Foto: Sara Arenci

Quando o sexo vira um problema

Por Stephanie Jumier

Em meio a muitos casarões históricos espalhados pela Avenida Independência, um chama atenção por suas paredes externas já deterioradas pelo tempo, fachada com grandes janelas brancas que dão acesso a uma sacada pequena e gradeada, e um jardim bem conservado que pode ser visto da rua. Na altura dos olhos, a marca da mão humana está presente com pichações em sua estrutura. Pouco lembra os antigos casarões que eram ocupados pela elite porto-alegrense no século XIX.

Hoje, esse local abriga a sede da Cruz Vermelha em Porto Alegre; porém, quem vai até lá em busca de ajuda não imagina que, atrás dos portões da casa, exista uma pequena sala, rebocada com uma tinta na cor marfim, exalando luminosidade. Nessa sala, todos os sábados à tarde, cerca de 15 pessoas, a maioria homens, entram pela porta cabisbaixos e sentam em um semicírculo imperfeito. Suas faces apreensivas indicam que estão ali para se libertar. Essas pessoas que se encaram muito e pouco se cumprimentam estão participando de uma das reuniões do DASA (Dependentes de Amor e Sexo Anônimos).

O DASA é uma irmandade internacional, baseada no programa de recuperação em 12 passos dos Alcoólicos Anônimos, e foi criada para pessoas que sofrem de algum tipo de dependência sexual, necessidade compulsiva por sexo, ou aqueles com apego desesperado a uma única pessoa, a chamada obsessão romântica. Lá, os dependentes aceitam que têm um problema que precisa ser controlado, e todos concordam que isso “destrói tanto a vida pessoal como a profissional”. Conseguem compartilhar suas experiências, angústias e medos com o grupo sem que sejam discriminados. Encontram no DASA acolhimento e compreensão, e enxergam que não estão sozinhos.

Nessa reunião específica, os participantes entram na sala, dão-se as mãos e oram para o que eles chamam de “poder superior”. Não é preciso ter uma religião, mas pedem que cada membro da irmandade busque algo maior que eles, para poder guiá-los e apoiá-los na recuperação.

Mãos nervosas e pernas inquietas. Inicia mais uma reunião. O participante Marcelo (nome fictício) fala de “sua jornada na busca da sobriedade” e afirma com convicção que “cada dia é um dia diferente”. “Tenho 30 anos, sou solteiro há dois anos, e decidi ficar assim até me sentir preparado para iniciar de novo um relacionamento. Aceitei que sou dependente e só fiz isso após entrar num buraco tão profundo que quase não consegui retornar. Isso estava destruindo minha vida, não consegui salvar meu namoro, quase fui processado por assédio e só não fui demitido por um milagre. Me envolvi com prostitutas e fui a lugares onde podia assistir e fazer sexo com várias pessoas diferentes. Encontrei o DASA através do meu psiquiatra, que me indicou a participar, desde então estou sóbrio, há um ano”, declara.

Marcelo se sente ouvido quando todos do grupo batem palmas em sinal de apoio, afinal ele não é o único que passou ou está passando por problemas da dependência sexual. Logo cada um que ali está sentado começa a expor suas feridas abertas, sem pudores, sem meias palavras, como se cada indivíduo estivesse conectado e sendo atormentado pelos mesmos fantasmas.

Para a psiquiatria, pessoas que sofrem da dependência sexual não necessariamente precisam fazer sexo o tempo todo, mas tendem a consumir pornografia em excesso, ter inúmeros relacionamentos casuais e/ou extraconjugais, praticar masturbação de forma descontrolada, dentre tantas outras práticas. Os dependentes sofrem de ansiedade, desenvolvem comportamentos obsessivos e compulsivos levando à total perda de controle, e também estão suscetíveis a outras patologias como AIDS, sífilis, hepatites e outras doenças sexualmente transmissíveis (DSTs).

Na busca de tentar diminuir o sentimento de culpa, acabam esbarrando nas drogas, trocando um vício pelo outro, ou deixando que coexistam. É o que relata Guilherme (nome fictício), de 25 anos, membro do grupo há um ano, que participa, em paralelo ao DASA, de outro grupo, o AA (Alcoólicos Anônimos) há seis meses.

“Tantos pensamentos na tua cabeça, tu acaba não sabendo como lidar com cada situação, eu já bebia antes, mas socialmente. Com o pessoal do trampo, eu já notava que eu não estava bem, chegava em casa, ia pro velho conhecido “xvideos” e me masturbava, saía na rua, e a cada mulher que passava por mim, eu logo torcia o pescoço pra encarar ela. Eu nem disfarçava, só via os olhares de julgamento do pessoal que notava minha encarada”, diz ele cabisbaixo.

Guilherme desabafa que dormia com várias mulheres, de algumas ele nem sabia o nome. Voltava para casa e ia para o computador de novo. “Já estava num círculo vicioso, fui no médico com queixa de fortes dores no pênis. Ele fez uma série de perguntas, coisa que médico faz, né? E chegou à conclusão de que eu estava com espasmo e precisava parar de usar (o pênis) com tanta frequência. Disse que provavelmente eu iria precisar de tratamento para o possível distúrbio que tenho.”

