05–01–16, às 21:12
Eu tinha que me lembrar de tudo o que eu vinha tentando me cercar esses dias. As ocupaçoes, os projetos. Horas atrás eu sentia tudo isso se aproximando lento de mim, sólido ao toque não sei, mas parecia sólido o bastante de ser visto. E tangível. E me dava um motivo pra rastejar pelos dias até que o futuro aconteça. Me anima.
Mas bastou uma única palavra sua pra que você entrasse na frente de todos os objetivos que vinham ao meu encontro. De todos os planos que fiz pra noite de hoje. Era o eterno assoprar o castelinho de cartas que demorei semanas pra construir. E me parecia de fato um sopro pois não parece te exigir força alguma.
Daí parece que perco a percepção do tempo e do espaço. Já faz uma hora e meia que eu cheguei? Não me lembro de ter quase arrancado a toalha da mesa ao levantar pra fazer sei lá o que na cozinha enquanto minha mãe e minha irmã conversavam. Acho que fui buscar uma faca. Não lembro direito do gosto da panqueca, mas lembro da cor do meu prato: era daqueles vidros azuis escuros. Tenho tentado lembrar das coisas agora, desde que te conheci descobri que tenho essa habilidade, ainda que seja um sufoco pra lembrar. Não lembro da toalha da mesa tampouco, só queria vir pro meu mundinho e falar algo com você. É tanta coisa que se acumulou durante essas semanas, tanta coisa que eu pensei.. não sei se eu deveria, tambem. E talvez nem conseguisse.
É vertiginiosa a sensação toda vez que você volta, ainda. Não me acostumei e nem vou ter tempo de me acostumar.
Não prestei atençao no jeito que joguei o meu prato na pia e o barulho dos outros pratos batendo no escorredor me assustou duas vezes mais do que deveria. Não tirei a bolsa que estava pendendo na maçaneta da porta para fechá-la, só queria me sentar na cama e falar algo pra você.
Mas pensei só nesses quinze minutos um milhão de vezes em dois milhões de motivos pelos quais não deveria, não levaria a lugar algum falar as coisas que sempre te falei. Ainda assim a corda do sincericídio pendeu e não pude evitar: “pensei em você nesses dois dias”. Só saiu. Não importa, nada muda. Tento me acalmar, percebo que estou balançando os pés rapido demais. Percebo que do absoluto nada já estou rodeada de você como se, de surpresa, me empurrassem numa piscina e você fosse a água.
Piscina quente.
Mas nada muda. Você quem foi embora, você quem não vai ficar. Eu que fui parte desse ato violento contra a monogamia (ex rival, hoje já a vejo com olhos bem melhores) e minha própria ética, da mesma forma impulsiva, continuo a falar com você. Não vou deixar nada pra lá, não. Preciso botar pontos finais onde eles devem estar.. E logo estou pensando em formas de me despedir fisicamente. Argh. Não fiz argh em voz alta mas talvez fizesse se estivesse sozinha. Argh sempre foi a palavra pra definir meus sentimentos por você.
Penso que talvez deveriamos sair pra tomar aquela cerveja de chocolate que esquentou terrívelmente na minha bolsa, só que agora gelada. E entregar o livro que agora leio, sentada na minha cama, cujo personagem do capítulo atual me lembra você. Mas te encontrar é só uma desculpa, na verdade, pra encerrar esse ciclo de você. Nunca dissemos um adeus, né. Acho que o que me falta pra finalmente fechar essa gaveta é um abraço seu. Estou começando a acreditar nisso. Um abraço terno pra dizer tudo o que foi, tudo o que não vai dar pra ser. Sinto muito, estou pensando no que você pensaria se lesse isso. Mas acho que esse abraço possa ser necessário. Quero ver o fim escrito nos seus olhos. Tomara que você erga uma sobrancelha como você costuma fazer ao perguntar algo. Não me lembro qual das duas, acho que a esquerda.. Provavelmente. Me lembro daquele dia que sentamos pra tomar cerveja no bar do largo do Paissandú e você estava sentada bem na minha frente, apenas uma cerveja recortando a imagem que eu tinha de você ali. À sua esquerda, o lado da sua sobrancelha que subia ao perguntar (algo que não me lembro, óbvio, tão intensa a cena de você à meia luz fluorescente que tentava sair do bar se cravou na minha mente, não posso exigir tantos detalhes da minha memória) erguia-se aquele prédio ocupado e de um tom salmão desbotado. De esquina. Sempre gostei muito dele, ele tem um charme antigo e bem próprio. Me lembro de olhar pra ele sem parar na primeira vez que saí com o Lucas e fomos parar exatamente ali, naquele bar. Mas fosse o tempo ou fosse sua companhia que fez tal efeito: ele nunca me pareceu tão bonito quanto naquele dia que a gente estava lá.
Já começo a ficar irritada com o ruído do meu rádio mas não o desligo, harmoniza muito bem com o barulho na minha cabeça agora. Não me lembro em que momento deitei, ainda com a roupa que cheguei do trabalho. Roupa que me lembra aquele dia que dormi na sua casa e sequestrei a sua camisa pra nao vir trabalhar no dia seguinte com a mesma roupa. Ainda acho fofo o jeito que você emprestou. E também o jeito que você se atrasou 17 milhões de horas pro trabalho e a culpa é minha (essa parte nao é fofa). Olha quantos problemas te causei.
To considerando te mostrar isso tudo mas acho que até terminar essa frase já desisti. Conto com o impulso nosso de cada dia, amém.
Já joguei o livro de lado e estou há 44 minutos pensando e digitando tudo o que me ocorre sobre você. Acho que é chegada a famosa hora de parar.
A Bia não aparece, já não era pra ela estar em casa? Quando foi que virou 22h???
Merda, acabei de mandar tudo isso pra você. Não sei se é pior você ler ou você não ler. Wait time is the worssst.. Acho que vou dormir. Nem mesmo minhas pálpebras conseguem parar, piscam ainda fechadas como se uma corrente elétrica me circulasse por dentro ao invés de sangue. Talvez desenhar seja menos pior. Quase tive um avc com esse banner do twitter que acaba de aparecer no topo do meu celular, achei que fosse você. Não queria atrapalhar seu filme. Mas até aí não queria atrapalhar tua vida, também.
Estou quase exatamente igual àquele dia que cheguei em casa após te encontrar no metrô, depois de vinte dias sem falar com você. Sentada na cama, apenas esperando alguem da casa vir atrapalhar minha introspeção. De lá pra cá não foi muito o que mudou aqui, só me lembro de duas coisas: minha cama está na parede oposta e você apareceu mas dessa vez não pra ficar. Pelo visto nem na ultima vez.