O fascismo é como uma epidemia de peste…
Pouco depois do fim da II Guerra Mundial, em 1947, o filósofo e escritor Albert Camus publicava um dos seus mais aclamados romances, intitulado de A Peste. Certa vez, escreveu o autor: “se você quiser filosofar, escreva romances”. Assim, este pensador francês sempre teve em seus livros de literatura uma forte densidade filosófica e, na obra em questão, transita entre o absurdo e a revolta. Não poderia ser diferente.
Escrito ao fim do conflito bélico, sua obra de ficção funcionava como uma alegoria para o nazismo. O absurdo. A história desenrola-se em uma pequena e comum cidade argelina, de colonização francesa, passada a ser tomada por ratos mortos. Era o prenúncio do que estava por vir: uma cidade a ser infectada pela peste. Inicialmente relutantes em aceitar esse quadro caótico, quando não havia mais como ignorar ou esconder, as autoridades vão determinar: “Declarem o estado de peste. Fechem a cidade”. A epidemia de peste, assim como foi o nazismo, se alastra e consome vidas, impõe separações e exílios forçados. Um estado de sítio que suprime as liberdades e os próprios sujeitos.
Para conter a peste, mesmo quando tudo parece perdido, mesmo diante do absurdo, o autor também aponta para formas de resistência e revolta, de personagens que não se dão por vencidos. Talvez a peste nunca seja plenamente derrotada, mas, para impedir que ela volte a se alastrar e a infectar os indivíduos, é necessário uma atuação e vigilância constantes. Essa parece ser a perspectiva do escritor francês.
Com a inspiração da leitura de Camus, mas sobretudo com o aporte teórico de outros textos, iremos debater o fenômeno do fascismo, refletindo um pouco sobre sua manifestação histórica e no que ela pode nos ajudar a compreender o presente.
Alguns pontos para entender o fascismo
De acordo com Leandro Konder (2009, p.23), nem todo movimento reacionário é fascista. O fascismo não poderia também ser reduzido somente a ditadura ou simplesmente autoritarismo. Nem toda ditadura é fascista, nem todo autoritário ou regime autoritário é fascista. Trata-se, certamente, de um fenômeno político de direita, o qual possui um “conservadorismo intrínseco” em razão de representar “forças sociais empenhadas em conservar determinados privilégios” (Id., 2009, p.27–28).
João Bernardo na extensa obra Labirintos do Fascismo define este fenômeno como “a mais ambígua das formas políticas e, portanto, como a mais artística de todas elas”. Ainda de acordo com o autor, “o fascismo não teve uma genealogia própria e a sua especificidade resultou do cruzamento dinâmico entre aquelas três grandes correntes políticas”. As três seriam: conservadorismo, liberalismo e socialismo. Todavia, do cruzamento dessas correntes e da ressignificação dada a certos temas e simbologias, o fascismo localiza-se à direita do espectro político, ainda que esta não se resuma àquele.
Aliás, vale pontuar as origens do termo fascismo, utilizado por Mussolini. O termo fascio significa feixe. Na Roma Antiga, a unidade do povo era representada simbolicamente por um feixe de machados. No séc. XIX o termo passa a ser utilizado por uniões ou organizações populares em luta pela defesa de seus interesses. Mussolini, então, se apropriou do termo e formou seus fasci di combattimento, núcleos fundamentais para alastrar o que viria a ser conhecido como fascismo. A apropriação simbólica e as ressignificações conceituais, mediadas por um certo relativismo e flexibilidade política, permitiu ao fascismo arregimentar a adesão de parte dos/as trabalhadores/as e semear uma confusão inicial nas fileiras de esquerda.
Desta feita, o fascismo enquanto movimento histórico se constituiu nas ambiguidades, na “emasculação da teoria”. Expliquemos. A conservação de privilégios, de acordo com Leandro Konder, conduz a direita a posições pragmáticas para manter suas posições que são particularistas, ou seja, para benefício de poucos. Konder exemplifica esse pragmatismo: “A efetiva conservação de privilégios depende menos de esforços lógicos do que de energia material repressiva: para o responsável pela prisão é mais importante que os guardas sejam de confiança e a porta das celas sejam sólidas do que persuadir os presos da excelência do sistema penal.” (Id., 2009, p. 28). Tal pragmatismo, com fins à preservação da ordem, leva, em sua radicalização, a uma teoria “mistificadora” sobre a realidade. Nessa perspectiva, o fascismo adotou um “pragmatismo radical, servindo-se de uma teoria que legitimava a emasculação da teoria em geral”. Ou seja, uma teoria sem teoria. Um absurdo, diria talvez Camus.
Uma das principais ressignificações produzida pelo fascismo foi o da luta de classes, a qual despojada de seus elementos constituintes e fundamentais, transformou-se em uma luta entre nações fundada no pacto social entre as classes. Da luta de classes para a luta entre nações. Foi assim que a Itália de Mussolini, para ganhar o engajamento de seus concidadãos, construiu um “princípio sagrado”: a nação ou a pátria. Palavras de Mussolini, citado por Konder (2009, p.35–36): “Criamos o nosso mito. O mito é uma fé, uma paixão. Não é preciso que seja uma realidade. […] O nosso mito é a nação, o nosso mito é a grandeza da nação!”. A exacerbação de uma perspectiva nacionalista é uma das manifestações mais vivas e presentes nos regimes nazifascistas.
