Nutella vs. raiz, ou sobre a valorização da pobreza nas humanidades

Desde que emergiu como um dos principais meios pelo qual se expressa a opinião pública, o Facebook tem se tornado um campo marcado pela polarização. Isso contraria uma crença, admitida e valorizada ao longo dos anos 1990 e boa parte da década de 2000, segundo a qual a internet levaria à unificação da esfera pública em direção a um ambiente de debate global, integrado e unificado. Embora os debates sejam realizados entre pessoas que não se conheceriam de outro modo que não pela internet, essa tônica não se tornou realidade. Duas décadas após o advento em massa da internet, a esfera pública que ela deveria ter unificado encontra-se fragmentada, distribuída ao longo de inúmeras clivagens que são tanto o resultado de disparidades sociais — as quais condicionam muito do uso e da relação que se estabelece com a internet — quanto de mediações técnicas, como os algoritmos dos sites que organizam os feeds de notícia e timelines de cada usuário. Duas décadas depois do advento da internet, também vale lembrar, essas questões se tornaram profundos problemas políticos.

É aqui que entra o Facebook. Empresas como o Facebook, ou Google, estão constantemente atualizando os mecanismos responsáveis por seu financiamento com a intenção de melhorar ou aprimorar seus serviços para os usuários. Muitas vezes, essa atividade não tem maiores repercussões e é, até mesmo, benéfica. Um exemplo é realizar a busca por um serviço — digamos, um restaurante — em uma cidade que você não conhece. Baseado em sua localização, um aplicativo como o GoogleMaps irá fornecer as opções mais próximas. Existem inúmeros outros casos, no entanto, que não são tão inócuos.

Em 2006, o Facebook adotou o modelo de “rio de notícias” para organizar a timeline para seus usuários. Esse modelo implica em que tudo que é postado é apresentado para os usuários em ordem cronológica. Apesar de útil, o problema do modelo se tornou a quantidade de informação considerada “inútil” que passava a poluir a timeline, tornando-a cansativa e dispendiosa. Por isso, a empresa alterou o modelo pelo qual apresentava a timeline selecionando o que considerava mais interessante para seus usuários. Isso foi feito através de uma mudança no algoritmo — o conjunto de procedimentos da linguagem de programação que torna o programa efetivo — pela qual, monitorando com quais perfis os usuários mais interagiam (através das curtidas, por exemplo), tornava-se possível mostrar mais as postagens desses perfis do que de outros.

Essa alteração, entretanto, fortaleceu um movimento que já existia desde o princípio na utilização da internet e que, com o surgimento das redes sociais, apenas se intensificou, até o ponto no qual chegamos agora. Qual seja, a criação das chamadas “bolhas virtuais”. O resultado da alteração do algoritmo, no caso do Facebook, é a apresentação apenas (ou preferencialmente) de conteúdos com os quais os usuários já têm predisposição para concordar. Com isso, os usuários, negando um dos sonhos da internet nos anos 90, que era possibilitar o contato com uma grande diversidade de ideias, conversam apenas com aqueles que concordam com eles.

A fragmentação dos espaços de debate na internet já teve um exemplo dramático na criação das duas figuras opostas da política brasileira recente: coxinhas e petralhas. Estudos já demonstraram o “abismo digital” existente entre ambos, ainda que os dois grupos se assemelhem em renda, classe social e formação. Essa polarização, no entanto, não assume sempre expressão tão ampla ou contornos tão sérios mas, mesmo assim, vale a pena pensar a seu respeito. Esse é o caso da dicotomia “raiz” e “nutella”.

Surgida recentemente, a polarização é utilizada, obviamente, com viés humorístico, uma espécie de auto-deboche com aqueles que a veiculam — afinal, ninguém quer ser “nutella”. “Raiz” indica autenticidade, esforço, superação, enquanto “nutella” apresenta o que seriam consideradas facilidades, privilégios ou, apenas, as pessoas se considerando mais do que são.

Como não era de estranhar, já que todos são “raiz”, a polarização encontrou espaço nas ciências humanas ou, mais especificamente, na história. Já encontrei dois exemplos relacionados a ela.

Para entender por que essas polarizações são significativas, é necessário ter em mente outra questão que surge com a mudança no perfil das redes sociais.

Se a internet passou a se organizar, ao menos mais diretamente para os usuários, em torno às redes sociais, isso também significou uma valorização da noção de “identidade” em sua utilização. É fácil perceber isso. A criação de perfis em praticamente todas as contas de aplicações, nas quais é possível adicionar fotos (antes chamados de avatares) ou outras informações sobre si — até mesmo o aplicativo do Banco do Brasil quer brincar de rede social –, é um exemplo simples e banal. Para o funcionamento atual da internet, é bom que os usuários sejam eles mesmos, sempre — mais uma vez, isso contraria o sonho do anonimato com o qual a internet se expressava nos anos 90. Hoje, o anonimato é ruim, é ameaça.

