Contribuições midiáticas à cultura da guerra: o poder de uma única história

Artigo originalmente publicado na edição nº 6 junho de 2016 da Revista UNINTER de Comunicação
Por Dayse Porto

RESUMO: Esta resenha pretende discutir os principais pontos abordados no livro Mídia: Propaganda política e manipulação, de Noam Chomsky, que questiona o papel da mídia na democracia. A discussão acerca da democracia de espectadores, empregada para contextualizar as técnicas de propaganda política como forma de controle nas sociedades democráticas, tem na mídia papel fundamental para a manutenção do sistema, filtrando e manipulando informações, forjando conteúdos, constituindo um monopólio onde todos têm o mesmo ponto de vista. Essas reflexões dialogam com a palestra “O Perigo da História Única”, da escritora Chimamanda Adichie, na qual ela ressalta a ameaça de uma única história, uma única versão dos fatos, sendo esta história capaz de destruir ou recuperar a dignidade de um povo. A discussão sustentada por Chimamanda converge com a ideia de “construção do consenso”, descrita por Chomsky, que conclui a obra afirmando a existência de um dilema pelo qual as pessoas responsáveis por comunicar e informar às outras passam constantemente. Segundo o autor, só existem dois caminhos: a hipocrisia de sempre ou a insistência em expor os fatos da forma como o são, seguindo os truísmos morais, opção muito mais difícil e imperativa.
Palavras-chave: Democracia de espectadores; Jornalista marciano; Manipulação.

Media contributions to the culture of war: the power of a single history
ABSTRACT
: This review aims to discuss the main points addressed in the book “Media Control,” by Noam Chomsky, which questions the role of media in democracy. The discussion about spectators democracy, used to contextualize the political propaganda techniques as a means of control in democratic societies, has the media key role in maintaining the system, filtering and manipulating information, forging content, constituting a monopoly where everyone has the same point of view. These reflections dialogue with the lecture “The Danger of Single Story,” of writer Chimamanda Adichie, which emphasizes the threat of a single story, a single version of the facts, this story being able to destroy or recover the dignity of a people. The discussion sustained by Chimamanda converges with the idea of ​​”building consensus”, described by Chomsky, who concludes the work affirming the existence of a dilemma through which people responsible for communicating and informing the others go constantly. According to the author, there are only two ways: the usual hypocrisy or the insistence on exposing the facts the way they are, following the moral truisms, a much more difficult and compelling option.
Keywords: Spectators Democracy; Martian Journalist; Manipulation.

A recente obra do sociólogo e linguista norte-americano, Noam Chomsky, Mídia: Propaganda política e manipulação (2013), parte do questionamento sobre que tipo de mundo e de sociedade queremos viver e, sobretudo, em que espécie de democracia estamos pensando quando desejamos que essa sociedade seja democrática. Categórico e sintético, o pequeno livro dividido em dois blocos — “Mídia: Propaganda política e manipulação” e “O jornalista marciano” — expõe mecanismos utilizados pela propaganda política para controle e manipulação da população e carrega a célebre citação “a propaganda política está para uma democracia assim como o porrete está para um Estado totalitário” (CHOMSKY, 2013, p. 21), empregada para contextualizar as técnicas de propaganda política como forma de controle nas sociedades democráticas.

Para embasar a discussão, antes de iniciar o primeiro capítulo o autor expõe dois conceitos de democracia onde, no primeiro, o povo dispõe de condições de participar significativamente na condução de seus assuntos pessoais e os canais de informação e mídia são acessíveis e livres. A segunda, e predominante concepção é o oposto da primeira, onde o povo não tem controle sob seus interesses e a mídia é estreitamente controlada. Além disso, percorre o histórico, desde o nascimento, de atividades desenvolvidas para atender às demandas da propaganda política governamental ainda mais fomentada nos anos de guerra, como as relações públicas e a diplomacia.
 A crise nos meios de comunicação do atual momento histórico remete à reflexão de Chomsky sobre um antigo problema: qual o papel da mídia numa democracia? Contextualizando o desenvolvimento da noção de democracia predominante e como o problema da mídia e da desinformação se inserem neste debate, o autor discorre sobre como a propaganda política foi difundida por meio do controle da opinião dos “membros mais inteligentes” das comunidades norte-americanas. Esses membros, “homens responsáveis”, em diversos momentos históricos, transformaram populações extremamente pacifistas em populações histéricas e belicosas, aterrorizadas por meio de técnicas como o “Pânico Vermelho”, operação de sucesso na destruição de sindicatos, e a fórmula de Vale Mohawk, aplicada inúmeras vezes para acabar com greves. Largamente apoiadas por líderes empresariais — os donos da sociedade, segundo Chomsky — estas técnicas foram usadas para que concordassem com os mecanismos de guerra.

