“Não é porque somos mulheres que não temos diferenças políticas”, diz Thais de Souza, líder da UNE
Publicado originalmente em 27 de maio de 2015, no blog AG Comunique
Por Dayse Porto
O atual cenário brasileiro tem fomentado discussões políticas em todos os espaços. Nas redes sociais, em casa, no trabalho, cada vez mais pessoas estão se manifestando sobre o quadro político nacional e nas universidades não é diferente. O destaque neste cenário vai para o crescimento da militância feminista provocado discussões urgentes dentre e fora das instituições de ensino.
Do dia 1 a 3 de maio aconteceu em Curitiba o 6° Encontro de Mulheres Estudantes (EME) da União Nacional dos Estudantes (UNE), que este ano teve o tema “Vozes feministas: Ocupando as Universidades e Pela Democracia”.
Estudantes do país inteiro participaram de três dias de atividades culturais e espaços de formação sobre as pautas das mulheres nas universidades na edição que reuniu mais de 700 mulheres, fazendo a marca de maior EME já realizado.
O Encontro aconteceu no Setor de Educação Profissional e Tecnológica (SEPT) da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e teve início na manhã da sexta-feira (1) junto ao ato do 1° de Maio, com mulheres de todo país marchando em direção ao Centro Cívico: “Ocupando as ruas: contra o patriarcado e em defesa da democracia!”
A tarde, após de abertura do evento, houve uma mesa sobre feminismo interseccional e oficinas artísticas. No sábado, foram realizados 12 grupos de discussão (GDs) sobre temas como racismo, democratização da mídia, aborto, saúde, assistência estudantil, tecnologia, meio ambiente e antiproibicionismo.
Uma das propostas aprovadas na plenária final do Encontro é a da paridade de gênero na UNE. Maior entidade estudantil do país, a União tem 78 anos e possui uma Diretoria de Mulheres há apenas 10. A resolução inclusa na Carta do Paraná conquiste em garantir igualdade de 50% para mulheres nas cadeiras de Direção da entidade e é considerada uma conquista da militância de mulheres do movimento estudantil.
A proposta será levada ao 54° Congresso Nacional da UNE, que será realizado em Goiânia, nos dias 3 a 7 de junho. No evento serão decididos os principais apontamentos e demandas dos estudantes universitários e secundaristas à nível nacional. A conquista da paridade, no entanto, pode ser barrada no Congresso, já que a força majoritária da entidade, a juventude do PCdoB, é contra.
Para explicar melhor a importância desse Encontro no atual cenário político, a estudante Thais Souza, uma das organizadoras do evento, respondeu algumas perguntas da AG Comunique. Ela tem 21 anos, é estudante de enfermagem da UFPR e constrói o Coletivo RUA — Juventude Anticapitalista, o Fórum de Juventude Negra do Paraná (FOJUNE PR), o Centro Acadêmico de Enfermagem (CAE) e a Executiva Nacional de Estudantes de Enfermagem (ENEEnf).
Por que um Encontro de Mulheres Estudantes?
Construí o EME por acreditar que um espaço de discussão entre mulheres, apenas, é sempre um espaço de fortalecimento da luta feminista. O encontro abordou temas que geralmente não são típicos em espaços de mulheres, como a pauta antiproibicionista. Os GDs aconteceram, com algumas dificuldades de organização, mas aconteceram, o grande problema foi a plenária final que não conseguiu fechar discussões dos encaminhamentos dos GDs, porque aconteceu de forma muito atropelada.
Qual é sua avaliação final do EME?
Não atendeu as minhas expectativas já que nas mesas muitas falas pareciam tentar esconder diferenças políticas entre as mulheres, e diferenças entre as linhas do feminismo. Não é porque somos mulheres que não temos diferenças políticas e não precisamos expô-las e debatê-las. Afinal, se todas pensássemos o feminismo e a política, de maneira geral, da mesma forma, estaríamos na mesma organização, e não é isso que ocorre.
Como você acredita que esses problemas possam ser sanados para a próxima edição do Encontro?
Gostaria que a pauta das mulheres negras fossem de fato debatidas, e tivéssemos espaços mais enegrecidos, vimos muitas mulheres brancas na mesa, e poucas negras. Sabemos que numa sociedade machista e racista, é recorrente a invisibilização e silenciamento de mulheres negras em espaços políticos. Exatamente por isso, em espaços de fortalecimento da luta das mulheres, não podemos esquecer daquelas que sofrem tanto com o machismo e quanto com o racismo diariamente.
Preparação para o EME
Em diversas cidades do país foram realizados os “pré-EME”, encontros preparatórios auto organizados para o evento, organizados por coletivos regionais. No Rio de Janeiro, o tema do pré-EME foi a descriminalização e legalização do aborto. Em Londrina, foi realizado um sarau sobre visibilidade lésbica. São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, teve dois dias de encontro preparatório, e a cidade de Apucarana, no Paraná, realizou uma palestra sobre democracia, na mesma temática do GD do EME.
Em Curitiba, a Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) também realizou o pré-EME no dia 27 de abril, com uma mesa sobre o tema “Violência Contra a Mulher na Universidade” e oficinas de confecção de cartazes para divulgação do Encontro.
Thayná Batista, estudante de ciências sociais da PUC, participou da organização do pré-EME. Para ela, o processo todo foi muito empoderador para todas as meninas que participaram da organização.
“Embora o evento fosse preparatório para o Encontro, acabou sendo muito mais que isso. A interação entre as meninas que participaram, feministas organizadas ou independentes, abrindo diálogo entre si, foi muito importante para nós”, conta a estudante ressaltando ainda o que isso significa dentro de uma universidade conservadora como a PUC. “Deu unidade para os grupos de feministas que vem tentando se organizar”, ressaltou.
E a UTFPR?
O Coletivo Anália, Coletivo de gênero da UTFPR, também está a todo vapor com a agenda feminista na universidade. Em maio, mês das mães, serão realizadas diversas atividades sobre assuntos que permeiam a maternidade, com o tema “Maternidade, Mulheres e Função Social”. Em parceria com o GETEC — Núcleo de Gênero e Tecnologia da UTFPR, o Coletivo já realizou duas mesas, uma roda de discussão e irá realizar uma segunda, nessa quarta, dia 27.
A ideia não é reforçar o mito da mulher maternal, muito menos o “divino” de ser mãe, é sim, o contrário. Desmitificar o que é ser mãe e reforçar a importância de um maternidade consciente e desejada, debater mitos que permeiam a sexualidade das mulheres mães, o atendimento a elas em diversos âmbitos da sociedade e o atendimento àquelas que não querem ser mães, onde muitas acabam presas por normas do Código Penal Brasileiro, em vigor desde 1984, que criminaliza o aborto no país.
A última roda de conversa sobre maternidade consciente e desconstrução do machismo como papel social, é às 18h30 na sala G-101. Para o mês de junho, já está fechada a mesa sobre feminismo e antiproibicionismo, dia 10, às 18h30, na UTFPR Centro.
Todas as atividades serão realizadas às 18h30. Nos dias 18 e 22, no mini auditório da UTFPR, campus Centro. Nos dias 21 e 27 em sala do mesmo campus, a serem confirmadas. Haverá entrega de certificados em todas as atividades.