Você não está bem e está tudo bem

Imagem: Freepik

Tem dias que dá. Tem dias que não. E nesses dias, vamos ser honestos, você não está bem.
Nesses dias, tudo parece igual — igual aos piores dias da sua vida. E mesmo que hoje não seja esse dia, se você não está bem, a sua mente rapidamente te faz lembrar de algo muito ruim ou muito vergonhoso e aí sim, você está pronto — não está bem!
É nesses dias que para não se sentir sozinho, você pode apelar para uma companhia sedutora de início, mas que vai te matar depois (e falo sério, ela mata literalmente, aos poucos, minuto a minuto) — a depressão.
Você começa, então, a perceber que seu semi-consciente te domina: escolhe as músicas mais tristes na sua vida (mas tristes apenas para você, afinal essa é uma das canções da sua vida e te mostra que tudo aquilo no passado deu errado!). Depois, enche o balde com muitos doces (que relaxante! Agora me sinto melhor, mas… ops! Quantos quilos vou ganhar com isso? E se eu começar a comer demais de novo? E se eu voltar a ter aqueles doze quilos a mais? E se eu desenvolver resistência insulínica? E se… e se… e se…?). O dia vai passando e, é claro!, é hora de acessar o perfil do ex-namorado no Facebook ou da atual namorada dele, vendo foto dos dois felizes. Você sabe a máxima: Deu certo enquanto durou e se fosse bom, não seria ex (e convenhamos, todo mundo é feliz no facebook, isso zera muita coisa). Mas nessa hora, por mais racional que você seja, tudo o que você consegue fazer é procurar meticulosamente diversas razões para provar a si mesmo: você não está bem! E advinha? Você acha!

O não estar bem é muito relativo e extremamente pessoal. Veja bem, conheço pessoas tão transparentes que somente da forma que a pessoa anda sei que ela está sendo sufocada por angústias ou por mágoas e que, sim, ela precisa falar ou simplesmente vai dar meio passo e mais nada. Conheço outras que tendem a sempre fazer comentários negativos, duvidosos, pondo em cheque diversas oportunidades de ficarem com a boca fechada ou reverem vários conceitos e ideias. E tem também aquele grupo de pessoas que parece que está sempre bem e advinha!!! Ao olhar para o tal jardim delas, ou para os olhos dela mesmo, você vê que não: tem dias que não está tudo bem. E aí me dá vontade de gritar: VOCÊ NÃO ESTÁ BEM!

Antes que você pense que estou aqui só para apontar para os outros, vou logo confessar: Não, eu não estou bem.
Nos últimos dias me sinto mais cansada que o normal, sem ânimo, começo as coisas e advinha: elas não acabam. Parece que a única energia que tenho é voltada para cavar um buraco, um buraco que eu mesma vou entrar daqui a pouquinho. E entender isso está me sendo absurdamente útil.

Vamos à lógica: ignore o “tudo vai dar certo!”. Quando você não está bem, dane-se o tudo e o dar certo. O que você quer, naquele momento, é que alguém, qualquer pessoa do universo apenas entenda que NÃO, VOCÊ NÃO ESTÁ BEM.

E aí que entra o X: Você não está bem e está tudo bem.

Está tudo bem se você não se sente confortável com uma situação. Se você acha que está enfrentando algumas dificuldades que parecem te virar do avesso. Se tem hora que você realmente considera logicamente a possibilidade de desistir. Se em alguns momentos você pensa “Porque sai de casa hoje? Deveria ter ficado na minha cama!”. Acredite, está tudo bem!

Porque eu digo isso?

Porque o que realmente me preocupa é quando eu não me sinto. Não sinto que não estou bem e também não sinto que estou. Essa apatia me anula, me apaga do mundo, nem mesmo à mercê das coisas me deixa, pois eu simplesmente deixo de existir enquanto isso não passa. O problema é que quando eu volto a me sintonizar com as coisas levo aquele tapa na cara: a apatia estava em mim e não no mundo, logo tudo continuou e eu… nem sei mesmo onde estava.

É aí que percebi algo em mim que me fez entender algo muito insano da psique humana: lembra do buraco que eu estava cavando? O objetivo dele afinal é: quando eu cair e estiver lá embaixo, eu só posso ir para cima!

Okay okay! Mas, não okay! O tempo e energia que se desprende quando você cria esses mecanismos de auto depreciação podem ser utilizados para outra coisa. Óbvio, né?

É por isso que ao perceber o buraco que eu estava cavando e já estava enterrada nele até o cintura, resolvi parar de pular e espernear e comecei a analisar a situação real: se eu não cair até o fundo dele, eu posso ainda subir, mas será apenas meio caminho. E acredite, o fundo do buraco ou do seu poço, não é tão legal assim quanto parece.

Mas, sejamos honestos: subir exige o mesmo esforço que descer. E tem dia que não dá, tem dia que você não está bem. E tudo bem!

Nesses dias, façamos uma pausa. A cada vez que o semi-inconsciente nos empurrar para a próxima facada, simplesmente assumamos o controle. E se for preciso, que fiquemos de luto. Luto pelo que for. E ao final, luto por esse período de “deixa a vida me levar, eu sou mesmo o que os outros dizem, eu realmente não consigo.”

É hora de abrir um pote de sorvete, ficar de pantufa em casa, deitar no colo de quem te protege ou brincar com o cachorro (você pode estar de péssimo humor, mas ele realmente vai te animar!). É hora de pedir ao amigo uma música alegre, ler um texto qualquer, assistir a um filme e acima de tudo, descansar. Descansar da mesmice, de si mesmo, da confusão, das incertezas e das angústias. Após uma boa noite de sono, um novo dia realmente faz sentido. E novo dia, as coisas serão mais leves, se assim você permitir.

Que seja tomada, então, uma decisão por vez.

Mas eu só quero que saiba que não é preciso se martirizar ou se culpar: se hoje você não está bem, está tudo bem.

(Texto originalmente publicado em blog pessoal)

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