O autor pontua o cerceamento da liberdade de imprensa e pensamento político como operação de propaganda governamental. Segundo ele, este faz parte da estrutura democrática vigente na qual o povo ocupa o lugar de “rebanho desorientado”, em que parte dele está distraída e a outra, marginalizada, e garante obediência aos líderes reais da sociedade, relação intermediada pela “classe especializada”, composta pelos homens responsáveis ou zelosos agentes do sistema, como categorizou Hannah Arendt no caso do sistema nazista. Aliás, as “motivações subjetivas da dominação”, segundo Dejours (1999), constituem uma questão política crucial e fundamental para todas as épocas do sistema econômico liberal que estabelece a democracia de espectadores. Mentiras propagadas entre os membros da “comunidade acadêmica” são outro meio muito usado ainda hoje pelo Ministério da Propaganda britânico a fim de conduzir uma população relutante à guerra por meio do terror e da indução a um fanatismo xenofóbico. Obter concordância do povo a respeito de assuntos sobre os quais ele não estava de acordo, por meio das novas técnicas de propaganda política é outro mecanismo, denominado de “construção de consenso”. A propaganda política patrocinada pelo Estado, quando apoiada pelas classes instruídas e quando não existe espaço para contestá-la, pode ter consequências importantes. Foi uma lição aprendida por Hitler e por muitos outros e que tem sido adotada até os dias de hoje (CHOMSKY, 2013, p. 13).

O princípio moral imperativo que considera a população estúpida demais para participar da administração de seus próprios interesses, típica noção leninista, gera críticas de Chomsky em relação à teoria liberal democrática e ao marxismo-leninismo, segundo ele, “muito próximos em seus pressupostos ideológicos comuns”. Em certo momento, o autor atenta para a forma com que esse movimento é realizado entre as classes de cidadãos, ou seja, como uma minoria passa a ser responsável por tutelar os interessas gerais? Segundo Chomsky, é justamente esse o ponto que diferencia democracia de Estado totalitário. Na primeira, a população “desorientada” elege um líder, e a esse processo dá-se o nome de eleição. Como não estamos num Estado totalitário, perde-se o poder de força física e tende-se a recorrer às técnicas de propaganda política como forma de controle nas sociedades democráticas. Tal postura corresponde, segundo Chomsky, a

noção leninista de que uma vanguarda de intelectuais revolucionários populares como a força que os conduz até ele e depois guia as massas ignorantes para um futuro que elas são estúpidas e incompetentes demais para vislumbrar sozinhas (CHOMSKY, 2013, p. 15).

A divisão de classes a fim de sustentar essa lógica democrática onde alguns controlam — a denominada “classe especializada”, e a dos que são controlados, o “rebanho desorientado” é essencial. Ambos têm papeis importantes no funcionamento do sistema democrático: a primeira planeja assuntos de interesse comum enquanto a segunda “escolhe seus líderes”. A essa escolha chama-se eleições. Neste ponto, Chomsky ressalta o êxito da propaganda política: as pessoas não têm conhecimento de toda a situação, de todos os fatos, só dos que lhes querem mostrar. E é nisso que se baseia a pesquisa eleitoral. O autor chama a atenção para uma premissa não declarada: como esses homens responsáveis alcançam a posição de tomar as decisões? Servindo as pessoas que têm o poder de verdade, que são donas da sociedade. E para que isso funcione é preciso que os homens da classe especializada tenham inoculado dentro de si as crenças e doutrinas que servirão aos interesses do poder de verdade/poder privado. A mídia, neste contexto, tem papel primordial para que esse sistema funcione corretamente, filtrando e manipulando informações, forjando e forçando conteúdos, constituindo um monopólio coletivo onde todos têm o mesmo ponto de vista. “Os dois partidos são duas facções do partido dos negócios”, destaca o autor fazendo alusão à guerra política pela qual os meios de comunicação são tomados em tempos de eleições (CHOMSKY, 2013, p. 29).

Cartaz criado por Haskell Coffin em 1918 para incentivar norte americanos a comprar selos de guerra.

