TREM DAS RUAS

NOS TRILHOS DA ARTE URBANA

Quem anda pelas ruas da cidade de Patos de Minas já se deparou com várias artes e o colorido dos desenhos em vários cantos da cidade. É a arte urbana no meio do caminho, transformando os espaços em verdadeiras galerias, exposições gratuitas O grafite tem se expandido e ganhado força através de muitos jovens que participam desse movimento.

Era uma tarde ensolarada, uma tarde regada a muito trabalho, onde havia prazer em cada coisa que era executada. Em um barracão próximo ao beco mais colorido da cidade de Patos de Minas- O beco do grafite. Notava-se a correria, e agitação de três jovens, unidos por uma paixão, a arte que faz dos muros da cidade, uma tela, um instrumento de poder, e comunicação. Três jovens com idades não tão distantes, Matheus Junior, de 18 anos, Berthier Teixeira de 24 anos, e Isabella Boreli Silva de 20 anos. O motivo de tanto trabalho, era justamente porque no final de semana mais um evento ligado ao grafite, aconteceria. E dessa vez viria em forma de ‘’trem’’, O TREM DAS RUAS, uma amostra cultural, onde esse mesmo trem é formado por telas, pintadas por vários artistas da cena do grafite de Patos de Minas. E dentro de cada vagão, as pessoas encontrariam muita música, e varal de poesia. Fazia gosto ver esses jovens trabalhando, com afinco, Berthier Teixeira ainda com seus pincéis sujos de tinta, nos contou que foram as revistas velhas da escola que o fez despertar o interesse por essa arte.

” Na escola, através de revistas velhas, conheci e me interessei pelo grafite, me encantei com sua história. ’’

Para entender um pouco sobre essa arte, é preciso voltar na década de 70. Pois foi nesse período que essa cultura foi surgindo e ganhando espaço pelo mundo. Tudo começou especialmente, em Nova Iorque , nos Estados Unidos.Onde o grafite é fortemente ligado ao movimento hip-hop. Não se sabe ao certo a data que essa arte chega no Brasil. Mas foi São Paulo a cidade que deu o primeiro abraço nesse novo instrumento de expressão. Um abraço preconceituoso, um abraço de araque, já que o grafite era visto como algo pejorativo, como a arte do vandalismo, e da marginalidade .Mas com o passar do tempo houve a ruptura desse

‘pré- conceito, ’ que ocorreu gradativamente, na medida em que os artistas foram aprimorando suas técnicas e desenhos, e as pessoas foram abrindo mais suas mentes e conhecendo mais da arte.

Perguntado sobre o modo de como ás pessoas vê o seu trabalho, e suas dificuldades. Berthier se mantém inerte, com o pincel nas mãos sorri levemente, e diz:

‘’Meu trabalho me fez ganhar o respeito das pessoas, mesmo tendo dificuldades, como por exemplo, os gastos com matérias, como tinta, spray e pincéis que são altos Mas as mensagens positivas e o carinho das pessoas são minhas maiores recompensas, de uma comunidade que muitas vezes é carente, e isso fortalece o movimento ’.

Do outro lado do barracão, avistamos uma nova geração dentro do grafite.

Matheus Junior, com seu jeitinho tímido, e com sua pouca idade já é fera na arte de grafitar, há seis anos aprendeu seus primeiros desenhos observando seu primo Berthier. E conta que ele é sua maior referência

‘’Aprendi tudo que sei vendo meu primo, e hoje vejo que ele é minha inspiração ‘’. Ele conta todo orgulhoso que seus trabalhos estão espalhados em vários cantos da cidade, como no Jardim Califórnia, e Sebastião Amorim. E isso não para por aqui, o garoto tem um sonho de se profissionalizar e viver da arte.

‘’ Para o meu futuro, quero continuar pintando e aperfeiçoando pra viver disso’’. Disse.

