Política para poucos

Vamos todos concordar, protestar agora virou modinha. Eu já achava isso desde as primeiras manifestações, lá em 2013. Muita gente revoltada com “tudo isso daí”, indo para as ruas por um motivo mas sem um objetivo. Digo isto porque mudar o país não é um objetivo, é a consequência, o resultado. Objetivos se alcançam com metas bem definidas, ponderadas e racionais. O máximo que eu vi na época foi gente falando do passe livre e de corrupção; fora isso, não vi propostas nem demandas claras. Tanto foi assim que eventualmente tudo perdeu força e acabou desaparecendo, como é o destino de toda revolta sem sentido.

Não vejo nada muito diferente acontecendo nas manifestações atuais.

Exemplos pontuais de corrupção ou incompetência eram citados, o mesmo acontece agora. É apenas mais um caso de um discurso ad hoc, quando não cai em bulverismo. Sim, temos corrupção, e sim, precisamos fazer algo a respeito. Mas para mim, a maioria das pessoas escolheu a forma mais absurda de participar. Bater panela e ir para as ruas pedir impeachment não vai mudar a estrutura nem o funcionamento do governo. Podem até tirar a Dilma, mas e aí? “Ah, conseguimos algo”. Conseguiram o que, exatamente? Mudar de um presidente alegadamente corrupto para outro igual ou pior?

Onde estão os objetivos reais? Por que não protestam para acelerar as investigações de tantos outros casos que ainda estão esperando julgamento, ou pedindo a renúncia de governadores incompetentes, senadores corruptos, prefeitos inertes? O que vejo não é uma movimentação contra a corrupção, o que vejo são pessoas que querem se sentir bem consigo mesmas fazendo parte de um movimento, escolhendo um alvo fácil para a revolta e acreditando que tudo vai se resolver ao derrotar este terrível inimigo. Godzilma, o terrível réptil gigante do governo.

Muitos reclamam que Dilma foi eleita mas sequer entendem o porquê. Acham que nordestino (ou os pobres, se você for nordestino, afinal a culpa é de alguém) é ignorante e não sabe votar. Gente, pobre sabe votar, sim. Eles votam em quem melhora a vida deles — por que vocês acreditam que votariam em alguém que promete melhorar a vida da classe média/alta? É visível que para quem ganha mais que “x” salários mínimos a vida piorou. Mas para a classe humilde, você acha mesmo que para eles está tudo pior?

Não, né? Todos sabemos que o governo “comprou os pobres”, supostamente com bolsa disso, bolsa daquilo, “direitos” e tal. E… Vejam só, essas mesmas pessoas decidem votar no governo que mudou sua vida. Em essência não é o mesmo que a classe média sempre faz? Vota em um candidato que melhora sua própria vida, buscando o “crescimento do país”? O crescimento do país é algo super importante e eu dou todo o meu apoio, não duvidem. Um argumento bem fundamentado poderia facilmente me convencer a votar em um candidato com este objetivo. Mas você quer mesmo dizer para o seu Zé que ele tem que preferir o “crescimento do país” do que dinheiro para pagar as contas e comida? Ele está passando fome hoje. O pão comprado em 2020 não alimenta retroativamente.

O governo tem que governar para todos: para ricos, pobres, empresários, servidores, prestadores de serviço. Enquanto existir uma distribuição de renda tão horrível vão também existir medidas “populistas”, sim. E elas vão funcionar, porque existe uma parte da população que vive com base nestes benefícios. Lutar contra a corrupção do governo é o mínimo que precisamos fazer, mas não é essa a luta dos protestos. É uma luta ideológica que tenta se disfarçar como outra coisa. No fundo, todo mundo sabe disso: não é um protesto contra a “corrupção do PT”, é um protesto contra o que as pessoas acreditam que o PT representa. Palavras como assistencialismo, bolsas, programas sociais, etc.

