O Nariz de Sebastião

Assim que ele foi ao banheiro, todos os presentes à festa passaram a cochichar tóxicas caraminholas sobre seu nariz alérgico, que quando de um espirro consensualmente magistral e tido pela crítica como seu opus magnum, havia-lhe descolado do rosto e ora viajando o mundo, sozinho, numa missão beatnik. Decidira ir a pé; foi um abalo para o emocional vê-lo sumir no horizonte. Condoeram-se em massa do destino trágico de Sebastião, cujo apego à respiração era de conhecimento público. Por prudência, seguravam seus próprios narizes entre o indicador e o polegar, razão para o timbre anasalado das vozes em geral, na ocasião daquela solenidade etílica.

- Que sorte de pândego girigote deixaria seu nariz ir para o estrangeiro, sozinho e despreparado? — perguntou uma senhora, cujo rosto fora de todo enterrado pela maquiagem, obrigando-lhe a pintar outro com maquiagem.
- Certamente, aquele que tivesse no mínimo um nariz — respondeu o marido, um anão sensualista agarrado à sua canela.
- Ele poderia dizer “pode ir embora, nariz”, mesmo que não tivesse um — obtemperou um homem engatinhando em vestes sadomaso, encarquilhado, mas para um cadáver, bastante vivaz.

Um casal de jovens namorados acariciava-se furiosamente. Às vezes, sussurravam palavras amorosas, outras, rosnavam e mordiam-se com violência, arrancando nacos mútuos. Os demais presentes ficaram em silêncio por horas, segurando seus respectivos narizes. Sebastião voltou e anunciou, elegiacamente:

- Ele mandou uma carta, selo do México.

Metade dos presentes gritou “viva!”. A outra metade meneou a cabeça negativamente. Confusos, reconsideraram: estes últimos gritaram “viva!” e aqueles, os primeiros, menearam negativamente. Outra vez confusos, silenciaram. O velho sadomaso murmurou, melancólico e conciliador: “o envelope não é tactilmente repugnante, e não respinga sangue inocente”. Sebastião pôs-se a lê-la, em voz alta.

“Prezado senhor,

tenho saudades, e cada dia me leva mais perto de lembrar seu nome. Lembro, posso jurar, que você tem um. Se me dissesse com que letra começa, aquela com que termina, e se há ou não outras entre essas duas, especificando-as, em caso afirmativo, tudo isso fosse mais simples para todos nós. 
Tenho passado relativamente bem, apesar de descobrir que o mundo é diferente do que imaginamos, o que julgo indelicado. No México, nem todos os habitantes são parentes diretos ou distantes do Speedy Gonzales; em particular, não são ligeiros ou bidimensionais. Esses estranhos seres verdes estáticos na paisagem não são mexicanos. Tenho me comunicado satisfatoriamente, munido da palavra “sombrero” conjugada a certas inflexões ao mesmo tempo vocais, faciais e gestuais, cujo vigor levou-me a deslocar a bacia; o mexicano médio frequentemente ostentará porém o repelente hábito nacional de usar outras palavras além de “ariba”. Quanto afundou-me em profunda angústia germano-idealista. Frente às dimensões de minha desventura, uma cúpula de lexicólogos e filósofos foi formada para redefinir “poxinha”. Uma nobre família mexicana salvou-me das garras dos sarracenos e mongóis, às quais me rendera num ímpeto suicida, provendo-me guarida, compreensão e abrasante fúria sodomita. Tentei me afogar na sopa de cactus que serviram e me atiraram pela janela; talvez estejam ofendidos com minha etiqueta. 
Abandonado à sorte, à intempérie. Às dedadas cósmicas. No mundo, a precária casa-de-massagem de um Demiurgo ausente, a hora se cobra em integridade esfincteriana. Tão penetrante, excruciante, enregelante é o frio do México, que mesmo sem pescoço as moscas usam cachecol e os buritos são adotados como armas letais pela máfia local. 
Ainda assim, para ser sincero, não sinto saudades do Brasil. Espero que esse piscinão público, esse açougue continental insípido imploda, succionado pelo vácuo anímico da fauna repulsiva que o infecciona metastasicamente, como a um estômago hipertrofiado e doente, a digerir e aniquilar a vida que caia-lhe inadvertidamente no oceano azedo de merda brejeira reprocessada. Longe estaria do meu intento insinuar qualquer indisposição para com meus compatrícios, senão assegurar que abomino cada átomo inadimplente nos seus corpos supurados de infâmia, indolência e acarajés.

Rinoconstritivamente seu,
seu nariz.”

Que isso sirva de exemplo para todos nós.