Quando o assunto é referência e inspirações esses jovens se tornam espelho um para o outro. Aprendendo com o outro e passando isso adiante. Isabella Boreli Silva e Eurico Gaspar são amigos há bastante tempo, os dois se conheceram em uma oficina de grafite dada por outro amigo. Isabella vê em Eurico, uma fonte de inspiração quando o assunto é o WILDSTYLE (ilustração de letras). Eurico que há 10 anos tem se dedicado ao grafite , fala que em cada momento ele passa para seu desenho aquilo que ele mesmo passa, ou sente no

Dia-a-dia, o desenho se torna uma terapia, e ao mesmo tempo a fuga ou a denuncia de uma realidade.

‘’ Quando eu olho minha arte, eu consigo falar comigo mesmo e com varias pessoas ao mesmo tempo, apontando algo que muitos não veem ‘’.

Se tratando de participação e prestigio da comunidade Patense, Eurico diz que às vezes existe certo preconceito em alguns estilos de grafites, que as pessoas curtem mais os desenhos coloridos, mas que no geral a aceitação é muito positiva. Como de praxe, no final desse bate- papo descontraído é feito a pergunta mais reflexiva e difícil de ser respondida.

O que a arte do grafite mudou em sua vida?

Nesse momento as palavras travam, e segundos depois vem a respostas objetiva e com traços de muita gratidão. ‘’ Tudo, bem dizer tudo, o grafite me salvou, todas as pessoas que relaciono são desse segmento, então minha vida é para o grafite ‘’.

Grafiteira e universitária do curso de Letras Isabella Boreli, arruma sempre tempinho entre a faculdade, o estágio e o trabalho, para ajudar seus amigos no movimento e nos eventos culturais. Ela sempre gostou do mundo do grafite . Foi quando começou a buscar seus sonhos aos 10 anos de idade, participando de oficinas na cidade. Hoje depois de adulta, a jovem tem uma ideologia focada no uso do grafite para combater o machismo, ou pelo menos para tentar passar a sua mensagem. Com sua sensibilidade e seu jeito tão espontâneo de falar, Isabela acredita que sua responsabilidade no universo do grafite é grande e complexa . Justamente por está inserida em uma arte onde a maioria é representada por homens. O que a faz ser referência para outras meninas que estão vindos bem atrás dela.

‘’ Vejo que muitas meninas, ao me ver se sentem felizes, e até tem interesse em participar,então a gente vai buscando, introduzindo mulheres no movimento, é assim que vamos quebrando os espaços que era dos homens, e isso é uma quebra do machismo’’.

Isabela nos conta que sua arte está voltada para denunciar os padrões de beleza prezados pela sociedade atual, e ressalta que é muito importante que as minorias, se sintam representadas , seja na arte do grafite, seja nos comercias da tevê, ou na novela das nove, as mulheres devem se enxergar em cada coisa presente do nosso cotidiano.

‘’ Quando eu faço meus desenhos eu gosto de desenhar mulheres, mulheres, negras, gordas, para elas se verem e se identificarem, nossa aquela mulher é igual a mim… ’’

Questionada sobre seu maior sonho, Isabela diz que é continuar realizando seus trabalhos dentro do grafite, buscando sua evolução para aperfeiçoar seus trabalhos, e que trabalha firme para formar um Crew (conjunto de grafiteiros -, no caso dela só de meninas-, que se reúnem para pintar ao mesmo tempo).

‘’Quero sempre evoluir, meu sonho é evoluir na minha arte e buscar mais meninas pra dentro do movimento, isso é objetivo, a gente vai conquistando aos poucos. Quero ser referência para alguém, em que um dia eu possa até lapidar essa pessoa, para ela ser uma pessoa com um pensamento ‘’massa. ’’’

Mais um copo d’água para assassinar o calor escaldante daquele inicio de tarde. E pronto! Depois de muita conversa debates e reflexão sobre a cena da arte urbana da cidade, é hora de deixar os nossos s três amigos, voltarem ao tralhado, afinal de contas.

O ’’ trem das ruas ‘’ está a quatro dias de nós, e até lá muitas coisas ganharão cores. Muito trabalho pela frente. Tudo tende ganhar forma.

Despedimos com mensagens de sucesso e boa sorte!

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