O número 70 da Avenida Otávio Rocha

Por Yuri Veleda e Pedro Molnar

O prédio é um acesso para outro mundo | Foto: Pedro Molnar

Porto Alegre é famosa pela sua arquitetura. A região central da cidade tem como principal característica a mescla entre o estilo clássico e o contemporâneo. Mas não é apenas na sua construção que a capital tem seu lado tradicional. À margem do Centro Histórico, uma das profissões mais antigas do mundo ainda é desempenhada, e mulheres ganham a vida com a institucionalização do prazer.

Milhares de pessoas transitam diariamente pelo centro. Entre as vitrines de lojas, os bancos e os muitos edifícios, a sociedade apressada pelo dia a dia não percebe a existência dessa outra realidade entre todos esses prédios.

A entrada de um deles destoa de todos os outros. Localizado em uma das ruas mais movimentadas do centro, a Otávio Rocha, quatro andares fazem um prédio simples ser conhecido como o edifício do sexo. Com uma pequena porta, de cor rosa, e uma longa escadaria, o prédio é um acesso para outro mundo, onde as luzes coloridas disfarçam as estruturas antigas do local e o distinguem da cidade cinza que o rodeia.

Aproximadamente 30 degraus, envoltos por uma iluminação à meia-luz avermelhada, sugestiva, separam uma cidade formal de outra onde todas as fantasias podem ser realizadas. O prédio não possui elevador, o que obriga quem adentra o local a conhecer os três andares temáticos existentes, um em cada apartamento.

O primeiro tem o nome de Paraíso Secreto. Se destaca dos demais por só tocar um ritmo: o funk. O ambiente é todo climatizado para que seja instaurada a vibe de um digno baile de comunidade. As moças com microshortinhos, dançam ao som do hit do momento, Vai Embrazando, de MC Zaac e MC Vigary.

A grande maioria das meninas possui apenas o ensino médio completo, mas parecem ser graduadas em marketing. Todo o trabalho tem resultado, e quem entra, de fato, “embraza” (embrasa) — termo para quem fica em um estado alcoólico alto. O segundo e terceiro andares são de sertanejo, mas nenhum deles faz tanto sucesso quanto o primeiro andar.

O lugar é famoso para o público que busca essa forma de serviço. A rotatividade do local é grande e chegam a frequentar cerca de 40 homens por hora. A psicoterapeuta, colunista do Falando Sobre Sexo, do jornal popular Diário Gaúcho, Andréa Philbert Alves, revela que a busca intensa por essa forma de prazer reflete três pontos do imaginário masculino. “A sensação de poder, a realização de fantasias e a ausência de vínculos afetivos”, conclui ela.

Muitos desses homens vão com o pensamento e dinheiro em mãos para ter prazer rápido e discreto. Outros querem apenas olhar e realizar os seus desejos. Alguns já são de casa e contrariam o que a psicóloga fala e o que a grande maioria dos homens busca. Alessandro é um desses. Com ele, ao seu lado, havia um rapaz bem mais novo, de cabeça baixa, meio envergonhado. O garoto, ao mesmo tempo em que sem jeito, tentava esconder o rosto e espiar a silhueta desenhada das moças que ficavam na porta. Era a primeira vez que levava seu filho ao local. “Hoje trouxe meu filho. O lugar é bom, um dos melhores do centro. As meninas são gente boa, conversam, tratam a gente bem”, conta sorridente e orgulhoso.

Tradição e variedade

Homens e mulheres que trabalham no centro de Porto Alegre ou frequentam com assiduidade o local sabem o que responder quando são questionados sobre o que acontece no endereço Otávio Rocha, número 70. Mas apenas os homens reconhecem a realidade dele. Onde as mais diversas fantasias são realizadas por mulheres de todos os tipos.

O ambiente lembra outro ponto clássico da Capital: o Mercado Público. É variado, com o produto exposto e negociado da forma mais antiga: no grito. Os clientes são apressados e famintos. Elas, com preços variados e prontas para consumo. Descrevê-las dessa maneira pode parecer preconceituoso, mas não é. São as próprias que erguem a cabeça e, de forma firme e forte, dizem: “somos putas”.

Força e firmeza, inclusive, são as características principais nas meninas do estabelecimento. Todas são muito bem resolvidas. Se impõem aos clientes. Estabelecem suas regras. Seus valores. Pechinchar não é algo aceitável. Quem o fizer está sujeito a ser expulso do local.

Mais de 35 mulheres trabalham durante as 13 horas em que o local fica em funcionamento. Durante todo o dia e parte da noite, o público é diverso. Office-boys, porteiros, funcionários da Prefeitura com seus uniformes alaranjados, imigrantes e até alguns homens de ternos são vistos a vagar pelos corredores do 70.

O nome do local é motivo para brincadeira entre as meninas e os rapazes durante as breves conversas e flertes que acontecem antes de irem para o quarto. Com 26 anos e há dois como profissional do sexo no edifício, Carla é uma das que brinca sempre. “Setenta vem logo depois do 69”, fazendo alusão à posição em que o casal realiza sexo oral simultaneamente.