Mas existe também um uso social da identidade ocasionado por essas ferramentas da internet. Se o perfil passa a representar a identidade daquele que utiliza as redes sociais, então é preciso cuidar dele, realizar uma espécie de curadoria constante. Também se torna possível julgar as identidades dos outros. E, como a gama de identidades só pode se organizar em um espectro muito pequeno, já que todos devem concordar comigo (ou com você), uma vez que esse é o efeito criado pelas redes sociais, então as discussões e as brigas se tornam comuns. Tão comuns que resultam ou no ato de bloquear usuários com os quais não se concorda — prática que revela que o Facebook simplesmente não é a esfera pública, pois participantes dela não são excluídos sumariamente a não ser por atos de violência — até criar essas dicotomias como coxinha vs. petralha, ou raiz vs. nutella.

Para mencionar apenas outro exemplo, basta pensar naquelas listas do BuzzFeed nas quais aprendemos que determinados signos “são tão anos 90” ou tudo aquilo que “qualquer pessoa sente quando faz 25 anos”. O que essas listas vendem, através da contagem de acessos, é identidade. Sim, é evidente, todos os anos 90 se enquadram na lista do BuzzFeed ou, óbvio, passei a sentir a idade porque li todos os sintomas de ter 25 anos naquele site.

Identidade, em outras palavras, é uma mercadoria, e uma mercadoria valiosa na internet.

Com isso, podemos voltar à dicotomia raiz vs. nutella. O que ela está expressando ao ser utilizada por estudantes de ciências humanas?

Essa dicotomia, nesse contexto, se insere na sequência daquela figura, que também surgiu nas redes sociais, da pessoa “de humanas”. A pessoa “de humanas” é tranquila, até mesmo desleixada, acostumada com pouco, menos séria que aquelas que “não são de humanas”. Fazer contas!?, só isso já indica que não é“de humanas”. Usar bolsa de algodão cru a tiracolo, isso sim é “de humanas’.

Tais figuras e dicotomias, em minha opinião, só causam prejuízo às ciências humanas, ainda mais quando são reforçadas por seus próprios praticantes.

Em primeiro lugar, elas tornam aqueles que as praticam — estudantes e professores — incrivelmente cegos aos privilégios que possuem. Estudar algo que não possui “utilidade prática” no Brasil é um tremendo privilégio, receber bolsa para isso ainda mais. E, adivinhe, normalmente quem o faz também já provém de uma situação privilegiada, já que pode escolher fazer um curso “sem utilidade prática”, pois já tinha alguma forma de sustento familiar. Sendo assim, uma vez que todos se assumem como “raiz”, tendem a assumir uma pobreza que não têm, e a considerar uma grande luta ou esforço fazer o mínimo que lhes seria requisitado — uma dissertação de mestrado ou uma tese de doutorado, que é o mínimo que se espera de alguém que tem uma bolsa e todo o tempo para estudar.

Em segundo lugar, a própria necessidade de uma narrativa de superação, ainda que pelo viés do deboche, para falar sobre o trabalho acadêmico “de humanas”. Estou ciente de toda a dificuldade institucional e jurídica em torno à categoria de bolsista e não é minha intenção discuti-la aqui, porém valorizar uma identidade “de humanas” ou “raiz” não me parece a forma certa de combatê-la. O trabalho nas ciências humanas não precisa ser um ato de dedicação pessoal, uma vocação, a ser realizada não importa quais dificuldades. Pelo contrário, é só isso ou, melhor, primeiramente isso, um trabalho. Também não é necessário valorizar apenas as narrativas épicas, como se a condição para um bom trabalho fosse ter passado dificuldade. São evidentes as consequências políticas de tal pensamento, que resultariam numa forma de patrimonialismo constante com todos aqueles e aquelas representantes de minorias que atingem o ensino superior ou uma vaga de docência. Sobrevalorizar a pobreza, nesse sentido, só serve para manter presente uma exclusão que não é questionada nem mesmo pelos poucos casos excepcionais que conseguem pontualmente superá-la ou desmenti-la.

Por último, esse discurso tem o efeito prejudicial de nos acostumar com pouco. Ele dá a ideia de que é necessário “suar” para conseguir realizar qualquer trabalho na academia. Mas o que é esse suar? Se eu pesquisasse em arquivos, gostaria de ter um arquivo bem organizado, iluminado, com ar condicionado — justamente para não suar — e espaço necessário para colocar meus materiais, que vão da folha e lápis ao notebook, passando pelo malfadado tablet. Seria pedir demais?

Sobrevalorizar a pobreza significa aceitar uma situação na qual as humanidades podem ter menos financiamento e recurso porque, enfim, são as humanidades, e o pessoal “de humanas”, enfim, não precisa de muito. Sobrevalorizar a pobreza significa escapar de uma crítica institucional e estrutural em direção a uma valorização do esforço individual, da pior forma de meritocracia que todo estudante de humanas, “raiz”, se prontifica de antemão em negar. Essas dicotomias ou estereótipos só servem para tornar a situação mais difícil para aqueles que são enquadrados — ou que enquadram a si mesmos, voluntariamente — neles.

Pior ainda, uma dicotomia dessas invalida colocar demandas que exigem mais. Se já podemos fazer tanto com tão pouco, imagina o que faríamos com muito?