amor de quatro

Parece que meus dotes para a psicologia são grandes. Talvez por minha mania de observar tudo o que me rodeia. Talvez, por minha obsessão de enxergar no outro uma utopia de mim mesmo. Que se dane.

Outro dia, por acaso, me encontrei com minha vizinha de frente na lavanderia. Apesar de eu saber tudo sobre ela, nunca havíamos nos falado. Ela estava triste e inconsolável. Pena que eu não podia intervir com um abraço ou a oferta de um ombro amigo. Ainda éramos apenas dois desconhecidos.

Meus olhares, constantes e fixos, acabaram por incomodar Júlia, que me abordou na saída do estabelecimento. Ainda abalada, me perguntou o porquê de tanta atenção. Eu, envergonhado, disse a primeira coisa que me veio à mente: “sou psicólogo e analisar pessoas é meu hobbie favorito”. Surpresa, sua expressão mudou tão rápido que achei que ela fosse bipolar. Polipolar, vai saber.

Júlia , antes mesmo de perguntar meu nome, quis marcar uma consulta. Sem saber para onde correr, afirmei que não atendia em consultório. Insistente, ela me convenceu que eu a atenderia em minha casa. Aquela situação um tanto quanto inusitada instigou meus instintos de jornalista, minha real profissão, e a vi como uma oportunidade de confirmar tudo o que já havia apurado a respeito da moça.

Chegou o dia. Pontualmente às 15h a porta se inquietou. As batidas eram tão fortes que mais pareciam o coração de quem voa de asa-delta ou o meu, que pulava do peito num ritmo que me remitia a um até do Luis Caldas. Abri a porta sem usar o olho-mágico. Ela entrou vestida com um cardigã de bolinhas, meias amarelas, saia rodada e sapatos pé-de-um, pé-de-outro. Aquela beleza peculiar me causava um rebuliço estomacal que Deus me livre!

Num divã improvisado ela começou a contar o que a afligia como se eu já não soubesse. Coitada. Mal sabe que a observo desde que mudei para o condomínio. Sempre foi divertido ver os dois homens com quem ela vive entrando e saindo, dela e da casa dela. As brigas entre os três, que não eram tão comuns, aticavam minha criatividade ao criar, num imaginário distante, as supostas falas de cada um. Eu me sentia o maestro de uma orquestra sinfônica.

Esperando de mim uma reação mais aguda, Júlia se espantou com minha naturalidade ao vê-la contar que vive num relacionamento a três. Adepta do poliamor, a jovem se levantou do “puf-divã” e perguntou se eu também vivia a três. Respondi que não. Perguntou se eu era doido e também respondi que não, apesar de eu ter lá as minhas dúvidas…

Depois de se acalmar, Júlia se sentou no chão. Contou que amava os dois mas não sabia se ainda os queria. Expôs sua vida sexual como se já não fosse exposta o suficiente a ponto de eu ser o espectador mais assíduo desse “reality show”. Dissertou sobre as vidas de Marcos e Carlos tratando-as como se estivessem longe e ela as estivesse espiando, assim como eu faço.

Ah, não havia dito antes, mas meu nome é Júlio. Coincidências à parte, eu, que não tenho papas na língua por nunca ter gostado do Vaticano, não adverti Júlia sobre já saber de tudo. O que mais me impressionou nessa história toda foi a forma tranquila com que ela falava sobre aquilo. Era de se admirar.

Ela foi embora, aparentemente satisfeita pelo desabafo, e eu fiquei aqui, no quarto andar, olhando para o quarto que aquele trio ocupava de quatro.

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