Made in Camboja: o que há por trás das inscrições nas etiquetas de grandes marcas

Além de todo o glamour, grandes marcas escondem lado sombrio de suas produções: o trabalho escravo e a exploração de pessoas.

Publicado originalmente em janeiro de 2015, no blog da Abridor de Latas
Por Dayse Porto

No final de janeiro começou a circular na internet um trailer do reality show norueguês SweatShop: Dead Cheap Fashion. A atração, bem diferente do padrão para esse formato de programa, convidou três blogueiros de moda do país para passar um mês em instalações de fábricas têxteis em Phnom Penh, capital do Camboja, país com mais de 15 milhões de habitantes.

Dividido em cinco episódios, o programa é produzido pelo site do maior jornal da Noruega, o Aftenposten, e teve como intuito servir de alerta ao ímpeto consumista, alertando sobre marcas que produzem peças em submundos, devido aos baixos impostos e mão de obra barata, e deixam pessoas em cenários críticos e condições inabitáveis.

Vivendo e tralhando com as mesmas condições que os trabalhadores locais, além de trabalharem 12 horas por dia, Anniken Jorgensen, Frida Ottesen e Ludvig Hambro receberam o mesmo salário — US$ 6 mensais — e tiveram que comprar itens básicos com ele.

O choque de realidade entre dois mundos tão distintos mostra que as condições imaginadas quando se ouve falar em grandes marcas que exploram pessoas são, na realidade, muito piores. A importância do debate trazido por esse reality show não fica apenas no campo da reflexão, mas evidencia que ações que podem mudar o mundo partem de cada pessoa.

Anniken, uma das participantes, controla um dos blogs mais acessados da Noruega e, depois do programa, chegou a se reunir com os gerentes da H&M, marca de roupas que supostamente produz peças em países subdesenvolvidos. Embora os representantes tenham negado a utilização dessa mão de obra, a norueguesa não se convenceu e o encontro repercutiu nacionalmente.

China

No final de 2013, uma americana achou carta com pedido de ajuda de um trabalhador chinês, que denunciava as péssimas condições de trabalho às quais era submetido. Na carta, ele pediu para quem a encontrasse que a enviasse à Organização Mundial de Direitos Humanos, alegando que “milhares de pessoas na China, que sofrem a perseguição, vão ser gratas para sempre”.

De Dubai a São Paulo, ir ao shopping e passar horas fazendo compras é uma atividade comum para jovens e adultos dessas grandes cidades, que muitas vezes encontram nas etiquetas de peças os nomes “Camboja”, “Vietnã” ou “China” e não refletem sobre o porquê de nos depararmos com esses países de terceiro mundo nas etiquetas das roupas de grife.

Com a ajuda da internet, o caso do trabalhador chinês ficou conhecido no mundo todo, o que ajudou a chamar atenção para lugares onde pessoas são submetidas a trabalho escravo. O homem, de 55 anos, foi libertado e hoje é testemunha das histórias de horror do lugar em que trabalhava 15 horas por dia, todos os dias e ainda sofria tortura física.

México

Em 5 de fevereiro, depois de receber uma denúncia anônima, agentes federais fizeram uma operação na empresa Yes International S.A., onde “resgataram 129 mexicanos, 121 mulheres e oito homens, incluindo seis menores”, informou o diretor do Instituto Nacional de Migração, Ardelio Vargas. A empresa fica na cidade de Zapopan, vizinha de Guadalajara.

A Procuradoria de Jalisco está interrogando quatro sul-coreanos, que não têm visto para estar no país e foram identificados pelos trabalhadores como os donos, ou encarregados da empresa. A suspeita é de que eles integrem uma quadrilha de tráfico de pessoas.

Brasil

Segundo o cientista político e diretor da agência Abridor de Latas — Comunicação Sindical, Guilherme Mikami, o trabalho escravo não é uma prática exclusiva de países como Camboja, China e México. “Em duas décadas foram resgatados no Brasil mais de 47 mil trabalhadores submetidos a condições degradantes e a jornadas exaustivas em propriedade rurais e em empresas localizadas nos centros urbanos”, esclarece.

Em 2014, 1.590 trabalhadores foram encontrados no Brasil em situação análoga à escravidão. Segundo relatório do Ministério do Trabalho (MTE), divulgado em 28 de janeiro, foram realizadas 248 ações de fiscalização no período.

O estado recordista foi Minas Gerais, com 46 atuações e 354 trabalhadores identificados, seguido por São Paulo, com 159 trabalhadores observados em 21 ações fiscalizadoras e, na terceira posição, Goiás, que registrou 141 casos em 11 autuações.

Dentre as atividades econômicas que mais corroboram para o crime, a construção civil segue na dianteira, com 437 resgates. Em seguida, surgem as atividades do campo, com a agricultura respondendo por 344 casos, a pecuária com 228 e a extração vegetal, com 201 trabalhadores em situação de escravidão.

“No Brasil, a lei define como em situação análoga à escravidão trabalhadores que são mantidos em condições degradantes de trabalho, cumprindo jornadas exaustivas, mantidos em regime forçado ou de servidão por dívida”, complementa Mikami.