Contudo, nem toda manifestação ou movimento político de caráter nacional é fascista. Uma luta anticolonial, ao opor os interesses imperialistas do estrangeiro à soberania local, não é fascista, pois exige maior envolvimento popular com níveis de autonomia e iniciativas não-manipulatórias. Se um nacionalismo anticolonial é, eventualmente, hostil a certas nações pela condição de subordinação existente entre as partes, isso não implica na negação aos valores e culturas de outras nações.
Diferente é o tipo de nacionalismo alimentado e mobilizado pelos regimes fascistas: “O pretenso “nacionalismo” fascista, ao contrário, por seu conteúdo de classe e pelas condições em que é posto em prática, exige a manipulação das massas populares, limita brutalmente a sua participação ativa na luta política em que são utilizadas, impondo-lhe diretivas substancialmente imutáveis “de cima para baixo”.” (Id., 2009, p.39–40). Esse nacionalismo também toma formas mais agressivas e que tendem a negar outros povos e a própria humanidade. O próprio Konder nos traz a marcante frase do fascista espanhol Ramiro Ledesma: “Nos importan más los espanoles que los hombres” (Id., 2009, p.41). Para o regime nazista de Hitler valia o lema “Alemanha acima de todos”.
Porém, poderia o fascismo surgir e ganhar corpo tão somente baseado em discursos mistificadores e formas de atuação política violentas e manipulatórias? Certamente, este fenômeno não teria ressonância ideológica se também não houvessem condições histórico-sociais, materiais incluso, as quais foram instituídas na fase do capital monopolista sob a lógica imperialista em fins do século XIX e princípios do século XX. Estas condições não determinam sumariamente as formas políticas em que se revestem a dominação da ordem burguesa, mas o nazifascismo foi tornando-se uma alternativa viável para o sistema, em uma reação mais agressiva frente as demandas da classe trabalhadora tal como em face de alternativas societárias não-capitalistas.
O sentimento de desamparo social e esgarçamento dos laços sociais provocado pela dinâmica do capital são substâncias para que o fascismo seja sempre visto como uma alternativa, ao prometer a reconstituição destes laços e a conformação de um tipo de amparo social, “servindo-se de mitos irracionalistas e conciliando-os com procedimentos racionais-formais de tipo manipulatório” (KONDER, 2009, p. 55). Desta forma, a exaltação da “tradição” e dos pilares de “Deus, pátria e família” podem, assim, assumir o papel de impulsionadores de uma mobilização manipulatória que promete reconstruir a coesão social corrompida.
Ao tempo, a demonização da esquerda sempre cumpriu um papel importante na difusão fascista: “A “demonização” do adversário facilitaria à direita fascistizante libertar-se em face dele de alguns escrúpulos mantidos pela postura “aristocrática” do conservadorismo tradicional” (p. 60). Liberto de “escrúpulos” e constrangimentos sociais que funcionariam como obstáculos a defesa de posições racistas, por exemplo, o fascismo passa a atuar de maneira mais aberta.
Esses discursos ecoam em decorrência das transformações advindas do capitalismo e as consequências de penúria desencadeadas com as suas crises sistêmicas. Esse contexto era vivo na Europa nas primeiras décadas do século XX e retoma com condições similares em tempos de neoliberalização da vida que imprime forte ofensiva a vida comunitária e as garantias e proteções sociais. Tanto para um período como para o outro, é válido a análise de Konder: “Vítimas da tendência desagregadora que se fortalecia no interior da vida social, reduzidos a uma solidão angustiante, os indivíduos — reconhecendo sua fragilidade — ansiavam por se integrar em comunidades capazes de prolongá-los, de completá-los.” (p.44).
O fascismo — fenômeno político do capitalismo — se manifesta como uma espécie de “revolta na ordem”, como nos vai apontar João Bernardo. Transformar a classe trabalhadora em uma massa, amorfa e passiva, foi uma das condições para o crescimento do fascismo, produzido também pela própria derrocada das lutas e experiências socialistas e de esquerda. Trata-se, também, da representação de incapacidade do próprio sistema em resolver os problemas gerados por sua lógica econômica. Na ausência de uma revolta que subverta a ordem, da qual só a luta socialista sob o controle direito dos/as trabalhadores/as pode realizar, têm-se uma “revolta da ordem” como meio de estancar os efeitos sociais do sistema, de modo a permitir seu funcionamento e a restauração do poder burguês com a desintegração das organizações de classe dos de baixo.
Na Itália, tal como na Alemanha, existiram, antes do domínio fascista, experiências radicais de luta pautada na auto-organização dos trabalhadores que foram sendo derrotadas, não somente pela atuação violenta das milícias fascistas com anuência ou apoio dos governos, mas também em decorrência de horizontes rebaixados para a luta dos/as trabalhadores/as.