Mas enquanto estes conceitos tiverem importância para parte da população, governantes que os defendam continuarão sendo eleitos. Quer acabar com isso? Então precisamos resolver o problema. Precisamos entrar mais na política. Precisamos protestar quando uma votação de uma medida absurda for acontecer. Precisamos ir para as ruas pressionando nos dias de julgamento de políticos corruptos. Precisamos pedir transparência nas contratações estatais, protestar por mecanismos de controle mais eficientes. Precisamos enviar centenas de cartas e de e-mails para aquele deputado/senador que vai interferir em algo importante. Nem preciso dizer que precisamos de uma reforma política urgente. Precisamos protestar por e contra um monte de coisas.

Mas não contra “tudo isso aí”. Até que decidam fazer uma manifestação coerente, não participo, não. Se é para fazer isso, melhor é ficar assinando aquelas petições do Avaaz.

Pelo menos não sujam a rua.


F.A.Q. inevitável:

“Então você está dizendo que protestar é errado? Manifestações são importantes”!

Não. O protesto é, possivelmente, a ferramenta mais importante do cidadão em uma democracia. Mas protestos sem direcionamento são tão prejudiciais quanto a apatia. Precisamos de mobilização social por objetivos claros e bem definidos. Sem isso, o que temos é apenas confusão que pode acabar deixando o país mais instável do que ele já está.

“Você é contra o impeachment de Dilma”?

Não exatamente. Eu acredito que podem existir motivos legítimos para que a população lute por isso, ou ao menos deseje (como as promessas que foram quebradas já nos primeiros meses de governo). Mas é preciso entender que impeachment não é concurso de popularidade nem uma nova eleição: não basta gritar na rua, é preciso existir um crime de responsabilidade. Além disso, mesmo que os protestos tivessem sucesso, muita gente nem está parando para pensar em quem vai acabar assumindo a presidência de nosso país e quais seriam as consequências disso.

“Mas e a Petrobrás, e o escândalo do”…

Não é essa a questão. Acho que todos concordamos que, se não for inegavelmente corrupto, o governo de Dilma foi de uma incompetência assombrosa em diversos sentidos. Não é esse o problema discutido aqui.

“O governo está sufocando a classe média”!

Sim, certamente. Para fechar as contas e manter as políticas assistencialistas que sustentam a sua popularidade, Dilma precisa tirar o dinheiro de algum lugar. Como ela não possui poder político suficiente para aumentar os impostos das grandes empresas (como fazem países sérios como a Suécia) e mexer nas grandes fortunas, quem paga a conta é a classe média e os pequenos empresários. Taí um exemplo de algo que merece mesmo um protesto, aliás!

“O governo piorou mesmo para os pobres, eles estão sendo enganados”!

Eles não parecem concordar com isso. Além do mais, aqui existe um problema de falta de visão. Os pobres não estão sendo “enganados”, eles apenas estão votando em quem, finalmente, está mudando a vida deles de forma tangível. Pode ser uma mudança artificial na visão de alguns, mas é uma mudança ainda assim. Cego é quem acredita que uma pessoa deveria colocar o interesse dos outros acima dos seus: quem no mundo faz isso? A classe média? As grandes empresas? Os mais ricos?

Este problema tem uma solução simples: se os pobres tem prioridades diferentes da classe média, então transforme-os em classe média que eles também terão as mesmas prioridades. Se o que falta é educação para que eles percebam o absurdo da situação que vivem, se falta oportunidade para que eles queiram mais da vida do que viver sustentados pelo governo (porque duvido que qualquer um da classe média iria querer a vida que qualquer um desses pobres tem), então lute por um governo que ofereça isso a eles.

Os governos anteriores certamente não fizeram um bom trabalho se o governo do PT conseguiu captar tantos votos de forma “tão fácil”, não é verdade?

“Intervenção militar já!”

Eu acho que você está no site errado. Deixa que eu te ajudo a encontrar o seu grupo ideal.

Para finalizar, deixo um vídeo interessante do Clarion:

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