quatro vezes, mulher

Levantei da cama, numa tarde vazia, depois de apoiar-me no sofá, por longas horas, na tentativa de diminuir o peso que carregava. Esse peso, antigo, nunca me abandonou. Ele, coitada de mim, só aumentava, no mesmo passo em que as coisas, sim, todas as coisas da minha vida se esvaíam. Ou aconteciam bem na frente dos meus olhos sem eu, sequer, perceber.

Já gostei de Pedros, de Júlios, de Gustavos e, até, de Lucas - não tem plural pr’esse nome. E olha que eu gostei de verdade: chorei, fiz cartas (nunca enviadas), curti fotos na internet. Por qualquer motivo que seja, nada adiantou. Minhas frustrações amorosas, eram, evidentemente, mais profundas que imaginava.

Conheci uma garota que me beijou, numa festa qualquer. Seus lábios, secos e vermelhos, me remetiam à funcionárias do bordel da novela Fascinação, uma das minhas favoritas. Seu vestido, curto e solto, ia e voltava com o vento que era protagonista daquela noite de quinta-feira.

Fiquei com medo. Por quatro instantes me senti acoada, frágil. Parecia que ela e as pessoas me encaravam. Ela com uma cara de "você não sabe beijar", e, as pessoas, "sapatona rasgando o couro, olha só!". Todos os, tantos, discursos que ouvi desde minha saída da maternidade passaram por minha cabeça como um sermão de uma igreja que frequentava até o início da adolescência, que reiterava todos eles, acrescentando tons místicos e ameaças disfarçadas.

Ainda não sei seu nome. Inventei uns e criei outros. Tudo numa tentativa implacável de encontrar aquela que eu era antes daqueles toques nos lábios. Aquela, vulnerável e susceptível mulher que teve medo de se entregar, e que, agora, sonha todas as noites com uma nova oportunidade.

Não encontro quem era e ainda busco quem sou. Os Pedros e Gustavos ainda não voltaram, e eu, inconscientemente, ainda os espero.
Confesso duvidar da contínua existência desses nomes em mim.

Eu, mulher, não me ocupo mais com frações de gêneros, orientações ou sexo. Sou um corpo que fala, que sente, que dói. Um corpo que procura outros corpos, como os de Lucas, como os D’Ela. Principalmente os D’Ela.

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