A vida nem tão fácil dos garotos de programa

Por Gionara Machado e Sara Arenci

Ruas, saunas e casas noturnas de Porto Alegre revelam à meia-luz desses ambientes o mundo fantasioso dos garotos de programa, que ganham a vida com a realização sexual de seus clientes. Para quem circula à noite com a simples visão dos acontecimentos noturnos da Capital, sem especulações e curiosidade, passa despercebida toda a orgia sexual que ocorre na penumbra das ruas e becos estratégicos, que servem como recanto para a pornografia e erotização. Os programas realizados em meio à multidão, sem que as pessoas percebam, são muitas vezes resultantes das fantasias de clientes motivados pelo proibido. As saunas e casas noturnas, com todo o seu glamour e luzes indicadoras do que acontece ali, recebem pessoas que, na sua maioria, não têm nada em comum umas com as outras em suas vidas pessoais, a não ser o desejo de se divertir com muito prazer e sexo. Homens caracterizados de “machões”, fardados, ou com pouquíssimas peças de roupa, em busca de um programa e trocados ao final da noite, são a grande atração desses clubes.

Entre 18 e 48 anos de idade, os garotos de programa têm diferentes perfis, causas pessoais, dramas familiares. Alguns, inclusive, fazem uma reflexão glamorosa sobre essa profissão. São homens que passam despercebidos quando não estão atuando naquilo que é criado pela imaginação. São colecionadores de histórias, muitas de superação, algumas das quais não se orgulham, mas que representam bem os sete pecados capitais: gula, avareza, luxúria, ira, inveja, preguiça e vaidade.

“Não é fácil, mas é um trabalho que traz dinheiro fácil”, revela Felipe. Não tem orgulho de fazer programas e aparenta ser um menino acanhado, mas logo justifica: “da mesma forma que existem atores tímidos, também alguns de nós são envergonhados”.

Hoje, aos 23 anos, o jovem descreve como começou a trabalhar nessa profissão. Ainda menor, com 17 anos de idade, atendia como garçom no turno da noite em um bar no subúrbio de Porto Alegre. Fazer sexo por dinheiro seria sua última opção de trabalho.

Certa noite, ao servir clientes nesse local frequentado por homens em sua maioria, se viu envolvido por olhares de um cliente, que sentado à mesa e acompanhado por um copo de chope, e com um cigarro em uma das mãos, o acompanhava excessivamente com os olhos.

Diante de Felipe, surgiu a oportunidade de fazer um dinheiro extra, mesmo sem se sentir à vontade com essa primeira abordagem. A proposta feita por aquele que viria a ser seu primeiro cliente foi de R$ 100,00. “Foi embaraçoso. Me retirei numa corrida que me levou para bem longe daquela situação. Mas logo, na noite seguinte, eu mesmo me dirigia àquele homem para rever a oferta. Então meu primeiro contato com o dinheiro ‘fácil’ foi feito, e isso me viciaria como uma droga”, desabafa Felipe.

Ser descoberto pela família é algo que o aterroriza muito. Ainda mais na idade de Felipe, que ainda não tem condições nem renda para se autossustentar. O preconceito, a rejeição, os xingamentos, o abandono são sombras que perseguem esses jovens que sofrem por ter optado por ser profissionais do sexo.

Felipe nunca contou para sua família que é garoto de programa, todos pensam que ele trabalha em um bar na noite. Mas conta que sua mãe já desconfiou de que ele pudesse estar envolvido com drogas, pois ganha dinheiro demais para um garçom.

Foto: Sara Arenci

O sexo é uma prática constante nessa profissão, mas o envolvimento emocional, não. E não é por transarem com outros homens que se consideram gays. Ao contrário, alguns têm namoradas, esposas, porém essas companheiras chegam a deixá-los por descobrir que transam com outros homens.

Os cuidados com a saúde nem sempre são vigiados; alguns por se drogarem e outros por variados motivos se colocam em risco. Felipe foi infectado com o HIV e tem isso como um segredo. Hoje diz ter o cuidado para não deixar seus clientes doentes, e por isso usa camisinha, mas confessa que sente raiva de alguns. Porém, tem consciência de que foi ele próprio que se colocou nessa situação, e que esse é um dos riscos comuns à rotina de quem faz do próprio corpo uma mercadoria.

O encanto de ser um “homem realizador de desejos” age nesses garotos como um feitiço. A grana que entra em uma noite às vezes supera o que eles levariam um mês para ganhar em outro emprego.

Aos 43 anos, André vive uma realidade diferenciada e está em outra fase dessa profissão. Não pensa em dispensar clientes, e sim, selecionar, pois cobra caro por seus serviços. Começou a trabalhar profissionalmente com 21 anos. Revela que pensava em fazer isso muito antes, porém precisava tomar coragem.

