Do calabouço rumo ao estrelato

Por Lucas Amaral e Lucas Garske

Ela desce as escadas que levam ao palco da boate Sinners, em Porto Alegre, na madrugada do feriado da Sexta-Feira Santa, com seu cabelo loiro, batom roxo brilhante, peitos firmes e bunda avantajada, ao som de Arregaçada, da Banda Uó, sob os gritos de “Diva” vindos de cerca de oitenta pessoas que esperam por apresentação. O show é de Cassandra Calabouço, uma drag queen bastante conhecida em Porto Alegre, criada pelo bailarino e professor Nilton Gaffree Júnior.

Júnior, nascido em Pelotas, é o caçula de cinco irmãos que, atualmente, vivem espalhados pelo Rio Grande do Sul e Portugal. Mora com Nicky, sua cachorra de estimação, em um apartamento simples no bairro Floresta, em Porto Alegre. Seu espaço de trabalho é o seu banheiro, com duas bancadas cobertas de maquiagens, dois espelhos e tubos de laquê para fixar a peruca. Nessa noite, ele fará mais uma apresentação, ofício que realiza há 19 anos.

O ano era 1998, Júnior estava encantado pelas Drag Queens da época e começa a criar suas interpretações e apresentá-las para amigos e familiares. No ano seguinte, um conhecido o convida para se apresentar nos finais de semana em uma casa noturna de Porto Alegre, época em que começam suas primeiras dificuldades.

“Quando eu comecei a me apresentar todas as sextas e sábados, foi uma função bem difícil. Era peruca, figurino e apresentação. Não dava pra repetir nada. Eu tinha que ser bem over, tinha que ser exagerado e usar a minha criatividade com pouco tempo para fazer”, lembra o ator.

Homossexual assumido, a feminilização de sua personagem é hoje um processo natural. Porém, essa aceitação aconteceu somente na fase adulta. A opção sexual de Júnior, na adolescência, acabou gerando conflitos internos. Não havia medo do preconceito, mas sim uma barreira dentro de si que não o deixava “sair do armário” (ou calabouço, em referência à personagem).

Nos anos 80, ainda tentando ser hétero, após terminar o namoro com uma menina, surgia o nome de sua personagem principal. Durante uma visita ao cabeleireiro e amigo Paulo Selmo, contou sobre sua primeira desilusão amorosa e ouviu algo que nunca esqueceu. — Pra que chorar? Tu ainda vai ser uma grande travesti. Já vejo até o teu nome. Vai ser Cassandra Calabouço, porque tá a maior parte do tempo presa dentro do calabouço e só vai sair de vez em quando.

Antes, suas personagens eram criadas somente com características esdrúxulas, com o objetivo de arrancar o riso do público. “Eu parei de achar que eu precisava ter uma aparência engraçada para ser uma drag queen. Hoje acho que, se eu usar outras coisas e construir um corpo mais feminino, como o que eu estou hoje, saio ganhando”, afirma enquanto coloca suas unhas postiças para a caracterização da personagem.

A personagem Cassandra Calabouço preserva poucas características de seu criador. Cassandra tem cabelos loiros, compridos e cacheados, Júnior é careca. Cassandra tem bunda e peitos avantajados, Júnior tem corpo magro. Mas a drag queen também usa atributos de seu dono. O sorriso contagiante e os movimentos corporais são do bailarino Júnior. A simpatia e o conhecimento de palco, assim como a facilidade em fazer as pessoas rirem também são qualidades emprestadas por Júnior ao personagem.

“Existe uma grande diferença entre as coisas que eu faço na dança e as coisas que eu faço quando eu estou montado, porque é outro corpo. Eu não tenho peito, nem bunda. A Cassandra é toda trabalhada na esponja, ela tem um peitão, um bundão, e nada disso é meu”, analisa.

Júnior é um artista de múltiplos talentos. Em 1993, iniciou seus estudos em dança, tendo participado de grupos como Ballet Phoënix, Annete Lubisco Cia. de Dança, Grupo Experimental da Cidade de Porto Alegre, Gaia Dança Contemporânea. Teve também experiências como ator de teatro adulto e infantil. Recebeu Prêmio Açorianos de melhor bailarino, em 2009, pela atuação no espetáculo Abobrinhas Recheadas.

Júnior também ganha a vida com a realização de oficinas de drag queen. Em 2015, lançou o projeto Pimp My Oz, um workshop dedicado às drags, performers e curiosos, com dicas sobre cabelo, maquiagem, figurino, acessórios e dublagem.

Curiosidades sobre as festas gay e LGBT na capital gaúcha

Dos anos 60 até a década de 80, Porto Alegre viveu um momento nostálgico, quando surgiram suas primeiras boates. A mudança de comportamento dos jovens e a vida noturna começaram a ser rotineiras. Com as discotecas, gays e drag queens começaram a frequentar a noite.

Com os cabelos grisalhos, e uma sala repleta de discos e livros, Claudinho Pereira conta como foi ser o primeiro DJ de Porto Alegre, na época em que a atividade era chamada de “discotecário”. Ele começou a trabalhar como DJ aos 14 anos e tocou em mais de 60 casas noturnas. Hoje atuando como cineasta e escritor, Claudinho considera o preconceito contra os homossexuais mais forte nos dias atuais do que na época da ditadura. “Hoje o preconceito contra os gays está muito maior. Ninguém matava gay naquela época, tudo era mais velado. O mundo está regredindo”, comenta.

