“Manchester à Beira-Mar” e o silêncio que nos fala

Navegando por águas que poderiam ser reais, “Manchester à Beira-Mar” é dramático e de tom certo. Cobrindo um pequeno espaço temporal da vida dos personagens, o filme ultrapassa a tela clamando pela atenção do espectador de maneira calma e marcante, infiltrando-se onde guardamos nossos próprios silêncios.
Totalmente apático, o ritmo do longa nos permite reagir aos seus tons de cinza. Nos questionamos sobre a reação de alguns personagens para com o protagonista e o filme é honesto ao deixar claro que algo muito ruim aconteceu. Em nossa mente começam a surgir as suposições, mas nenhuma delas chegará ao ponto cru da tragédia que assolou a vida de Lee Chandler e sua família.
Embora importante, esse episódio não é o ponto central da história e vem em hora certa para que possamos entender um pouco mais as ações do personagem. A tragédia é inesquecível, flerta com o inimaginável, mas não é sobre ela que o filme nos fala. É sobre o depois, sobre o que resta quando não resta nada.
A doença fatal de seu irmão o obriga a voltar para sua antiga cidade. Lee correria na direção oposta, mantendo-se afastado e protegido de seu passado e tudo que isso significa. Mas ele volta.
É notável seu esforço para voltar e tentar administrar as necessidades para fazer o funeral, mas o tornado de emoções chega e se instaura com a missão de cuidar de seu sobrinho. Missão essa que ele não quer, não sabe como fazer, mas não pode deixar de considerar — sangue de seu sangue, Patrick é muito mais do que apenas um pedaço de seu irmão. Patrick está inteiro.
Não poderiam haver dois personagens mais opostos. Marcados pela mesma dor e luto, Lee e Patrick se desencontram e nesses momentos de distância voltam a caminhar lado a lado. Lee quer ajudar, mas não pode se envolver. Patrick quer continuar vivendo, mas não sabe como lidar com os sentimentos provocados pela perda de seu pai e com as mudanças que são esperadas. Nenhum dos dois quer estar nessa situação e não há o que se falar sobre isso. Há apenas o que se respeitar.

“Manchester à Beira-Mar” é um filme de silêncios. Lee não fala muito e não expressa o que sente. Em forma de flashbacks descobrimos o porquê. Superando a camada de uma história sendo contada, o filme nos convida a ver o mundo como o protagonista o vê e isso nos incomoda.
O mar, antigo amigo de Lee e sua família está tão presente quanto qualquer personagem de carne e osso. Literalmente, ele nos mostra a continuidade e a beleza dos silêncios. Figurativamente, ele nos preenche e nos afoga em nossas próprias emoções como observadores de tudo o que acontece, não podemos fazer nada por Lee e seus familiares.

Deste mesmo mar que Lee vê a vida de Randi, tão bela e quebrada, tão frágil e forte, tão doce e triste. É também para este mar que ele volta, quando sente que a terra vai afundá-lo, prendê-lo, sufocá-lo, julgá-lo. Não há perdão para Lee, mas dizem que o mar tem propriedades curativas e o mar, ah!, o mar nunca para.
Assim como o mar, é no silêncio e aparente calmaria que a comunicação atinge o ápice de sua excelência. É no silêncio que as atitudes são tomadas e a vida acontece em sua plenitude e de forma determinante. São mudanças sutis, como apenas o mar faria. Cabe a nós aceitar mergulhar em suas águas ou nos mantermos em terras firmes. Mas o silêncio, esse é difícil de se esquecer.