Com sentimento de negação, Guilherme não aceitou o diagnóstico médico e entrou em uma espiral de autodestruição. “Comecei a beber com mais intensidade, perambulava de avenida em avenida atrás de diversão; foi então que minha mãe, depois de muita luta, me levou para o psicólogo. Conversar com o cara me fazia bem, sabe? Ele então me indicou esse grupo. Aqui onde eu posso ver que não estou sozinho”.

Foto: Sara Arenci

Disfunções sexuais mais comuns

A professora e mestre em psicologia Paula Andréa Prata Ferreira, do Rio de Janeiro, baseou o seu trabalho “Transtornos da Sexualidade” em um capítulo específico do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), elaborado pela Associação Americana de Psiquiatria, que trata unicamente dos Transtornos Sexuais e da Identidade de Gênero. Nesse capítulo, o DSM-5 divide essas patologias em três grupos: disfunções sexuais, disforia de gênero e transtornos parafílicos.

De acordo com o trabalho da psicóloga, disfunções sexuais são perturbações clínicas que impedem a capacidade do indivíduo de responder sexualmente ou experimentar prazer sexual. Cada pessoa pode ter várias disfunções ao mesmo tempo. Exemplos: Transtorno do Desejo Sexual Hipoativo, Transtorno do Orgasmo Feminino, Ejaculação Precoce, entre outras. Para um diagnóstico melhor, é necessário entender o ponto inicial de cada disfunção.

A disforia de gênero refere-se ao sentimento de inadequação afetiva e cognitiva que pode acompanhar a incompatibilidade entre o gênero experimentado e o gênero designado de uma pessoa. São exemplos o Transgênero e o Transexualismo.

Já os transtornos parafílicos consistem em preferências sexuais atípicas, comportamentos sexuais socialmente malvistos, e alguns que causam prejuízos criminais. São eles: Transtorno Voyeurista, Transtorno Pedofílico, Transtorno do Sadismo e Masoquismo Sexual, entre outros. Esses transtornos levam a pessoa a lugares em que ela não quer estar e a fazer coisas que são moralmente inaceitáveis; tais situações só podem ser cessadas pelo cárcere, pois levam sofrimento à pessoa e causam danos aos outros.

Transtornos que podem levar a criminalidade

Frotteurismo: mania de roçar as partes íntimas em outras pessoas sem seu consentimento (crime de assédio sexual);
Pedofilia: crime grave, constitui conjunção carnal ou ato libidinoso com menor de 14 anos com ou sem consentimento e maiores de 16 anos sem consentimento (segundo a psicóloga Paula Prata, não se deve confundir com transtorno pedofílico, pois quem tem o transtorno sofre com o desejo por crianças e adolescentes, e procura ajuda; o pedófilo comete o ato);
Necrofilia: sentir excitação com a violação sexual de cadáveres (crime de violação de cadáveres);
Sadismo: sentir prazer com o sofrimento do parceiro; constitui crime se a forma de infligir dor ao parceiro for demasiada e este vier a óbito.
Os indivíduos que têm algum desses transtornos tendem a se isolar, pois encontram preconceito por parte da sociedade, que ainda vê a sexualidade como um tabu; desenvolvem em muitos casos quadros depressivos com pensamentos suicidas devido à sensação de inadequação social, que causa grande prejuízo, tanto físico como mental. O tratamento é essencial e consiste em psicoterapia, sessões com psiquiatra e se necessário medicação para controlar a libido; também é indicado aos pacientes participação em grupos de apoio, para mostrar que não estão sozinhos.
Fonte: Jurista e professor Rogério Grecco (Medicina Legal a Luz do Direito Penal e Processual Penal- 2010)

Depoimento de uma Ninfo

“Sou bissexual, tenho 29 anos, casada e tenho um filho de três anos. Estou em tratamento com a psiquiatra, pois tenho transtorno de desejo sexual hiperativo, ou se preferir, ninfomania. Quem notou isso inicialmente foi meu marido. Percebeu que meu comportamento tinha mudado e pediu para que eu procurasse uma psicóloga. Disse que eu estava louca e enlouquecendo ele. Eu estava irritadiça, angustiada, e o sexo, que era algo prazeroso para ambos, se tornou uma necessidade constante. No começo, meu marido achou o máximo meu apetite sexual, mas logo se viu sendo traído, pois eu já não tinha mais controle de meus próprios pensamentos e desejos; quando sozinha em casa, recorria sempre a pornografia e masturbação, com a ideia de que de alguma forma eu poderia me satisfazer. No trabalho, fui demitida porque dei uma “fugidinha” para o banheiro para me masturbar, e acabei deixando o posto de recepcionista. Quando procurei ajuda, foi muito difícil aceitar que tinha um problema, cheguei a rir da psicóloga, porque na minha cabeça achava que era normal, e é complicado quando se é mulher sentir essas coisas, porque a comunidade em si acha feio mulher falar de sexo e fazer sexo em excesso, te discriminam e não entendem que isso seja uma doença. A aceitação pra si mesma é bem difícil, mas logo vi que estava acabando com a minha família e destruindo minha vida profissional. Eu iniciei meu tratamento com a psicóloga, algo que eu necessitava há bastante tempo. Depois fui para a psiquiatra. Agora fui encaminhada para um sexologista. Eu sei que isso que eu tenho não tem cura, preciso manter o autocontrole constantemente, e faz dois meses que estou nessa batalha para segurar a fera que mora dentro de mim.”
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