Com boa aparência e porte apresentável, costumava chamar atenção e receber elogios. Por conta disso, a vaidade o deslumbrou e entusiasmou suas expectativas de ganhar dinheiro satisfazendo prazeres alheios com seu corpo. No início, eram um ou dois programas na semana, porém a coisa foi ganhando proporção, e André passou a desejar mais dinheiro. Assim, teve que aumentar sua carta de clientes e também ampliar o número de programas semanais.

Com seu físico, conquistou muitos homens bem sucedidos financeiramente. São pessoas entre 40 e 50 anos que o procuram. Elegantes, refinados, com boa posição social na comunidade, alguns com cargos públicos, como vereadores, por exemplo.

Seu cachê é alto. Ele não atende homens de baixa renda, “minha maior motivação é dinheiro. Sempre foi. Não por vir fácil, mas sim pela quantidade”, comenta André.

As casas noturnas de Porto Alegre são seu grande palco de atuação e realização de desejos alheios. “A mágica para a excitação desses clientes é o envolvimento, a música, a bebida, um lugar para relaxar, uma sauna, e a partir daí, tudo rola”, revela André.

Um dos programas inusitados que relatou foi em pleno estacionamento, já fora do horário, mas diferente por não ser em estabelecimento próprio para atos sexuais. “A maioria dos clientes são carentes, procuram companheirismo, mas com boas doses de aventura e ousadia”, declara.

Para André, a utilização de preservativos no ato sexual com seus clientes é indispensável.

“Quero fazer isso por muito tempo ainda. Para isso, o cuidado com a minha saúde é fundamental, para uma vida ativa e longa”, admite André.

O dinheiro proporciona uma vida de luxo para esses rapazes que querem viver no conforto. Ostentar um carro zero km e roupas de grife, além de boas peripécias vividas, são resultados que divertem e fazem de André um eterno admirador deslumbrado por essa profissão que não pensa em abandonar, “mas sim aproveitar o quanto puder”, afirma.

Se no caso de André a beleza foi um motivador, para Charles, outro garoto de programa nas ruas da capital gaúcha, foi o contrário. Nunca se achou bonito ou interessante, mas gosta de sexo e de ganhar dinheiro. De estatura baixa, magro e com uma cicatriz na face, há cinco anos Charles atua como garoto de programa.

Começou com 18 anos. Antes, aos 16 anos, havia sido expulso de casa pela sua mãe, “eu sempre sofri muito preconceito por ser gay e na minha adolescência comecei a roubar dentro de casa para usar drogas, foi então que fui expulso”, esclarece.

Charles, ao ver-se na rua sem moradia, nem apoio familiar, fazia roubos e por consequência foi preso algumas vezes. Ele comenta que já estava cansado daquilo e muito atormentado pela vida que tinha. Começou então a profissionalizar o ato de se envolver, trocando sexo por dinheiro. “Fazendo programa eu ainda apanho às vezes, já fui até parar no hospital, um cara rico não queria me pagar. Fui atrás dele, e ele me atacou com uma faca e fez esta cicatriz”, relata.

Ainda sobre as dificuldades do trabalho, Charles conta que o sexo por dinheiro nem sempre é fácil, pois não é com todos os homens que gosta de transar. “Porém, é trabalho, e tem que ser feito, sem escolher esse ou aquele”, explica. O divertimento também é fruto de programas com bons clientes que pagam bem. Mas nem sempre Charles consegue cobrar muito e ganhar como os garotos de luxo, por conta de sua aparência, mas afirma que dá para sobreviver e pagar um quarto para dormir.

Seu cenário de atuação é em torno do Parque da Redenção, nas ruas onde a transição se faz do ponto de luz para a sombra. Ali está o rapaz que comercializa seu corpo em troca de alguns reais, utilizando a penumbra para encobrir sua figura baixa, magra e de fisionomia ainda jovem, porém já bastante abatida.

Os medos de Charles nos dias de hoje são o aumento da violência e o uso excessivo de drogas. Ele diz que isso altera muito o comportamento das pessoas, tanto das que frequentam esses locais em busca de garotos como dos que têm preconceitos contra essa atividade. Ainda mais quando se trata de gays.

O dinheiro faturado nos programas lhe concede independência e o afasta da criminalidade. Não precisar roubar, segundo ele, é motivo de dignidade. Por outro lado, ele deixa claro que virou um garoto sem perspectiva e não se imagina exercendo outra função senão terminar seus dias fazendo programas, mesmo sem saber quanto tempo tudo isso vai durar.

Os garotos do sexo estão por toda parte, atraentes, discretos, fragilizados, bons negociadores, bem instruídos, alguns cursando ensino superior, outros comercializando seu corpo nas ruas. Enfeitam os dias e as noites de seus clientes usando de toda criatividade e energia.

“Gosto de ganhar o meu dinheiro e não depender de ninguém, sem precisar roubar, mas quando imagino trabalhar o resto da vida nisso, é triste”, afirma Charles.

Foto: Sara Arenci