morada temporária

Descia a rua Rio de Janeiro, logo cedo, às 06h, quando avistei algumas barracas. De uma delas saía Paulo, pessoa em situação de rua há dez anos. Ele subia em direção à Rua da Bahia quando foi abordado por mim. Sem saber muito o que dizer, perguntei seu nome e o porquê de ele estar morando na barraca azul de que saiu há poucos minutos. Tímido e intimidado, continuou andando sem dar muita atenção, e só respondeu quando lhe ofereci um café da manhã numa lanchonete próxima à rua Espírito Santo.

Após aceitar o convite para um lanche, Paulo falou mais. Contou sobre como é viver na rua e como as pessoas os tratam como invisíveis. Além disso, fez questão de tecer comentários carinhosos sobre os amigos que fez e mantém nos locais próximos de onde posiciona sua casa improvisada. Chegando na lanchonete, Paulo ficou receoso em fazer um pedido. Lhe ofereci bolo e café e ele, sorrindo com o canto da boca, disse que gostava e concordou. Pegou o café da mão da balconista como se estivesse encontrando ouro numa mina em Serra Pelada. O bolo, segurou com firmeza como se ele fosse escapar de seu domínio.

Fomos embora de volta à Rio de Janeiro conversando e observando as barracas vizinhas à azul de Paulo. Perguntei se ele ainda precisava de outra coisa que estivesse a meu alcance ajudá-lo e, após negativa, continuei procurando histórias, até ser abordado por Ismael, também pessoa em situação de rua. Com um jornal impossível de identificar pelas rasuras e amassos, apontava para políticos culpando-os por ele estar na rua. Indagou sobre poder me falar da palavra de Deus e, já andando, indicou o lixo do chão e ordenou que eu pegasse e jogasse em local apropriado. Segundo ele, esse gesto é importante e faz parte de suas tarefas diárias. Entramos em outra lanchonete, dessa vez na Avenida Afonso Pena, onde fomos recebidos com olhares desconfiados. Ismael pegou um vidro de pimenta e experimentou, alegando gostar da especiaria “sem frescuras”. Pediu somente meio copo de café com leite e, ao receber um inteiro, despejou sobre a pia do balcão a outra parte. “Eu pedi só metade, entendeu?”.

Seguimos rumo à rua Curitiba, sem motivo, quando Ismael parou e pegou em meu ombro. “Quer apostar que vou acenar para as pessoas do ônibus e ninguém vai corresponder e, se corresponder vai ser com um sorriso irônico?”, desafiou. Ele foi para a faixa de pedestres e fez o que prometeu. Os passageiros do coletivo, azul como a barraca de Paulo (lá da Rua Rio de Janeiro), reagiram como o esperado: olhavam torto, com sorriso idem. Ismael voltou para a calçada com olhos realçados e disse ser triste “essas humilhações”. “Ser tratado como bicho, sem dignidade, é muito ruim, sabe? Só Deus mesmo, a palavra dele, me salva e pode salvar”, exclamou. Nos abraçamos e partimos para vielas opostas.

Perto da rua Tupis um homem sentado num banco chamou atenção por sua cabeça baixa e papelões velhos sobre os pés, sujos e descalços. Receptivo, porém perceptivelmente triste, se apresentou como Antônio e me ofereceu um canto do banco para sentar. Obedeci seu chamado e, assim como nas situações anteriores, ofereci ajuda e um café. Aceitou logo de cara e eu, apressado, fui procurar estabelecimento para comprar comida. Nenhum dos próximos aceitava cartão e, após cinco tentativas fracassadas, voltei ao banco de Antônio e esperei com ele até o horário de o supermercado do quarteirão abaixo abrisse.

Durante o papo, Antônio enumerou os poucos parentes que tem no Rio de Janeiro e relembrou os tempos em que morava em sua terra natal, Ceará. Afirmou que o forró é seu ritmo musical favorito e que, um dia, pretende reencontrar seus filhos de 23 e 12 anos, no Rio. Reclamou sobre a dificuldade de tomar banho na cidade e a violência. Sua mochila de documentos foi roubada, assim como o cobertor que havia ganhado de uma instituição. Ainda mostrou as feridas de sua perna esquerda devido a um “acidente” com um taxista, que, segundo ele, “passou por cima sem olhar para trás.”.

O supermercado abriu e a felicidade de Antônio ao ver seu lanche também. Dividiu com seu colega que surgiu no tempo em que fui ao mercado e, os dois, se despediram de mim com um abraço apertado e um agradecimento sincero. Fui embora tentando mensurar a importância do que havia ocorrido e pesando como atitudes como essa ainda são pequenas perante um problema que cresce e ninguém vê. Ou pelo menos finge não ver.