colcha de retalhos

Colcha de retalhos.

O mantra dá tom à um fim de tarde escuro. É sua própria voz.

Uma blusa preta, listrada de branco, cobre sua genitália debaixo de um computador que é acessado constantemente em períodos do dia como esse, em que o tédio dá uma de atleta e corre por cada cantinho do seu corpo e cabeça.

A janela está fechada e faz calor, mas isso não o incomoda: a temperatura não é mais importante que saber lidar com seus olhos molhados.

Seu coração está inquieto. Inquieto desde o começo da manhã quando acordou sentindo fincadas na alma e dor na mente. Lá antes, seus olhos estavam mais inchados do que agora. No agora, eles estão parados, olhando ao nada, sem muita esperança de se molhar novamente tão cedo.

Ele está partido ao meio. Cada metade foi para um canto e cada canto fugiu da metade que foi ao seu encontro. As metades estão perdidas uma da outra e sem completude para lhes fazer um pouco melhor. Estão, também, inquietas.

Com partes em opostos, o que resta em si é um pequeno pedaço da intercessão que existia até pouco tempo. Esse ponto luminoso pisca, pisca e pisca. Tem hora que ele para de vez mas, como mágica, começa fraco e retorna ao brilhante.

A voz ainda canta, mas dentro da mente doída e da alma carcomida. Interna, canta mais alto, grita, já que as ocasiões lá de fora não permitem muitas exaltações (sem exaltações, sem exaltações).

A voz de dentro vem da sobra da intercessão. O todo não existe mais. Está despedaçado. Não está mais com ele.

Não está mais aqui.

Colcha de retalhos.

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