Porém, para que exista homogeneidade de ideologias políticas representadas, é preciso “construir o consenso”, artifício subsidiado pela comunidade dos negócios a fim de obter apoio nas aventuras externas do governo. Segundo o autor, para tanto, é necessário instigar e amedrontar a população e falsificar a história, forjando uma versão possível de ser aceita, competência realizada com sucesso pela máquina propagandista governamental, que detém “a mídia e o sistema educacional sob controle absoluto” e conta com a postura conformista assumida pela universidade (CHOMSKY, 2013, p. 37). Neste contexto, a obra ressalta a atuação do profissional de relações públicas e as condições nas quais o ofício foi criado. Para Chomsky, o objetivo da atividade criada nos Estados Unidos é mobilizar a comunidade em torno de conceitos insossos e vazios, como o americanismo, por exemplo, a fim de, em parte distraí-la, em parte marginalizá-la. Assim, a construção do consenso requer árdua atividade em instigar e amedrontar a população pacifista para fazê-la apoiar as aventuras externas do governo e precisa que determinadas questões não sejam discutidas. O autor destaca que é preciso falsificar a história e esconder a verdade dos fatos. “Existe um princípio da cultura intelectualizada que diz que, embora investiguemos os crimes do inimigo nos mínimos detalhes, nunca olhamos para nossos próprios crimes” (CHOMSKY, 2013, p. 79).

Em sua palestra “O Perigo da História Única” no TED de 2009, em Washington, nos Estados Unidos, a escritora nigeriana Chimamanda Adichie fala sobre a ameaça de se conhecer uma única história, uma única versão dos fatos, sendo esta história capaz de destruir ou recuperar a dignidade de um indivíduo ou povo. Segundo a escritora, ao contar uma única história sobre algo, repetidas vezes, ele se tornará aquilo que se conta. Para ela, o problema dos estereótipos não é que eles estejam errados, mas sim, porque são incompletos. “A consequência da história única é a seguinte: rouba-se a dignidade das pessoas. Dificulta o reconhecimento da nossa humanidade compartilhada. Enfatiza o quão diferentes somos em detrimento de quão iguais somos” (ADICHIE, 2009). Dialogando com a “construção do consenso” descrita por Chomsky como um mecanismo que depende que questões não sejam discutidas, afinal, “a verdade dos fatos encontra-se debaixo de montanhas e montanhas de mentiras” e aventurar-se a discutir alguns assuntos pode comprometer o processo democrático, a escritora nigeriana conta sua experiência após ter passado vários anos nos EUA como uma africana:

Se eu não tivesse crescido na Nigéria e se tudo que eu conhecesse sobre a África viesse das imagens populares, eu também pensaria que a África era um lugar de lindas paisagens, lindos animais e pessoas incompreensíveis, lutando guerras sem sentido, morrendo de pobreza e AIDS, incapazes de falar por eles mesmos, e esperando serem salvos por um estrangeiro branco e gentil (ADICHIE, 2009).

No capítulo O Jornalismo Marciano, o autor discorre sobre como a guerra deveria ser noticiada na mídia — entendendo mídia como algo amplo, incluindo os periódicos de ensaios, de análises e de opinião; na verdade, a cultura acadêmica de maneira geral — em 1985, quando o terrorismo internacional no Oriente Médio foi eleito como pauta jornalística do ano. Para Chomsky, se observasse a partir de 1981, quando o governo Reagan já teria anunciado que a guerra contra o terrorismo seria o núcleo da política externa americana, onde o foco principal era o terrorismo internacional apoiado no mundo islâmico, o jornalista Marciano relataria que em 2001 foi a segunda vez em que esse foi o assunto mais noticiado. Informaria que a chamada guerra ao terror é redeclarada pelas mesmas pessoas contra alvos semelhantes, desde que não sejam os mesmos, que o ataque terrorista na Nicarágua foi muito mais violento que o próprio 11 de setembro — o país foi arrasado pelos EUA de forma que talvez jamais se recupere, e os massacres cometidos no Afeganistão, que deixaram o país destruído em 1989, dariam à imprensa marciana matéria de primeira página.

