sobre lasanhas e preconceitos

Hoje comi lasanha e sorvete. Fui em Venda Nova, usei MOVE pela primeira vez (sim, pasmem) e tirei fotos com escadas e letras "A". Conheci gente nova, fiz amizade, reforcei antigas e contei segredos. No fim de tudo, ora, estava na Estação Santa Tereza esperando o trem no metrô quando algumas vozes começaram a se misturar com a que eu escutava no telefone que havia atendido pouco antes. Desliguei a ligação, incomodado com o rumo com que a conversa indicava caminhar. Dois homens brancos, se dizendo pais de família (heteronormativas) lançavam impropérios contra mulheres, gays e lésbicas.

"Eles não tem vergonha, pegam no caralho do outro no meio da rua, dá nojo", dizia o calvo de camisa listrada à minha esquerda. O outro, concordando como uma tartaruga daquelas de enfeite de lojas de um e noventa e nove, reafirmou o que escutou com o argumento que "o mundo está acabando", utilizando fundamentos (?) religiosos pra tal justificativa.

Meus olhos já apontavam para os dois quando mudaram de assunto. "Mulher com mulher é muito feio", comentou o calvo listrado. Seu colega de discurso de ódio disse em voz alta que mulher, no geral, "não é uma raça que presta". Segundo ele, "mulher tem que usar short largo pra não dar motivo pra macho ficar provocando". A cabeça do outro machista, lesbofóbico e homofóbico fazia sinal positivo.

O trem passou e fiz questão de entrar no mesmo vagão que o calvo e o cabeludo que acabaram com meu dia com comentários preconceituosos. A conversa continuou e eu, incomodado, tentei fazer uma abordagem educada. "Com licença, senhor [falando com o calvo], mas não pude deixar de escutar a conversa de vocês...". Fui interrompido pelo cabeludo. "Nós estamos conversando". Insisti. "Por isso mesmo. Eu escutei e acho que...". "Você não tem que achar nada.", exaltou-se o cabeludo enquanto o calvo não se pronunciava. Fadigado, pra não dizer aborrecido com toda aquela situação, me afastei para descer na estação da minha casa.

A voz que anuncia as paradas do trem surgiu. A porta da saída era bem ao lado dos bancos preconceituosos. Escutei barulhinhos vindos das bocas que soltaram os impropérios citados no início do texto que, claramente, se referiam a mim com tom de insulto, atribuindo estereótipos e provando que todo o discurso discriminatório também era empírico.

Antes de descer, olhei diretamente para os dois e, bem baixinho, pronunciei a palavra "amor" e sorri. Não pude ver a reação dos companheiros de banco com couro cabeludo distinto um do outro.

Chegando em casa, deitei pra assistir um dos meus filmes favoritos e fiquei pensando sobre tudo o que vivi num vinte e sete de dezembro de um dois mil e quinze que está quase acabando. Lembrei da lasanha e do sorvete de chocolate, da companhia de dois melhores amigos, das amizades que fiz e de como foi gostoso passar a tarde comendo bombons de uva e tirando fotos de escada. No fim, o extrato foi uma boa prova de que a militância é muito, muito importante, e que desconstruir [preconceitos], uma palavrinha tão famosa nos últimos tempos, é tarefa diária e essencial, pelo menos enquanto o mundo se apresentar tão quadrado.

Agora, deitado na cama, lembro do gosto da comida compartilhada e dos sorrisos de gente que, sem dúvida, assim como eu, sonha com um mundo livre de um ódio mesquinho gerado por limitação cerebral e uma certa "miopia".

Ah, hoje comprovei que lasanha é meu prato favorito e que sorvete de chocolate é uma sobremesa maravilhosa p'rum almoço de domingo. Mas nada, nada mesmo, vai tirar da minha boca o gostinho de ter falado "amor" pra gente com o coração temperado de ódio. Nada.

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