SOU VICIADO…

DoNatelo
DoNatelo
Sep 7, 2018 · 3 min read

Nunca me questionei se era caso genético ou uma cultura passada ao longo das criações, mas ao olhar, hoje, para minha família vejo o vício como um tipo de herança de pobreza, cujos laços entre os membros não eram claros devido ao fato de eu sempre me vangloriar de ser a exceção. Olho para trás e vejo alcoólatras e usuários de drogas, vejo viciados em jogos, hoje falidos e/ou mortos, mortos por seus vícios que tinham como única proposta a emulação do sentir e a fuga da dor.

Hoje aos 31 anos e quilos que somam ao meu corpo mês após mês, como um cheque especial descoberto, cobrando juros sobre juros dia após dia, vi na comida o meu vício desde criança. Vejam! Jamais aqui farei qualquer elucidação sobre o certo ou errado e suas formas, pois não se trata disso o vício. Se a sociedade considera importante o peso do outro, criando mal-estar toda vez que se critica o peso a mais ou elogia o peso a menos (Deixando sempre claro a importância do peso) é porque a sociedade está doente.

Hoje quero falar do vício em um mundo onde a droga está em cada esquina e ninguém sequer é capaz de entender e ajudar aos que estendem o braço em busca de socorro, são gritos sufocados, pois “basta fechar a boca”, como disse: “gritos sufocados”!.

Comer é uma experiência maravilhosa, um ato de amor quando alimentamos alguém, um ato de amor quando alguém nos alimenta, mas o vício é o paladar morto. É ir além do prazer. Do querer de um modo automático no qual a alma sai do corpo e assiste de camarote o corpo deglutindo sem sentir, sem pensar. Um homúnculo no comando. Comer passa a ser a forma de jogar ao cérebro uma carga de dopamina. É a perda do sabor. E o cérebro, cada vez mais resistente, pede cada vez doses mais altas da química, de tudo aquilo que me fará sentir feliz por um espaço de tempo. Até que o efeito passe e vem um vazio, uma tristeza. Um buraco que chamo de fome, mas é fome de viver, fome de sabor, que transformo em fome de pseudocomida, fome de ultraprocessados, fome de frituras, fome de chocolate.

E a cada dia olho e digo que será a ultima dose, que será o ultimo pacote, pois quando acabar não comprarei outro, o ultimo desejo de um criminoso antes da morte, mas no dia seguinte estou eu ali, diante de mais um pacote como se fosse mais um trago, mais um copo, mais uma carreira.

Sigo viciado em um mundo que considera que sou apenas um vagabundo sem força de vontade… Sigo viciado ouvindo sobre minha fraqueza de alma enquanto meu corpo implode em pizzas e hambúrgueres… “15 reais de bônus, peça agora e frete grátis”, “compre um lanche e ganhe outro”. E se trocássemos por outros nomes? “Ganhe 15 reais de desconto na compra de uma droga”, “peça uma carreira e mandamos outra”.

Sou viciado. Só por mais um dia queria não ser, mas como deixar o vício, quando precisamos dele a cada dia para não morrer? E daí temos aquela máxima: “A dose certa é cura. A dose errada é morte”, mas quem diria? Esse veneno mata aos poucos e a dor vem de dentro para fora e dos outros para nós.

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DoNatelo

Cozinha, dança, livros e relações humanas. Professor de francês e, assim como Clarisse, “quero o é da coisa”.