Claudinho Pereira revela que naquela época os gays eram fundamentais para a festas terem um certo glamour. “Nas boates, não podiam faltar duas coisas: uma puta, para gerar ciúmes nas mulheres, e gays, pois uma festa sem gay não era festa. Eram eles que levavam a alegria para o ambiente”, revelou o ex-DJ.

A primeira casa noturna gay de Porto Alegre se chamava Flowers, criada pelos empresários Dirnei Messias e Elaine Ledur, no bairro Partenon.

A ideia surgiu quando os dois empreendedores se reuniram com três gays formadores de opinião da época para jantar. Entre uma garfada e outra, revelaram a ideia de abrir o negócio, mas o projeto não poderia ser contado a ninguém, em hipótese alguma. No dia seguinte, todos no meio gay já sabiam que seria aberta uma boate para o público homossexual.

Depois da boate aberta, a repressão contra quem frequentava foi bastante rigorosa, seguidamente a polícia fazia blitz na casa noturna para saber se tinha droga rolando e muitos gays se beijando na boca. Segundo Claudinho, um delegado da época chegou a dizer que era bom ter a boate aberta, assim os gays não se espalhariam pela cidade e se concentrariam apenas em um local.

Com o passar dos anos, o público foi aumentando, então a casa noturna saiu do bairro Partenon e se transferiu para a Independência, onde passou a se chamar New Flowers. Com os concursos de dublagem, as drag queens trouxeram um público maior para a boate. Nem todos que frequentavam a boate eram gays. Como a casa noturna fechava mais tarde que as outras, o público migrava das boates vizinhas para ficar até as duas horas da manhã na Flowers.

Claudinho sempre foi amigo dos donos da Flowers. Tanto que, anos mais tarde, ele próprio fundou duas boates gays na capital, chamadas Maria Fumaça e Macumba.

Festas LGBTs

Atualmente há bastante diversidade nas casas noturnas da Capital, entretanto, o público LGBT tem alguns locais preferidos, privilegiando um espaço mais restrito. As boates Vitraux e Venezianos são as eleitas desse público.

O estilo musical é o que mais atrai as pessoas, pois toca de tudo um pouco. O cabeleireiro, de 24 anos, Júnior Goulart sempre foi muito festeiro e gosta de sair para beber, dançar e se divertir. Sua preferência sempre foi por casas noturnas onde o preconceito fosse o menor possível. O erotismo e as danças são outro viés que atrai o público.

“Lá tem bastante bissexual, heterossexual, mas acho que não chegam a 5% da festa. A maioria é gay mesmo. Acredito que muitas pessoas têm vontade de conhecer, mas não vão por medo de que alguém vai dar em cima ou agarrar, acho que muitos héteros têm esse receio”, conta Goulart.

Uma das grandes diferenças de uma boate gay em relação a uma tradicional está no ambiente e na segurança. Nesse tipo de festa, é raro o registro de brigas dentro das casas noturnas. As pessoas se respeitam, vão para se divertir. A maioria dos gays conta que a tranquilidade na saída é algo que diferencia e agrada aos frequentadores. “Em baladas gays, você é respeitado, ninguém te olha de cara feia ou tem vontade de te bater na saída por você ser homossexual”, desabafa o cabeleireiro.

Com os olhos cheios de lágrimas e com um sorriso de canto de boca, o estudante de moda Felipe Dos Anjos se emociona ao falar que seu sonho é um dia poder sair na rua apenas para se divertir e ser quem realmente ele é. “Nas festas, nós não podemos ser quem somos, pois sempre tem alguém te olhando torto. Meu grande sonho é que um dia nós possamos dançar da maneira que quisermos sem sermos reprimidos.”

O primeiro drag bar de Porto Alegre

Duas portas com símbolos gráficos trazem referência ao masculino e feminino. Metade do desenho tem vestido, a outra metade, não. As expressões Whatever (tanto faz) e Just wash your hands (apenas lave suas mãos) avisam os visitantes que ali o gênero não importa. Esse é o Workroom.

Inaugurado no último mês de abril, se tornou o primeiro drag bar de Porto Alegre. O local é inspirado no reality show norte-americano RuPaul’s Drag Race, uma competição entre drags, com gincanas e provas para testar suas habilidades.

“Percebemos uma carência de locais para encontros LGBT em Porto Alegre. Um dia, eu e meu sócio conversamos sobre a possibilidade de fazer um bar inspirado no RuPaul’s, e começamos a pirar na ideia. Em outubro, definimos que o projeto estava pronto, e em janeiro, eu pedi demissão do meu antigo emprego”, conta Rodrigo Krás Borges, um dos proprietários e idealizadores do local.

O bar possui um ambiente todo decorado em rosa, com luz baixa, e o principal de um ambiente drag: um palco para as performances e dublagens.

O intérprete de Cassandra Calabouço comemora: “Hoje a gente vive um cenário promissor, porém, incerto. Quanto mais lugares tiverem para as drags se apresentarem, mais visibilidade teremos, e com isso, todo mundo cresce”, afirma Nilton Gaffree Júnior.

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