A síndrome da superioridade ilusória Parte II. Superando as nossas limitações!

Como superar esta situação?

O primeiro a entender é que todos nós, em algum momento da vida, por insegurança, imaturidade ou por outros motivos, passamos por isso. Assim, não podemos condenar ninguém e deveríamos ficar vigilantes para não cair na armadilha da superioridade ilusória.

Também é importante entender que nunca saberemos tudo e aos poucos devemos ir estudando mais e mais, sem sentirmo-nos satisfeitos. Lembrem as palavras de Guimarães Rosa:

“O animal satisfeito dorme.”

Numa fase de transição, como a que estamos vivendo, instala-se o debate cuja dialética se define entre o certo e o incerto, o estável e o instável, o contínuo e a ruptura.

A realidade é que estamos em pleno processo de construção de uma sociedade tecnológica digital global que se configura como uma sociedade profundamente dinâmica e comunicativa, com novas linguagens, códigos, condutas, costumes e valores.

Friedrich Nietzsche certa vez falou que:
“As convicções são inimigas mais poderosas da verdade do que as mentiras.”

Já não são suficientes as competências clássicas do passado que continuam a se oferecer às empresas nos treinamentos e palestras corporativas como uma panacéia para todos os males.

Não adianta continuar a ensinar técnicas, por melhores que estas sejam, ou repetir frases de efeito com os famosos 7 passos para seu um líder, ou contratar um showmen Top, como vemos em muitas avisos para eventos corporativos.

Necessitamos formar os colaboradores para enfrentar um novo mundo, uma realidade onde a estabilidade é uma ilusão, o saber representa uma resposta temporária e as técnicas que repetíamos uma vez ou outra deixaram de ser importantes, até porque uma técnica, diferente de uma estratégia, foi concebida para a repetição cega em contextos estáveis e preestabelecidos. Por exemplo: fazer uma comida sempre com os mesmos ingredientes para a mesma quantidade de pessoas. Mas o que acontece se o alho acaba? Preciso criar uma nova estratégia, adaptar a técnica a uma nova situação e para isso é necessário possuir capacidades de adaptação as diversas condições do contexto.

Conheço inúmeros profissionais de primeira linha que se lhes acaba o alho, não sabem o que fazer. E acham que uma e outra vez o único válido é o que eles aprenderam.

Parafraseando a Mark Twain:
“Quando o único instrumento que você tem é um martelo, todo problema que apareça você tratará como um prego.”

Estamos vivendo num momento de transição, onde surge um novo tipo de racionalidade que é necessário desenvolver:

  • Que incorpora o sujeito e seus “preconceitos”. É muito importante manter a mente aberta, apesar do que conhecemos ou acreditamos, as vezes o que achávamos que era de uma forma, termina sendo de outra, e se não temos a mente aberta nunca teremos condição de reagir as mudanças e novas tendências do mercado.
  • Que resgata os outros na construção do consenso intersubjetivo; já que é a partir da troca mútua que se constrói e reconstrói o conhecimento, como colocava no artigo anterior, é como pedir emprestada a mente dos outros com conhecimentos e experiências para enriquecer a nossa.
  • Que promove uma cultura com regras de convivência que ressaltam a importância das diferenças, da tolerância, da empatia e do diálogo; um processo eminentemente reflexivo e dialógico.
  • Que aceita a complementaridade metodológica como abordagem para alcançar a compreensão do complexo mundo que habitamos. Hoje se torna imprescindível a abordagem interdisciplinar para a compreensão do contexto e as suas tendências.
  • Que supera o simplismo do pensamento lógico da explicação causal pela multirreferencialidade, ou seja, implementar óticas de leitura plurais e contraditórias para entender melhor uma realidade, uma dificuldade ou um problema a partir de diferentes perspectivas, em função de sistemas de referência distintos.
  • Que concebe o conhecimento como um processo inacabado, um permanente “sendo”; E quando falamos de conhecimentos nos referimos tanto aos conhecimentos teóricos como metodológicos, afinal o método é um conteúdo.

Lamentavelmente muitas universidades e organizações continuam formando e promovendo a formação de profissionais feitos; enchem a cabeça das pessoas com conteúdos (teorias e técnicas), como se eles fossem a última palavra dessa área de conhecimento. Ou seja, formam pessoas convictas de que sabem.

Já havia assinalado Daniels que o ensino direto de conceitos prontos para serem empacotados é pedagogicamente improdutivo.
O professor que tenta usar essa abordagem não alcança mais do que um aprendizado estúpido de palavras, um verbalismo vazio que estimula ou imita a presença de conceitos. Nessas condições se aprende não o conceito, mas a palavra, que ele capta pela memória, não pelo pensamento.
Assim surge uma geração de profissionais que dominam as palavras mas não os conceitos que elas significam e não conseguem aplicar e muito menos transferir os conceitos a outros contextos de atuação.

Necessitamos ir muito além disso na realidade atual; promover o exercício do “olhar para dentro”, e desenvolver a capacidade de “usar” bem o conhecimento que se tem, permitindo modificar a própria ação.

Há a necessidade de desenvolver estilos de pensamento meta-cognitivos, complexos, abertos às incertezas e às mudanças constantes, para dar conta de um mundo em constante transformação.

Precisamos aprender a aprender, e aprender a pensar.

Vivemos na era dos profissionais reflexivos na ação e sobre a ação, até porque a vida não espera e a reflexão na ação sempre é limitada. O Laboratório de Mudança, por exemplo, é um método e um instrumental novo para a intervenção formativa nas atividades de trabalho, projetado para atender a essa necessidade e auxiliar a transformação qualitativa e a aprendizagem expansiva no âmbito dessas atividades.

Não falamos apenas em efetuar mudanças nas práticas organizacionais, mas também no desenvolvimento da capacidade continuada dos profissionais para desenvolvê-las de modo expansivo, com o suporte de novas ferramentas conceituais e novas práticas.

Um tipo de proposta na qual uma unidade operacional, por exemplo, resolve seus problemas e contradições internas através da construção de novas formas de funcionamento coletivo.

O certo é que é hora de que os treinamentos corporativos e as universidades descubram nas ciências da educação uma base sólida para formar profissionais do século XXI. No mundo a educação há tempos deixou de ser um simples conteúdo de repetição.