O autor ressalta como o atrelamento da mídia e dos veículos de comunicação de massa aos interesses e à ideologia das elites políticas e econômicas norte-americanas contribuiu para convencionar o senso comum que define terrorismo como o terrorismo cujo alvo somos nós, quem quer que sejamos, sustentando assim a noção de “guerra justa”. Chomsky alerta para a violência simbólica praticada pela mídia na distorção de coberturas noticiosas da atuação do governo norte-americano na repressão aos países no qual praticou o terrorismo, destacando os próprios manuais do Exército americano que define terrorismo como “o uso calculado da violência ou a ameaça da violência para atingir objetivos de natureza política, religiosa ou ideológica por meio de intimidação e da coerção ou implantando o medo” (CHOMSKY, 2013, p. 82). Assim, o proclamado “americanismo”, colocado acima dos direitos humanos de outras populações, desprezou as atrocidades cometidas pelos exércitos norte americanos, ou outras nacionalidades que contaram fortemente com o apoio estadunidense, em países como Nicarágua, Vietnã, Líbano e Afeganistão. A imprensa esteve ciente de todos esses acontecimentos, mas se recusou a noticiar. “Essas atitudes contribuíram para a escalada do terrorismo na região, incluindo seu componente mais violento, e a mídia deu a contribuição de sempre”, pontua o autor sobre as consequências da atuação da mídia em situações determinantes para a “guerra contra o terrorismo” (CHOMSKY, 2013, p.103).

Na hipotética cobertura midiática do jornalista Marciano, o autor lembra o truísmo moral, visto como heresia extremamente perigosa, já que se considera correto um ato quando o praticamos, então ele é correto quando os outros o praticam; se é errado quando outros praticam, é errado quando nós praticamos. Os transgressores que pensam assim são culpados por algo chamado equivalência moral, termo inventado para minar o risco de que alguém tenha a ousadia de examinar nossos próprios crimes, antiamericanos. Mas então, o que é terrorismo? Para Chomsky, a solução foi definir terrorismo como “o terrorismo cujo alvo somos nós”, quem quer que sejamos. Assim, as atrocidades cometidas pelos Estados Unidos na América Central ou em países como Afeganistão e Líbano (terrivelmente arrasado pela Turquia com total apoio e guarita americana) não são consideradas terrorismo a partir da construção do senso comum. A recusa da imprensa em noticiar as atrocidades cometidas por governos americanos em outros países, hoje ou em 1985, foi essencial para a construção do senso comum acerca do assunto, assim como para o aumento da xenofobia e islamofobia. Essas atitudes contribuíram para a escalada do terrorismo, incluindo seus componentes mais violentos, cuja contribuição midiática foi essencial para o sucesso deste sistema. Mais uma vez, a obra de Chomsky converge com as ideias de Adichie, que afirma o papel da mídia na construção de uma única história:

mostre um povo como uma coisa, somente uma coisa, repetidamente, e será o que eles se tornarão […] Comece uma história com as flechas dos nativos americanos, e não com a chegada dos britânicos, e você tem uma história totalmente diferente. Comece a história com o fracasso do estado africano e não com a criação colonial do estado africano e você tem uma história totalmente diferente. (ADICHIE, 2009).

Sinalizando que o mundo é governado pela força, não pela lei, o ativista político e crítico às políticas norte-americanas conclui que a resposta ao sistema construído pela propaganda política norte-americana provoca um dilema. Este dilema permeia a parábola do jornalista marciano, em que o autor denuncia o impasse com o qual os jornalistas se deparam, submetidos aos verdadeiros detentores dos meios de comunicação — a classe empresarial, o que nos remete ao atual cenário político brasileiro, frente a uma crise econômica mundial que culminou, no Brasil, em um processo de afastamento da presidenta da República, massivamente repercutido pelo maior veículo de comunicação da América Latina. Para o autor, a opção mais difícil a esse impasse é aquela que preza pela atividade jornalística compromissada com a exposição dos fatos, da forma como são, de acordo com truísmo morais elementares, que pode assim, poupar o mundo de desgraças muito piores. Assim, conclui que existe um dilema pelo qual as pessoas responsáveis por comunicar às outras passam constantemente e só permite dois caminhos: a hipocrisia de sempre, segundo o próprio autor, e a insistência em expor os fatos da forma como o são, seguindo truísmos morais, opção muito mais difícil e imperativa. Eis a tênue linha entre a possibilidade de destruir ou recuperar a dignidade de um povo, citada por Chimamanda nos perigos de uma única história.

>> Assista a palestra “O Perigo da História Única”, de Chimamanda Adichie:

https://www.ted.com/talks/chimamanda_adichie_the_danger_of_a_single_story?language=pt-br

Referências
CHOMSKY, Noam. Mídia: Propaganda política e manipulação. 1ª ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2013.
DEJOURS, Christophe. A banalização da injustiça social. 13ª ed. Rio de Janeiro: Editora FVG, 1999. 
ADICHIE, Chimamanda. O Perigo da História Única. TED, 2009. Disponível em <https://www.ted.com/talks/chimamanda_adichie_the_danger_of_a_single_story/transcript?language=pt-br>. Acesso em abril de 2016.