Para João Bernardo, com “o abandono da esperança revolucionária, a hostilidade da classe passava a assumir a forma degenerada de ressentimento”. Desta forma, perdia-se a “consciência sociológica” de classe, substituída por pela massa amorfa e passiva. Esta é a base popular necessária para que o fascismo avance de movimento para regime político. Seria a classe média a “vanguarda fascista” ao ver suas perspectivas e sonhos de ascensão social frustradas? Arriscaríamos que sim.
Não há diálogo possível com a peste fascista
“Na verdade, ao ouvir os gritos de alegria que vinham da cidade, Rieux lembrava-se que essa alegria estava sempre ameaçada. Porque ele sabia o que essa multidão eufórica ignorava e se pode ler nos livros: o bacilo da peste não morre nem desaparece nunca, pode ficar dezenas de anos adormecido nos móveis e na roupa, espera pacientemente nos quartos, nos porões, nos baús, nos lenços e na papelada. E sabia, também, que viria talvez o dia em que, para desgraça e ensinamento dos homens, a peste acordaria os seus ratos e os mandaria morrer numa cidade feliz.” (Albert Camus, “A peste”)
O fascismo histórico foi derrotado militarmente ao fim da II Guerra Mundial, no entanto, ele não se esgotou política e ideologicamente. Desse modo, pode se reconstituir militarmente e em forma de dominação estatal e não apenas como um movimento político-social. Isso porque as bases materiais que o formou ainda persistem e, pior, aprofundam-se.
A dominância financista da economia tenciona para o esvaziamento ainda mais explícito das formas democráticas de decisões. A crescente velocidade com que se impõe os processos de valorização do capital em sua intrínseca lógica predatória e destrutiva, potencializadas por inovações tecnológicas que são criadas ou instrumentalizadas para servir a estes mesmos processos, não combinam com os ritmos de uma democracia, mesmo quando esta funciona apenas para cumprir procedimentos ritualísticos e formais. A sanha do capital em sua ofensiva aos bens naturais, ao fundo público e na manutenção de padrões de rentismo exige a própria desintegração de todas as formas de proteção social — incluso aqui não somente direitos trabalhistas, previdenciários e sociais, mas também de todos os espaços de socialização que outrora garantia níveis de coesão social e sentimentos de pertencimento.
Essa desintegração é, naturalmente, a reestruturação de novas dinâmicas de sociabilidade. O advento da modernidade indicou o individualismo como traço marcante de sua sociabilidade. O que presenciamos é o exacerbamento a níveis inimagináveis deste tipo de sociabilidade. Talvez, o neoliberalismo encontra no fascismo sua forma política mais viável na contemporaneidade. Eis o grande perigo. Sob o prisma de uma “revolta na ordem” o fascismo ganha terreno se apresentando como novidade, como se fosse um outsider e estivesse fora do mainstream. O discurso de que não é um “político tradicional” e a substituição da linguagem mais polida e conciliatória pelo discurso enérgico e que destila o “politicamente incorreto” não é novidade entre suas lideranças. O “Duce” e o “Fuhrer” também assim fizeram.
Apontamos também que o fascismo sempre se serviu de métodos de propaganda modernos da época: “O fascismo percebeu, agilmente, que esse crescente investimento na propaganda, servindo-se de novas técnicas e de novos meios de comunicação, abria também novas possibilidades para a ação política, e tratou de aproveitá-las.” (KONDER, 2009, p.47). Não à toa que as redes sociais são inundadas de propaganda direitista, dada as novas possibilidades de propagação de ideias e temas por meio de softwares e recursos tecnológicos. Levadas ao seu pragmatismo radical a direita é conduzida para o uso sistemático das chamadas “fake news” e de difusão de “memes” e recursos midiáticos da internet pouco afeitas com a razoabilidade e racionalidade dos argumentos. A necessária falta de rigor na condução dos debates, põe a direita e, em especial, suas expressões fascistas, uma vantagem significativa na guerra midiática. Trump nos EUA e Bolsonaro no Brasil encarnam e mobilizam todos esses elementos que listamos.
Para estancar a epidemia de peste fascista que se alastra pelo mundo não há mágica nem atalho político. Mais do que livros de história e sociologia, é preciso reconstruir os laços de solidariedade de classe, esgarçados pelo capital e sua racionalidade. Que a revolta vença o absurdo. Que a revolta não seja a absurda ideia de reforçar a ordem, mas sim, de subvertê-la sob o controle e protagonismo direto dos oprimidos/as. Fora disso, não há remédio possível para a peste fascista.
Lucas Menezes Fonseca
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Bibliografia:
BERNARDO, João. Labirintos do fascismo. Disponível em: <https://colectivolibertarioevora.files.wordpress.com/2015/05/labirintos-do-fascismo-nova-versc3a3o.pdf>
CAMUS, Albert. A peste. 23ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2017.
KONDER, Leandro. Introdução ao fascismo. 2ª ed. São Paulo: Expressão Popular, 2009.