A arte de viver da prostituição

No fundo dos olhos de cada uma das meninas, um ar amedrontado e preocupado ainda transparece aos que chegam sem o intuito de satisfazer as suas vontades às pressas. Grande parte daquelas mulheres não gosta de estar ali. Satisfazem os desejos alheios, comprometendo os seus prazeres pessoais. Mas seguem firmes e de cabeça erguida. Cada uma com seus motivos: filhos, dificuldades financeiras e vícios.

Jheniffer é morena, carrega um lindo sorriso no rosto e curvas acentuadas. Quando chamada, vem lentamente parecendo ser uma modelo ao desfilar em uma passarela. Ao chegar, chama atenção sua maquiagem pesada. Parece querer disfarçar a expressão de esgotamento. Durante uma breve conversa, diz não estar cansada e que trabalha quando e no horário que quer. Entretanto, um cartaz grande, com letras de forma, escrito à mão e fixo na parede, contraria o que ela afirma.

“Cinco dias na semana, com uma folga. Sempre aos domingos. Se houver falta, a casa fica com 60% do pagamento”, é o que consta no cartaz.

Ela conta que era vendedora em uma loja no centro. Profissão que exerceu por dois anos, enquanto namorava. O namorado a traiu, e ela se viu solteira e com um filho. O salário que recebia era pouco, não dava possibilidade para sustentar a si e ao filho. Jheniffer teve que se virar. O método mais rápido e eficiente que achou para mudar sua realidade foi entrar para o mundo da prostituição.

Engana-se quem acha que ela vive se martirizando por conta da sua situação. “Eu ganho bem aqui. É duro, difícil. Mas consigo pagar as contas da minha família”, diz ela com uma feição que parece ser ensaiada.

Jheny, como prefere ser chamada, não é atriz. Entre as mulheres que vendem seus corpos no local, nenhuma é. Mas interpretam diariamente um personagem a partir do momento em que sobem aquela escadaria. A rotina pesada, cansativa e desgastante, é sempre escondida atrás de uma pose mais provocativa, de um salto 15cm e de um sorriso ensaiado. Suficiente para que quem busque conforto com elas não perceba o abatimento interno. Digna de Óscar e apta a concorrer em qualquer prêmio de atuação.

Vistas à margem da sociedade

Conhecida como “a profissão mais antiga do mundo”, encarar a prostituição como uma atividade de ofício ainda é um tabu para a sociedade. A discriminação é constante, e as mulheres que optam por ganhar a vida dessa maneira acabam vivendo uma espécie de vida secreta — bem como os super-heróis. Mas, diferente deles, elas não são veneradas pela população. Pelo contrário. Sofrem, diariamente, com os olhares tortos e as críticas gratuitas e, muitas vezes, veladas.

O tema sexo não é abertamente discutido pelas pessoas durante a vida, o que gera uma contenção e dá origem para a repressão sexual. Que é um conjunto de interdições, valores e regras estabelecidos pela sociedade para controlar a sexualidade das pessoas.

O resultado de tudo isso é um deficit cultural imposto na educação do brasileiro há gerações. Por meio dele, os valores e as proibições sociais são compreendidos de tal maneira que, depois de internalizados, se expressam através de preconceito e desinformação.

Além de terapeuta sexual, Andreia Alves também é psicóloga e reforça o discurso de que o preconceito é oriundo da falta de diálogo aberto sobre o tema. “A prostituição ainda é um tabu, porque o sexo ainda é visto como um tabu. Um tema central da vida das pessoas, porém de difícil acesso. Permeado de mitos, de tabus, de preconceitos e de dramas”, falou.

Embora laico, o Brasil é um país multirreligioso. O segundo com a maior proporção de pessoas religiosas no mundo, mais de 96% da população. É o que diz uma pesquisa da fundação alemã Bertelsmann. Em grande parte das religiões existentes, o sexo é visto como função restrita à procriação. O que torna a fé nas crenças contribuinte para que a educação sexual seja reprimida na população.

“O preconceito é bastante forte. O sexo é visto como sujo na sociedade. O que colabora para elas serem vistas com muito preconceito. A religião ainda alimenta essa cultura muito forte e faz com que as pessoas tratem as garotas de programa como à margem da sociedade”, finaliza a psicóloga.

Prostituição como profissão

Embora seja envolta de tantos julgamentos, o exercício da atividade é regulamentado no país. O Brasil adota o abolicionismo e, por este sistema legal, conforme os artigos 227 e 231 do Código Penal Brasileiro, a prostituta é uma vítima e só exerce a atividade por coação de um terceiro, o agenciador ou o empresário — vulgarmente conhecido como cafetão ou rufiões.

Desde 2002 a profissão de prostituta é reconhecida. Foi neste ano que o Ministério do Trabalho oficializou a profissão em sua Classificação Brasileira de Ocupações — item 5198. A oficialização define quem a pratica como sendo profissional do sexo e permite que quem vive da profissão possa recolher contribuições previdenciárias e garantir direitos trabalhistas, como aposentadorias e auxílio doença.

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