Cidade grande x interior

“Caipira picando fumo”, obra de 1893 de Almeida Júnior. É assim que o homem metropolita vê o homem do interior.

É natural que cada um de nós compreenda o mundo a partir de suas próprias experiências, valores, educação, limitações. Isso pode explicar porque os moradores das grandes capitais têm dificuldade de entender o mundo e seus problemas para além das favelas, dos congestionamentos, da violência policial. Se pensarmos que a maioria dos nossos líderes políticos, de nossos artistas, de nossos jornalistas — enfim, de nossos formadores de opinião — provém de grandes cidades, podemos perceber parte das razões pelas quais o interior do Brasil anda tão abandonado: é porque no horizonte dessas lideranças políticas e culturais, ele não existe como uma realidade, mas apenas como uma abstração pitoresca.

No Brasil de 200 milhões de habitantes, cerca de 70 milhões vivem em cidades com menos de 50 mil moradores — para focar apenas nas menores. Ou seja, 35% da população vive em pequenas cidades — aquilo que alguns formadores de opinião chamam, pejorativamente, de “grotões”.

Na mente desses formadores de opinião, são cidades com uma população analfabeta, envelhecida, preguiçosa, meio estúpida, que só quer saber de ouvir música sertaneja enquanto assiste aos jumentinhos pastando na rua. O estereótipo faz de todas essas cidades ambientes semi-rurais, áreas bucólicas sem futuro, com povo hospitaleiro e desdentado, que masca capim e fuma pito de palha.

Os problemas dessas cidades são, em alguns casos, muito diferentes daqueles das metrópoles. O hospital mais próximo pode estar no município vizinho. A escola não tem internet. A biblioteca, se existe, vive fechada. O lazer restringe-se ao boteco. O emprego é sempre mal remunerado e os direitos trabalhistas são frequentemente usurpados. Falta polícia para coibir qualquer crime. Outros problemas são, infelizmente, iguais: o tráfico de drogas mudou-se para o interior e para lá leva sua desgraça de vício e violência. O trânsito vai se avolumando em ruas sem preparo para isso. E por aí vai…

Um aspecto que quase sempre passa despercebido é o fato de que, no interior, a clivagem social é completamente diferente.O habitante da cidade grande convive com desigualdades sociais muito mais gritantes — frequentemente traduzidas em desigualdades geográficas, urbanas. Brasília, por exemplo, é um monumento à desigualdade social, com seu Plano Piloto construído como cidade modelo, a ser habitado apenas pelos mais ricos, enquanto todos os demais devem ser afastados para as chamadas (não mais) cidades-satélites. E Brasília é só um exemplo do que ocorre em tantas outras capitais. Com raras exceções, o sujeito rico não convive com aquele de classe média e muito menos com o pobre, a não ser em situações profissionais ou de prestação de serviços. Esse muro invisível, no entanto, não é igual no interior.

Na cidade pequena, em geral só existe uma escola, sempre pública. É nela que todas as crianças estudam, qualquer que seja sua classe social. Nas ruas, nas igrejas, nas pequenas festas, todos se esbarram. Todos têm um parente ou um amigo mais remediado, outro menos. A convivência é maior, o ódio social muito menor. Por isso a pregação marxista tem tanta dificuldade em penetrar nos “grotões”: ódio de classe ali chega a ser incompreensível.

É nesse ambiente que vive grande parte da população — que vive e, surpresa das surpresas, prospera. Algumas delas são os celeiros de alimentos do país, outras centros produtores de todo tipo de mercadoria. Ali vivem pessoas que, sem ter feito cursinhos de inglês desde os 3 anos de idade, sem ter feito milhões de viagens ao exterior, sem ter tido outra opção que não a escola pública, se esforçam para vencer na vida de um jeito ou de outro: seja permanecendo no interior, trabalhando nas opções de emprego disponíveis, seja procurando outros caminhos fora.

Mas os habitantes da cidade grande têm dificuldade de entender essas coisas, simplesmente porque não as veem. Acreditam que as soluções para seus problemas servem para o interior, mas não servem. Ou que seus problemas são mais importantes, mas não são.

Apesar de todas as dificuldades, os “grotões” vão bem. Ainda oferecem uma tranquilidade que o apressado e assoberbado homem da cidade grande não consegue sequer imaginar — apenas ansiar inutilmente.

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