho, baforando calor mediterrâneo, as tardes despendidas numa sacada modesta com cadernos, passeios ao mercadinho e à farmácia, o violão na mesa como uma ressaca, uma brisa salgada e oleosa; lembro de todo o sol que deixei com ela e ainda aquece os telhados e as paredes brancas. Estou certo de que ainda estamos lá; o passado é, afinal, uma conspiração de físicos desapontados.

Não sacramentei a morte do meu pai; não fugi da cerimônia fúnebre para lhe enterrar um recado no quintal. Por isso, talvez, não seja um poeta, ainda menos um poeta de bordel. Foi sob esse epíteto que a musa dentuça Joni Mitchell certa vez cortou as pernas ao ladies’ man, cuja devoção judaica por adentrar a terra prometida nunca foi menos que sincera. Não me entendam mal; o puteiro pode ser um templo fraturado, mas também o filho de Nazaré é um deus quebrado. É afinal pelas frestas que pervade a luz, ou algo mais túrgido. Em todo caso, basta uma breve consulta às playlists de bordéis, vis-à-vis aquelas executadas nos motéis, para estabelecer a soberania de reserva moral dos primeiros. Em adolescente me imaginava, mesmo assim, no futuro, como o velho judeu: o clichê do escritor torturado, errando espectral num sobretudo pelas calçadas úmidas que as noites frias oferecem, e alhures duas ou três garotas godardianas, que nunca poderiam tê-lo realmente. Os sonhos estão arquivados com a memorabilia, na escrivaninha deixada em Hydra. Se sonharmos aqui, podemos indispor a concretude. E sei que a tangibilidade está em alta; já a gravidade, essa nunca decepcionou. Mas tornemos aos tugúrios, detrás de cujas cortinas se escafandra o sumo profano da noite. Que de falar em tangibilidade, mecânica e queda, do velho pornô de Newton, em síntese, falamos na verdade da mulher, e outra vez, dos templos seculares a ela devotados, em qualquer cultura profundamente matriarcal, como a nossa: o puteiro e o lar. Dos quais, apenas o segundo é propriamente satânico, e avesso ao espírito. Confirma-o a própria escritura: “Assim, porque és morno, e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca” (Apocalipse 3:16). Vê, o capiroto é, por excelência, petit bourgeois. Que é um lar, senão um lupanar em que a regular putaria morna se paga em exclusividade e amor. Haveria tentação mais profana, que as doçuras e garantias do tédio sustentável? A lira exige reverência e aptidão totais, não parciais, à queda. A corrupção é um ascetismo, e abnegar as finas delícias da moderação, o sacrifício monástico definitivo. Ouvi de São Pedro barrando aos portões do paraíso quantos não cheguem ainda fedendo a enxofre.

Eis, então, a afinidade íntima entre o Casanova e o artista: como a mulher, a lira é bastarda e vulgar. Não se conclua que o espírito, acompanhando a carne tumescente da ninfa, não lhe adorne com um requinte civilizado, capaz mesmo de monetizar a hora; ou que o mesmo espírito não seja indispensável às cordas, ou osciladores valvulados, do troubadour. Mas o pináculo da arte é a bastardização do espírito, do absoluto, da qual a poesia de puteiro é a expressão acabada. Tal o ensinamento estético do deus castrado do ocidente, parafusado a uma cruz, como um marido. O caminho desbravado por um Absoluto emasculado, carnal, antípoda da sã virilidade helênica; esse Divino rúptil, feminino e inapelavelmente pagão. Como uma puta, quebrado, e assim, crivado da luz triste, adúltera, do espírito. Um santo obsceno; um mórbido poeta de bordel.

No fim, resta um equilíbrio: os vermes tratarão nossos corpos, no leito último, exatamente como tratamo-las na cama. Requiescat, velho asceta da queda.